Tarzan: O Regresso do Senhor Selva

Novembro 30th, 2007

Depois do aturado trabalho de restauro levado a cabo com o “Príncipe Valente”, de Harold Foster, a editora Bonecos Rebeldes inicia a publicação de outro clássico da Banda Desenhada americana publicada nos jornais, a série “Tarzan”, na versão clássica e elegante de Russ Maning.

Criado pelo escritor inglês Edgar Rice Burroughs, em 1912, nas páginas da revista “The All Story”, Tarzan é uma das mais conhecidas personagens de ficção de sempre. Nascidas na literatura, as aventuras do homem macaco foram adaptadas ao cinema e à televisão, mas seria a Banda Desenhada a fazer inteira justiça ao universo fantástico imaginado por Burroughs, graças ao trabalho de desenhadores como Harold Foster, Burne Hogart e especialmente, Russ Manning.

Nascido na Califórnia em 1929, Manning foi o desenhador que melhor revitalizou a imagem do homem-macaco sem trair o espírito criativo de Burroughs e a sua verdadeira essência romanesca, trazendo a série de regresso às origens com grande sucesso, graças à “harmonia dinâmica” (expressão feliz de Jorge Magalhães) do seu traço, que reconquistou os leitores cansados de ver o seu herói favorito nas mãos pouco talentosas de desenhadores banais, como John Celardo, que Russ Manning substituiu em 1967.

Tarzan
Mas ainda antes de se tornar desenhador das tiras diárias de Tarzan para a United Feature Syndicate, os caminhos de Russ Manning já se tinham cruzado com outras criações de Burrroughs. Logo em 1950, desenhou umas páginas de apresentação para a série “John Carter of Mars” que a Editora Dell ia começar a publicar, mas entretanto com o eclodir da guerra na Coreia, Manning viu-se mobilizado e mandado para o Japão, perdendo assim a oportunidade para o desenhador Jesse Marsh. Depois de desmobilizado, em 1952, Manning vai trabalhar ao lado de Marsh na revista “Tarzan” da editora Dell/Gold Key, desenhando “Brothers of Spear”, e “Korak, Son Of Tarzan”, séries secundária da revista protagonizada pela criação maior de Burroughs.

Com a morte de Marsh em 1965, Manning substitui-o como desenhador de “Tarzan” na revista do homem-macaco, onde adaptou à BD os primeiros sete romances de Burroughs. Uma adaptação bastante fiel, recentemente editada em Portugal na série “Os Clássicos da Banda Desenhada”, publicada com o jornal “Correio da Manhã”. Face ao seu currículo, a escolha de Manning para ilustrar as tiras diárias e as pranchas dominicais de “Tarzan” surge como perfeitamente natural, traduzindo o reconhecimento do trabalho do desenhador californiano com o Rei da Selva.

Tarzan
Reunindo, por ordem cronológica, num volume grande em formato italiano (sobre o deitado) as páginas dominicais desenhadas por Manning entre 1968 e 1970, esta iniciativa da editora Bonecos Rebeldes dá a descobrir um autor elegante e talentoso no auge das suas capacidades artísticas e narrativas. Ao longo dos dois anos de publicação que este volume recolhe, Manning faz-nos acompanhar Tarzan em aventuras fantásticas em cenários exóticos, numa África mítica, onde subsistem civilizações pré-históricas decadentes, mundos perdidos, belíssimas mulheres e inimigos julgados mortos, como Daga Ramba, personagem introduzido na série por Burne Hogart, que Manning recupera.

Mesmo que a minha análise possa ser afectada pelo olhar nostálgico de alguém que redescobre (muito melhor impressas) as histórias que leu durante a sua infância, em edições brasileiras, a verdade é que estas histórias, em cenários exóticos e com uma dimensão épica que o cinema nunca conseguiu dar a Tarzan, envelheceram muito bem, tal como o traço de Manning, que se mantém tão atractivo como dantes.

Vamos esperar que esta edição de “Tarzan” conheça o mesmo sucesso que está a ter a edição do “Príncipe Valente”, também da Bonecos Rebeldes. Para que outros clássicos da Banda Desenhada publicada nos jornais possam vir a ser publicados em edições com esta qualidade, ficando assim acessíveis para as várias gerações de leitores.

(”Tarzan” Vol 1: 1968-1970″, de Russ Manning, Bonecos Rebeldes, 136 pags, 33 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

O Regresso dos Portugueses I: Evereste e Obrigada, Patrão

Novembro 22nd, 2007

Tradicionalmente, as editoras nacionais de Banda Desenhada tendem a concentrar o lançamento das novidades de autores portugueses no Festival da Amadora. As razões são simples e passam, não só, pela maior visibilidade que o Festival dá a esses títulos, possibilitando (mais ou menos) animadas sessões de autógrafos com os autores, mas também pela proximidade da época de Natal, período do ano em que se vendem mais livros.

E, este ano, a colheita de novidades de autores portugueses lançadas durante o festival da Amadora, foi a mais farta dos últimos tempos, com destaque para as Edições Asa, com quatro novidades de autores nacionais. Assim, e durante as próximas três semanas, este espaço será ocupado com as novidades “made in Portugal” que vieram animar a “reentrée bedéfila”.

Obrigado, Patrão
Para começar, temos dois títulos que, em bom rigor, não são inéditos, mas que através da Asa chegam só agora ao grande público numa edição em português. São eles “Obrigada, Patrão” de Rui Lacas e “Evereste”, de Ricardo Cabral.

“Obrigada, Patrão” é um bom exemplo de um caminho a seguir pelos autores nacionais que querem viver da BD, pois o álbum saiu inicialmente em edição francesa em Setembro de 2006, com o título “Merci Patron” e foi a Asa a comprar os direitos para a edição portuguesa, que lançou um ano depois. Uma internacionalização que se deve à iniciativa do autor, Rui Lacas, que foi a Angoulême e conseguiu vender o seu projecto a uma editora francesa (neste caso, a editora Suiça, Paquet), que lhe deu condições de trabalho que não estão ao alcance das editoras nacionais.

História dramática, ambientada no litoral alentejano, de uma criança que se vê obrigada a crescer demasiado depressa e de uma mulher que soube esperar anos a fio pela sua vingança, “Obrigada, Patrão” foi bem recebido em França, tendo mesmo ganho o prémio de Melhor Argumento no Festival de Les Moulins e abriu a Rui Lacas as portas do mercado francês, para onde continua a trabalhar preferencialmente. A edição portuguesa tem uma nova capa, menos chamativa, mas mais adequada ao conteúdo do livro (que é uma história extremamente dura e próxima de um registo neo-realista e não uma história infantil, como a capa da edição francesa sugere…) e um formato ligeiramente mais reduzido, que favorece o traço solto de Lacas, o que mostra que a editora e o autor prepararam com cuidado a versão nacional, cujo sucesso se deseja.

Evereste
Quanto a “Evereste” é o relato da trágica expedição ao Monte Evereste em que o alpinista João Garcia perdeu os dedos da mão e parte do nariz e viu morrer o seu colega e amigo Pascal Debrouwer, transposto para a Banda Desenhada por Ricardo Cabral, a partir do relato de João Garcia, que narra a história na primeira pessoa.

Lançado inicialmente numa edição sem distribuição comercial, da Junta de Freguesia dos Olivais, que foi distribuída pelas escolas da grande Lisboa, as potencialidades comerciais de “Evereste” eram evidentes, até pela popularidade e impacto mediático da figura de João Garcia, o nosso mais famoso alpinista de sempre. Daí que esta edição da Asa surja com toda a naturalidade, ainda mais por ser a editora dos livros do próprio João Garcia.

Obra de estreia em álbum de Ricardo Cabral, “Evereste” revela um grande desenhador e um excelente colorista, que combina de forma harmoniosa as influências franco-belgas e japonesas, com destaque evidente para o trabalho de Jiro Taniguchi, o autor de “Le Sommet des Dieux”, livro que me veio imediatamente à memória ao ler este “Evereste”.

Para a edição da Asa, Ricardo Cabral acrescentou uma mão cheia de páginas, e alterou outra dezena, criando uma nova versão mais consistente e fluida em termos narrativos, sem o final abrupto da primeira edição, para além de ter criado uma nova capa, igualmente bonita mas bastante mais eficaz. Só é pena que todo este trabalho do autor para melhorar o livro tenha sido estragado por problemas de impressão que tornam algumas paginais praticamente ilegíveis, de tão escuras…

Resta esperar que o (esperado) sucesso do álbum possibilite uma segunda edição da Asa, em que esses (graves) problemas gráficos sejam finalmente resolvidos. O belo trabalho de Ricardo Cabral e a coragem de João Garcia, bem o justificam.


(”Evereste”, de Ricardo Cabral (a partir do relato de João Garcia), Edições Asa, 48 pags, 10 €)
“Obrigada, Patrão”, de Rui Lacas, Edições Asa, 92 pags, 15 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Um samurai na corte de Luís XIV

Outubro 23rd, 2007

Um dos grandes sucessos do mercado americano em 2005, “Samurai, Céu e Terra” recentemente editado em Portugal pela editora BdMania, é um bom exemplo como colocar personagens familiares num contexto diferente do habitual, jogando precisamente com esses contrastes, pode resultar muito bem em termos de história.

Neste caso, temos um samurai japonês que se vê obrigado a cruzar os mares até à Paris de Luís XIV, em busca da sua amada, vendida como escrava ao Embaixador espanhol por um mercador de escravos árabe, acabando por ter que enfrentar os mosqueteiros do Rei. Tudo começa em 1704, com um ataque de um Senhor da Guerra chinês a um castelo da província de Kaga, no Japão, na sequência do qual Asukai Shiro, o samurai que dá título ao livro, vê o seu Shogun morrer em combate e a sua amada Yoshiko levada para a China como um troféu de guerra. Ponto de partida para uma movimentada saga que leva o samurai japonês a atravessar céu e terra para recuperar a mulher que ama, enfrentando os mais diversos inimigos. O que, face ao sucesso da primeira série, não acontecerá tão cedo…

Com efeito, depois desta primeira aventura, em que Shiro vai do Japão à China, da Ásia à Europa, para acabar em Paris, já saiu nos Estados Unidos uma segunda mini-série em que a busca de Yoshiko leva Shiro ao Egipto e está anunciada uma terceira série em que o samurai vai cruzar os mares das Caraíbas e enfrentar piratas, o que deixa perceber que os dois amantes só irão conhecer finalmente a paz quando os leitores se fartarem das suas aventuras.

Samurai
Escrita por Ron Marz, um veterano dos comic books, com trabalhos publicados nas principais editoras americanas, “Samurai”, é uma série de aventuras romântica de recorte clássico, com uma forte base histórica e um ligeiro toque de erotismo, bem contada, com diálogos muito conseguidos (especialmente as falas dos mosqueteiros) e que se lê muito bem. Mas grande parte do sucesso da série deve-se ao traço quase foto-realista de Luke Ross, nome artístico do brasileiro Luciano Queiroz, que concilia o dinamismo da planificação e das cenas de acção, com um rigor da reconstituição histórica pouco habitual nos comics americanos.

Um trabalho de reconstituição histórica que resulta de uma aturada pesquisa iconográfica, cujo processo o desenhador brasileiro descreve assim: “O Ron me mandou vários livros sobre samurais e também sobre os lugares que Shiro iria percorrer para encontrar Yoshiko: Versailles, Egipto e outros. Os livros me ajudaram na pesquisa mais minuciosa que fiz na internet em busca de melhores fotos sobre estes lugares. Como a maioria das fotos que encontrei eram bem recentes e a história se passa há 300 anos, evitei usar monumentos ou lugares que eu desconfiava serem mais modernos. Fiz muita pesquisa na internet em sites que tratam da moda no decorrer dos séculos e em sites que possuem galerias das obras dos principais pintores de cada século, e que retratam muito bem os costumes da época. Tudo para tentar reproduzir correctamente os lugares e os vestuários daquele período e convencer os leitores de que os personagens estão mesmo no século 18.

Samurai
Também recorri a várias BDs como “Lobo Solitário”, “Vagabond”, “Blade”, além de filmes do cineasta Akira Kurosawa, como “Os Sete Samurais”, Ran, Kagemusha, dentre outros. E também filmes mais recentes como “O Último Samurai”, “Azumi eZatoichi”.

Apesar de toda a pesquisa iconográfica de Ross, o argumento de Marz não evita alguns erros históricos (não há referência histórica a nenhum ataque chinês a Japão em 1704; depois da morte do seu Shogun, Shiro deixava de ser samurai e passava à categoria de ronin; e em 1704 os três mosqueteiros deviam ter mais de 80 anos, pois Alexandre Dumas situa a acção do seu romance em 1648…), mas que nem sequer escandalizam quando comparado com o que é infelizmente habitual nos comics americanos.

Bom exemplo de uma produção “mainstream” de qualidade, bem servida por uma excelente edição, “Samurai, Céu e Terra” não ficará na história da BD, mas é um produto sólido, que, depois do sucesso no estrangeiro, em Portugal parece estar a conseguir conquistar tanto os fãs dos comics, como os apreciadores da BD franco-belga.

(”Samurai: Céu e Terra”, de Ron Marz e Luke Ross, BDMania, 144 pags, 13,50 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Neil Gaiman chega ao cinema com Stardust

Outubro 15th, 2007

Em exibição nas salas de cinema nacionais desde o passado dia 27 de Setembro, “Stardust” é a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de Neil Gaiman, o criador de “Sandman” e “Mr. Punch”, a chegar ao grande ecrã.

Numa época em que as relações entre Banda Desenhada e cinema são cada vez mais intensas, a obra de Neil Gaiman não podia escapar ao radar dos estúdios de Hollywood. Considerado como um dos mais importantes nomes da BD de língua inglesa, e não só, muito por via da seminal série “Sandman”, Gaiman espalhou igualmente o seu talento pela literatura, tanto infantil como para adultos, mantendo-se ao mesmo tempo próximo do cinema e da televisão, das mais variadas formas. Seja adaptando os diálogos do filme “Princesa Mononoke”, de Myiazaki, escrevendo o guião da série “Neverwere” para a BBC, escrevendo o argumento de “Mirrormask” para o seu amigo Dave McKean realizar e até realizando ele próprio a curta metragem “A Short Film About John Bolton”, produzida por Matthew Vaughn, o realizador de “Stardust”.

Stardust

Mas ainda antes de ser um filme, “Stardust” começou por ser uma novela que Gaiman começou a escrever para ser ilustrada por Charles Vess, em 1991, logo a seguir a ambos terem ganho o World Fantasy Award com “A Midsummer’s Night Dream”, um episódio de Sandman, e que foi publicada em 1998 pela Vertigo, como uma mini-série em quatro partes, antes de ser recolhida num único volume. E logo em 1998, a Miramax quis transformar “Stardust” num filme, mas o projecto nunca foi avante, acabando os direitos cinematográficos por voltarem para Gaiman, uma vez expirada a cláusula de opção, que os vendeu a Matthem Vaughn, realizador de “Layer Cake” e produtor dos filmes de Guy Ritchie (cineasta mais conhecido por ser casado com Madonna…) em 2005, tendo este último convencido a Paramount a investir 65 milhões de dólares no filme.

Embora acompanhasse o processo de gestação do filme, tendo inclusive indicado Jane Goldman, a argumentista que, com Vaughn, adaptou o romance ao cinema, Gaiman sempre teve consciência que o filme seria diferente do livro. Como o próprio confessou “não queria que “Stardust” fosse um daqueles filmes que tentava ser completamente fiel ao livro e falhava”. E a verdade é que as diferenças são assinaláveis, começando pela dimensão mais sombria do livro (aterrorizador como os bons contos de fadas devem ser) que no filme é bastante amenizada por um humor britânico, pouco habitual neste tipo de filmes fantásticos. Um bom exemplo, são as personagens do comerciante, interpretado por Ricky Gervais (da série “The Office”), ou do Capitão Shakespeare, o comandante do navio voador, interpretado por Robert de Niro, que no livro se chama Johannes Alberic, e não tem uma faceta secreta de “drag queen”…

Stardust

Mas, não sendo tão interessante como o livro, “Stardust” é um filme divertido e que entretém, com uma imaginação que está ausente da maioria dos filmes do género, que se limitam a repisar os cânones de Tolkien e seguidores. E além disso, o elenco é de respeito, como uma notável Michelle Pfeifer que faz uma bruxa fabulosa, bem secundada por Claire Danes no papel da Estrela Cadente.

Se o leitor gostou de “Stardust”, o filme, a minha ideia é que irá gostar ainda mais do livro que lhe deu origem. Livro esse que está disponível em português numa edição da Presença, a que faltam lamentavelmente as ilustrações de Charles Vess. E, não desfazendo na tradução da Presença, “Stardust” ganha muito em ser lido na versão original, acompanhado pelos desenhos de Charles Vess. Desenhos belíssimos e que influenciaram decisivamente a própria evolução da história, como confessa Neil Gaiman quando diz que: “uma grande parte da história surgiu comigo a pensar: “era giro ver esta cena desenhada pelo Charles Vess”.

(“Stardust”, de Matthew Vaughn, com Michelle Pfeifer, Claire Danes e Robert de Niro, em exibição em Coimbra nos cinemas Lusomundo Dolce Vita)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Monumento

Outubro 7th, 2007

A edição de BD tem sido (bem) abalada por algumas surpresas muito agradáveis. Primeiro foi o sucesso de Príncipe Valente, a que se seguiram as edições de obras tão importantes (e atípicas, em termos da panorâmica nacional) como Cidade de vidro (Karasik e Mazzucchelli, adaptando Auster) ou O amor é um inferno de Matt Groening, ás quais voltaremos. Porque o maior destaque deve ir para os dois primeiros volumes da colecção integral de Peanuts, a obra maior de Charles Schultz, uma aposta completamente inesperada das Edições Afrontamento na cuidada edição da norte-americana Fantagraphics, que inclui ainda entrevistas, estudos, ensaios; e conta com o excelente design do autor canadiano Seth. Um monumento à e da banda desenhada.

Pode não ter sido radicalmente inovador, mas Peanuts é uma obra referência que marcou as obras do género (e não só) que se lhe seguiram. Não só pelo desenho simples (mas não simplista, infelizmente s‹o coisas que se confundem muito), ou pelo uso das quatro vinhetas para retratar situações humorísticas, com a terceira vinheta a ter muitas vezes o papel de “pausa” antes da conclusão, ou ainda pela definição de um grupo de personagens muito bem caracterizadas, a viver nos subœrbios norte-americanos. Mas antes porque essas personagens, “crianças” num mundo sem adultos que interagem como adultos, se tornaram arquétipos poderosos, do inseguro mas “bom rapaz” Charlie Brown, à decidida e arrogante Lucy, passando pelo distante “intelectual” Schroeder, pela seguidora Marcy, pela empreendedora sem objectivos Patty, pelo generoso e crédulo Linus; e culminando naquele para quem impossível é nada, mesmo que apenas em fantasia, o cão Snoopy.

Peanuts

Peanuts tem alguma história entre nós, não tanto pela BD, mas talvez até mais pela animação e pelo “merchandising”, que a certa altura chegou a ser asfixiante. No entanto, e apesar da sua qualidade, um conhecedor ocasional é capaz de ficar algo perplexo com estes primeiros volumes, não tanto pelo estilo ainda não consolidado (logo menos familiar), mas porque a maioria das personagens está ainda por definir, não só em termos de representação gráfica, mas sobretudo de personalidade, com destaque para o emblemático Snoopy, aqui ainda (quase) só um cão. Apenas Lucy, e, em menor grau, Linus e Schroeder, surgiram desde logo com as características-base que lhes conhecemos. Na verdade é muito interessante ver como, longe de ser o pobre coitado em que se viria a transformar, ao início Charlie Brown tem uma confiança/arrogância que será depois claramente “sugada” pela neófita Lucy.

Ao analisar o percurso de Peanutso autor é tão fascinante quanto a obra. Charles Schultz é, de certo modo, um iconoclasta involuntário. Após a Depressão e a Segunda Grande Guerra, os anos de 1950 seriam anos de abundância, do trabalho em paz para a felicidade doméstica de subúrbio, com a popularização da cultura do automóvel e electrodomésticos (incluindo a televisão), e antes de novas inquietações na Coreia e (sobretudo) Vietname, ou da ameça iminente da Guerra Fria. Como é patente na entrevista incluída no primeiro volume, Schultz encarna esse ideal ascético e estóico do trabalho enquanto dever para o progresso pós-guerra, sobretudo por parte de quem vinha de tempos piores. Nessa perspectiva cumpre prazos, o seu trabalho nunca põe abertamente em causa o microcosmos social que retrata, Schultz nunca discute com os seus editores, aceitando limitações de espaço, propostas para as suas personagens extra-BD, e até mesmo a imposição de um nome para a sua série, Peanuts, que considerava idiota e degradante. Percebe-se, por isso, a sua animosidade perante autores bem mais exigentes e contestatários a esse nível, como Gary Trudeau (autor do politicamente empenhado Doonesbury), que Schultz classificava como, lá está, pouco profissional.

Peanuts

Claro que, para lá do (suposto) optimismo e da alegria no trabalho, a década de 1950 foi também sintomática do iníco do “spleen” contemporâneo na mesma vida de subœrbio, com a angœstia e a insatisfação por vidas previsíveis e programadas a germinarem logo abaixo do artificialismo idílico (veja-se o episódio respectivo de The Hours), num caminho que levaria à popularização de antidepressivos e psicanálise (e a Happiness de Todd Solondz ou mesmo à caricatura em American Beauty ou Desperate Housewives). Toda essa bipolaridade angustiada está claramente presente desde o início em Peanuts, com a insegurança e a arrogância, a generosidade e a inveja, a surgirem nas mesmas personagens (por vezes em simultâneo). Com a insatisfação e a vontade de fazer a esbarrar em dificuldades constantes, desde a necessidade de conforto e o medo do risco, à simples falta de talento, como nos famosos falhanços desportivos de Charlie Brown. Um mundo do qual a œnica escapatória parece ser a fantasia de Snoopy, o contraponto de Charlie Brown. Para mais os protagonistas s‹o crianças, com a dupla inquietação que isso acarreta. Não só o uso destas personagens geralmente é mais anódino e lamechas, como o retrato (realista) de Schultz não dá grande azo a prever futuros muito diferentes do presente. Claro que as situações humorísticas se “lêem”, a outro nível, sem considerar nada disto. Mas esperava-se que um retrato psico-social brilhante desta natureza fosse realizado por um contestário assumido, e não por um modesto puritano perfeitamente integrado no sistema, que se recusou sempre a fazer grandes leituras do seu trabalho. Á isso que é notável, e aí reside o maior fascínio destas tiras. A análise incisiva enquanto reflexo involuntário. Não só (mas também) por isso é urgente ler hoje Peanuts. Esta é uma edição fundamental, a obra do ano.

Peanuts, Obra Completa 1, 1950-1952. 325 pp.
Peanuts, Obra Completa 2, 1953-1954. 345 pp.
Argumento e desenhos de Charles M. Schultz. Edições Afrontamento, 23 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Simplificar

Setembro 28th, 2007

Pedagogia. Uma palavra que leva muita gente a procurar refúgio. Incluindo, desconfio, alguns pedagogos. É um daqueles assuntos demasiado importantes para frivolidades, e demasiado volátil para discuss›es serenas. Mas que, para lá de todas as polémicas, se reduz a dois pontos muito simples. Não se pode fazer pedagogia, do que quer que seja, a partir de uma posição de ignorância. E ser-se pedagógico implica (também) simplificar. O corolário é que é preciso saber-se muito mais do que aquilo que se pretende transmitir, quaisquer que sejam os (presumidos) conhecimentos e capacidades de um potencial público. Isto para saber onde fazer concessões, distinguir o essencial do acessório, e, neste, o acessório que pode ser útil. Só assim se consegue simplificar sem cometer erros grosseiros, sem deixar um texto ininteligível, onde a cénica solução parece ser memorizar o caos. Quanto mais difícil o tópico, tanto mais complicada é a tarefa de destilar a essência.

De um ponto de vista pessoal, e enquanto biólogo, o teste de qualquer obra pedagógica (nomeadamente no ensino secundário) é o modo como aborda temas tradicionalmente “difíceis” do metabolismo celular, incluindo a fermentação, a respiração aeróbica, a fotossíntese. Difíceis, lá está, porque geralmente mal explicados, mal simplificados. E este é apenas um tópico de uma área, de uma ciência. Que dizer de todo o Universo, mesmo que aqui Universo “apenas” signifique a História da Vida e da Humanidade? Como se simplifica tal coisa? É-se Larry Gonick e usa-se a banda desenhada. O primeiro volume da colectânea A História do Universo em banda desenhada reœne os sete primeiros livros deste trabalho, abordando desde o Big Bang até Alexandre o Grande, com toda a evolução da vida e do Homem de permeio. É um trabalho fascinante que parece negar o aforismo habitual para obras desta natureza. Do ponto de vista crítico definir uma obra como “pedagógica” significa, quase sempre, declarar implicitamente a sua menoridade enquanto obra; e, quando a obra é em BD, é bem capaz de arriscar duas menoridades pelo preço de uma.

A História do Universo em banda desenhada

Gonick ataca o desafio pesquisando e lendo, muito. Sem ser completa (o que seria impossível) a bibliografia é extensa, e não particularmente fácil. Depois, o autor fez escolhas, muitas, muitas escolhas, marcadas sem dœvida pelas leituras que mais ressoaram. Escolheu linhas narrativas, escolheu histórias interessantes e abordagens que até podem ser polémicas, procurando fundamentá-las o mais possível. O que nem sempre é fácil: no campo da evolução cósmica e biológica, da vida à espécie humana, passando pela evolução do sexo, e para além da evidência insofismível de que a Evolução existiu e existe, qualquer abordagem terá mesmo de ter um cunho especulativo, dada a natureza indirecta dos registos. Desse ponto de vista é muito interessante, por exemplo, a leitura da Pré-História Humana de um ponto de vista femininista, uma perspectiva que, curiosamente também, o autor parece esquecer à medida que entra na História (aqui nota-se claramente a influência da escolha bibliográfica). Neste caso o percurso é, de certo modo, mais “canânico” em termos de momentos considerados chave, apesar de Gonick lançar constantemente provocações que pretendem re-equacionar imagens estabelecidas sobre diferentes descobertas e acontecimentos, ou apresentar outros, menos conhecidos. Mas espera-se que os próximos volumes aliviem um pouco da progressão histórica “clássica” seguida até aqui, e revelem algo mais da iconoclastia pré-histórica.

A História do Universo em banda desenhada

Quanto ao desenho, o “cartoon” é a escolha ideal para uma obra desta natureza, devido ao seu poder de síntese e ao cunho humorístico. Um “gag” œnico pode resumir de forma eficaz séculos, enquanto um traço realista pareceria forçado, porquanto o leitor espera coisas distintas dos diferentes tipos de desenho. Uma representação realista “pede” uma narração equivalente (difícil neste caso), enquanto o “cartoon” é intuído de forma simbólica. Este problema é de resto comum em muitas obras ditas “pedagógicas” em BD. No entanto o “cartoon” tem também um poder de finalidade, no sentido em que reduz a possibilidade de diferentes interpretações. A figuração exacta, ou, por influência de ironia, o seu oposto. Mesmo que o autor seja muito honesto e explícito nos pontos em que a sua linha narrativa é mais pessoal e especulativa, o que é facto é que as escolhas finais são as que permanecem com o leitor. A “verdade última”. E é sabido como a memória de informações adquiridas em obras deste género (mesmo que erradas) pode ser particularmente viva. Por outro lado é inevitável que a simplificação pedida pela natureza da obra faça com que especialistas nas várias áreas do saber abordadas por Gonick detectem omissões, exageros, desequilíbrios. Estas questões s‹o minimizadas pelo facto de A História do Universo em banda desenhada contar histórias estimulantes, daquelas que dá vontade ler, discutir e, sobretudo, aprofundar. Ou seja, é uma obra que desafia o leitor a saber mais do que aquilo que a obra em si conta. E mesmo, eventualmente, a discordar das posições do autor. Não é esse o objectivo de qualquer obra com cunho pedagógico? De resto, e como exemplo do seu potencial a este nível, a banda desenhada dificilmente poderia contar com melhor embaixador.

A História do Universo em banda desenhada I: Do Big Bang a Alexandre o Grande. Argumento e desenhos de Larry Gonick. Gradiva, 360 pp., 20 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

INTERPRETAÇÕES

Setembro 24th, 2007

A última edição do Festival de banda desenhada da Amadora voltou a revelar as qualidades fundamentais necessárias a um evento de referência: um espaço com potencial (o Fórum Cultural da Brandoa, apesar de periférico), um tema e material fortes (a BD produzida em locais menos óbvios do mundo), boas exposições laterais (colaborações entre mundos, Filipe Abranches, Decálogo, uma viagem com autores portugueses), um espaço comercial mais digno. Falhou onde tem falhado: o trabalhar total das propostas (uma aposta de risco a nível da exposição principal implicava um comissariado mais cuidado), a divulgação do evento, a vinda desenquadrada de autores, a captação do grande público (limitada à aposta, ganha, do brasileiro Maurício de Souza, autor de Mónica). Mas a Amadora sempre foi um importante pólo editorial, o sítio onde se mostram as novidades de Outono. Nessa perspectiva Tratado de Umbrografia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques (Devir) foi a proposta mais interessante, até por marcar uma mudança no percurso do nosso mais reconhecido autor. Com um universo criativo prolífico e bem marcado, o traço de José Carlos Fernandes começava a parecer algo limitado para dar corpo aos seus argumentos. Ou, melhor, para lhes dar outros corpos. Daí o interesse da colecção BlackBox Stories, na qual pequenos contos entre o fantástico, o melancólico, o cínico e o simbólico de Fernandes serão interpretados por outros desenhadores. Tratado de Umbrografia revela um todo interessante na sua diversidade, sobretudo porque a sensação de familiaridade do texto é corrompida por soluções gráficas que dificilmente se esperariam do argumentista. A escrita telegráfica e o tom de José Carlos Fernandes são reconhecíveis, num meio termo entre histórias breves (como nas Histórias de um minuto de István Órkény) e ideias curtas para histórias, que cabe ao leitor elaborar (como em Centúria de Giorgio Manganelli). Em Fernandes há um núcleo de significados-base que se expandem, e que vão ganhando ambiguidade à medida que conteœdos concretos e simbólicos se interpenetram; e, um pouco à maneira de Sam Shepard, por vezes é difícil saber se a história acaba onde o leitor pensa que acabou (literal e figurativamente).

Tratado de Umbrografia

Nesse sentido Luís Henriques funciona como um privilegiado primeiro leitor, expandindo as ideias de cada narrativa em diferentes sentidos, e dando novas dimensões ao livro, por variar o registo do desenho. O resultado, curiosamente, nem é (bem) banda desenhada, mas contos ilustrados onde o texto penetra o desenho (a ausência de falas ajuda a marcar essa sensação), e nos quais o traço, mais do que se adaptar a cada ambiente narrativo, tenta complementá-lo. Por exemplo, se A feira dos políticos manuseados é uma sátira linear sobre a pequena política, Henriques “responde” com um estilo gongórico feito de colagens, contrastes extremos e pouco espaço livre. Algo que, para além de tocar na essência dos comportamentos caricaturados, complementa um texto, é partida, simples e directo nas suas intenções. Contraste-se esta abordagem com o tom diáfano a sépia e creme de A substância de que são feitos os sonhos e O avanço do deserto. Em ambos os casos pretende-se dar corpo a um tom onírico, embora com intenções muito distintas. Na primeira história (num universo que toca o de Neil Gaiman) o ritmo é o de uma história (falsamente) infantil, em torno de uma criança com o estranho poder de materializar o os sonhos. Ou seja, sobre o poder (e o perigo) do sonho. É essa componente que sugere o traço leve, já que o espaço (quarto e casa do protagonista) é suficientemente identificável. Já em O avanço do deserto quase o mesmo traço parece sumir-se constantemente no fundo claro da página. A história fala de uma cidade estranha e inexoravelmente invadida por areia. Mas o desenho evita em permanência que o leitor se situe, perceba exactamente como é que o deserto está a contaminar a cidade surpreendida, de que tipo de cidade se trata. Onde, para além do espanto, os habitantes reagem com um estranho desprendimento e adaptabilidade; o deserto invasor como metáfora prov‡vel para algo mais do que areia, um pouco à imagem dos ambientes de J. G. Ballard.

Tratado de Umbrografia

Por outro lado, é interessante ver como em Elegia americana, um conto de estradas e motéis (e sonhos) desertos ao ritmo de Sam Shepard, Henriques preenche as páginas, criando um ambiente fechado e opressivo. Nunca deixando a monumentalidade adivinhada da paisagem respirar; apenas espreitar, envergonhada, no fundo desfocado de vinhetas. Mas este não é um conto de grandes espaços, mas de grandes ambições, que acabam por encolher o espaço, transformando-o numa caricatura de si mesmo. Prolongando a reflexão sobre o que é a Arte feita em A œltima obra prima de Aaron Slobodj, a história sobre alguém que descobre a originalidade de encenar animais atropelados (”road-kill”) enquanto arte é (mais) uma metáfora sobre pequenas mentes presas em grandes filosofias. Apenas, não por acaso, passada em grandes espaços. E por isso parece apropriado que Henriques os encolha. Já em Zuma, o tatuador a alegoria é antropológico-cultural. Um velho artista usa símbolos da sua cultura quase desaparecida para decorar peles jovens que apenas desejam moda. Só que, em noites de lua cheia, as tatuagens possuem os corpos, os símbolos tornam-se literais, o colonizador passa a (simbólico) colonizado. O desenho rendilhado mostra a loucura na interpenetração de mundos, enquanto o (ab)uso da cor vermelha é talvez uma maneira demasiado óbvia para marcar o regresso a um estado primordial (”selvagem”?) que as tatuagens de Zuma induzem sob o luar. Há uma relação entre esta história e o conto que dá nome à colectânea, embora Tratado de umbrografia seja mais ambicioso; um romance entre contos. Ou melhor, notas para um potencial romance sobre o estudo das sombras ao longo dos tempos, e do poder que delas se pode retirar. O ritmo apocrifo-enciclopédico cita abertamente Borges e Bioy Casares, e o desenho oscila de acordo com o momento narrativo, ajudando, logo aí, a criar a ideia de que esta é uma narrativa mais complexa, mas, por oposição, retirando alguma unidade patente nos outros contos. O conceito-base (as sombras, o oculto) não se compadece com um desenho revelador, e esta é uma história sob semi-penumbra permanente. Mas há diferenças no uso caricatural de referências arqueológicas, no misticismo em negativo dos índios norte-americanos, na inquietação que transparece das estranhas experiências para dissociar o corpo da sombra, ou das actividades misteriosas da Seita da Linha da Sombra. Fica, no entanto, a sensação de que faltou algo que garantisse a Tratado de Umbrografia (a história) a mesma ambição de Tratado de Umbrografia (a colectânea). Esta última vibra na história mais falsamente simples de todo o conjunto, a sœmula de inquietações que é O avanço do deserto.

Tratado de Umbrografia. Argumento de José Carlos Fernandes, desenhos de Luís Henriques. Devir 72 pp., 17 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Alternativas

Setembro 18th, 2007

Face ao estado actual do mercado nacional de Banda Desenhada torna-se cada vez mais difícil para os autores portugueses conseguiram ver os seus trabalhos publicados pelas editoras nacionais e distribuídos nas Livrarias. A alternativa passa pela auto-edição, ou pelo recurso a editoras independentes com circuitos de distribuição alternativos, que permitam chegar a um público bem mais seleccionado do que o das livrarias tradicionais, mas ainda assim relativamente alargado. A impressão digital e o “print on demand” têm sido a solução encontrada por alguns autores, mas no caso dos dois livros que motivam este texto, a opção foi pela impressão tradicional e por uma tiragem, realisticamente ambiciosa, de 500 exemplares.

Mas além da tiragem, de estas edições estarem à venda em Coimbra na Livraria Dr. Kartoon e dos seus autores virem do mundo dos fanzines (Teresa C. Pestana do “Gambuzine” e José Feitor do saudoso “Zundap”) “Postais de Viagem”, de Teresa Câmara Pestana e “Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques têm outros pontos em comum. Desde logo, o facto de não serem dois livros de Banda Desenhada em sentido tradicional, mas antes mais próximos do livro ilustrado. Obras que articulam texto (muito mais sintético em “Babinski”) e imagem, de uma forma que vem de encontro à descrição que Rodolphe Topfer (pintor e ilustrador suíço do século XIX, considerado como o “inventor” da Banda Desenhada) fez do seu trabalho ao seu amigo Goethe, dizendo-lhe que: “O conjunto dos dois [texto e imagem] forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa.

Postais de Viagem

Mas falemos então de cada um dos livros, começando por “Postais de Viagem” que, como a autora refere no site do Gambuzine: “teve a sua raiz num ensaio excessivamente longo sobre o vodu, resultante da minha estadia na costa oeste africana; como não lhe queria acentuar o lado descritivo, ilustrei-o, reduzi o texto ao mínimo, embuti-lhe uma narração assim surge “postais de viagem”. O ensaio era de 92, em 2002 passou a ter postais ,e depois esperou 5 anos pelo seu momento, um pouco tarde, mas não tarde demais”.

O livro de Teresa C. Pestana inicia-se quase como um policial, com a narradora/autora a partir para o Togo em busca de uma amiga desaparecida, mas essa intriga cedo ganha um papel secundário face ao relato, numa perspectiva mais antropológica, da relação dos africanos com a magia, através dos rituais do vodu, visto por uma ocidental que, embora procurando integrar-se, será sempre uma estrangeira. E se o texto consegue transmitir muita informação de forma acessível e interessante, as ilustrações, em que o grafismo sombrio e falsamente naif de Teresa C. Pestana se aproxima da arte africana, criam um curioso diálogo com o texto, resultando num produto final à altura das ambições da autora e do tempo que levou a desenvolver este projecto.
Quanto a “Babinski”, o ponto de partida deste belo livro num formato italiano pouco habitual, é uma história dentro da história do livro “Der Golem” de Gustav Meyrink, um clássico da literatura fantástica que cristaliza uma das mais interessantes personagens da mitologia hebraica. Em vez do golem e do rabi que o criou a partir do barro, José Feitor escolheu contar a história de Babinski, o salteador de Praga, que depois de escapar à morte quando a corda com que ia ser enforcado se partiu, decide mudar radicalmente de vida. É essa história de crime, castigo e redenção, que José Feitor conta em frases muito curtas e neutras, que as ilustrações barrocas de Luís Henriques confrontam, ironizam e reinterpretam com o talento que se lhe reconhece, usando o texto como ponto de partida para uma série de imagens capazes de gerar só por si outras histórias. Veja-se o caso da biblioteca em que os livros gigantes formam colinas e montanhas onde crescem árvores e se passeiam animais, que podia ter saído de um conto de Borges.

Babinski

Depois da estreia fulgurante com o “Tratado de Umbrografia”, primeiro volume da série “Black Box Stories” (ver “Diário As Beiras” de 16/12/2006), Luís Henriques dá mais uma vez provas do seu grande talento gráfico, através de umas boas dezenas de ilustrações feitas com uma técnica de “hachures” que a aproxima da gravura, e onde não faltam referências e piscadelas de olho em termos de História da Arte, que vão de Piranesi e Piero de la Francesca, passando por Doré e Francis Masse. E, curiosamente, tratando-se de uma obra que está muito mais próxima do livro ilustrado do que propriamente da banda desenhada, Henriques vai utilizar elementos característicos da BD, como os balões, ou a divisão da ilustração em vários quadrados, na sequência da prisão que escolhi para ilustrar este texto.
Resta esperar que estes dois trabalhos, tão diferentes entre si, apesar dos vários pontos de contacto e da vontade comum de chegar aos leitores interessados, encontrem o seu público.

(“Postais de Viagem”, de Teresa C. Pestana, Ed. de Autor, 56 pags, 10,0 €
“Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques, Imprensa Canalha, 80 pags, 14,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Vazio

Setembro 10th, 2007

É com curiosidade que se lê em obras com o potencial de cruzar abordagens, com a esperança de que novas iluminações para uma leitura surjam da junção de conhecimentos. A questão é quando a proposta em causa realiza uma junção de desconhecimentos, ou quando o ponto de partida é demasiado frágil. Se o autor aposta numa fuga para a frente, e o trabalho acaba por dizer mais sobre o autor e o sistema em que produziu a sua análise, do que sobre a obra analisada, o resultado é pior do que meramente medíocre. E a resposta do leitor tende a ser a pena sobre o tempo desperdiçado, não necessariamente a partilha da desilusão, até por se saber que o que se iria afirmar não é simpático. Cria-se assim uma conspiração de silêncio, deixando ao autor a liberdade para divulgar o seu (des)conhecimento. Vem isto a propósito de A invisibilidade do gênero feminino em Tintin, um tese de Mestrado da autoria de Ana Bravo, agora editada em forma de livro. Com o subtítulo, precisamente, de A conspiração do silêncio.

A invisibilidade do género feminino em Tintin

Note-se que o tema é interessante, até pela dimensão masculina historicamente associada à banda desenhada. Cruzando a perspectiva feminista com um ícone da BD a intenção da autora é “provar” a misoginia de Hergé, por este remeter para a invisibilidade mais de metade de um universo ficcional em potência, ao não utilizar (com uma excepção) personagens femininas marcantes. É uma premissa com os mesmos fundamentos, por exemplo, de esforços contemporâneos para reavaliar a participação das mulheres em processos sociológicos e eventos históricos, muitas vezes subalternizada por historiadores (maioritariamente) masculinos. Mas uma coisa é História (ou seja, um todo real), outra é ficção (ou seja, uma representação parcial e figurada). Logo à partida deparamo-nos com dois problemas. Um relaciona-se com o facto de tudo o que ficou dito acima quanto a Hergé e à sua obra não ser novo. Por outro lado, se se quiser discutir (por exemplo) a eventual misoginia em Alfred Hitchcock, há algum material para análise, desde as sevícias impostas ás protagonistas dos seus filmes (The Birds, Psycho, Vertigo…), aos relatos das actrizes que as encarnaram. Em Tintin não há nada equivalente. Como discutir personagens que o autor escolheu não criar? Desde logo a autora arrisca discursar sobre o vazio. Até podia ser uma atitude corajosa mas, como é óbvio, torna-se necessário encontrar outro tipo de assunto, nomeadamente com introduções sobre a banda desenhada, sobre estudos sobre as mulheres e (os chamados) estudos de género, e sobre o próprio Hergé. Em todas notam-se os mesmos problemas formais e de estilo. O texto é, em geral, fragmentado, confuso e pouco focado, com avanços e recuos constantes em termos temporais e de tópicos, provavelmente por tentar resumir demasiados assuntos, não o fazendo bem ou de forma homogénea. Nalguns locais faltam citações, noutros s‹o em demasia e há muitas fontes indirectas. Por outro lado, para esta obra talvez bastasse uma Introdução a Tintin e Hergé. Mas, uma vez que Ana Bravo escolheu falar também da BD como um todo, tinha de ter dispendido um esforço maior do que o resultado indigente dessa parte deixa transparecer, e onde são óbvias (más) leituras em segunda mão. Enki Bilal não é certamente obcecado pelo preto e branco e pela Primeira Grande Guerra (esse é Jacques Tardi), nem Alex Raymond terá sido inspirado por uma personagem (Vampirella) criada após a sua morte (apenas dois exemplos mais caricatos, entre muitos). Picuinhices? E alguém que, escrevendo sobre cinema, trocasse a perspectiva de John Ford pela de Douglas Sirk? Se se escreve sobre o que quer que seja de um ponto de vista que se quer académico, científico e sério, é preciso sê-lo. Mesmo na introdução mais focada à obra e autor em análise os desconhecimentos são evidentes. E é importante notar que as dificuldades de relação de Hergé com as mulheres (e consigo próprio), as relações de trabalho nos Estúdios Hergé, ou, mais uma vez, a ausência de personagens femininas na sua obra, não são propriamente novidade. A excepção a essa “invisibilidade” é a cantora de ópera Bianca Castafiore, uma óbvia caricatura de diva. Como Tournesol é uma caricatura de cientista, ou os Dupondt da polícia. Na verdade, todas as personagens interessantes de Tintin têm uma dimensão caricatural. Menos o próprio, espécie de andrógino em branco no qual o leitor se pode espelhar, e que não é por isso, e por si só, muito interessante (e esta perspectiva também não é original).

A invisibilidade do gênero feminino em Tintin

Fica por explicar como é que um livro com estas características chega às 300 páginas. Fá-lo com aquela que é, de facto, a sua “novidade”: catalogando todas as presenças femininas nos álbuns de Tintin, ou seja tomando nota de TODAS as mulheres que aparecem, do local no livro onde surgem, do contexto da acção, do seu aspecto, etc. é um exercício de “uber”-quantificação ridículo (equivalente a descrever num romance todas as situações em que aparece uma dada palavra), que, mesmo considerando as intenções da autora, nada acrescenta à quantificação das presenças femininas em percentagem de vinhetas de cada álbum (equivalente a descrever num romance as vezes em que uma dada palavra tem uma certa conotação). Nem todo o material preparatório de uma Tese é publicável neste formato, e, mais uma vez, faltou cuidado editorial.

Em conclusão: era interessante Ana Bravo ter usado as mesmas ferramentas analíticas para se debruçar a fundo, por exemplo, sobre a representação da mulher na BD francófona contemporânea a Tintin (algo que menciona apenas de passagem). Ou na evolução dessa representação ao longo do tempo. Ou em alterações equivalentes na BD de superheróis. Ou na representação feminina em revistas como o Camarada ou o Cavaleiro Andante. No caso da BD americana até há pontos de partida interessantes, como o trabalho de Trina Robbins. Daria era muito mais trabalho do que analisar apenas uma obra que, numa pesquisa mais abrangente sobre esta perspectiva, mereceria apenas umas páginas. Essa alternativa teria, no entanto, menos impacto. Porque este livro teve, e terá, impacto. Como teria impacto, e com o devido respeito, uma colectânea de eventuais listas de compras de Hergé, e do que poderiam revelar sobre a sua personalidade… No mundo francófono (e, pelos vistos, não só) há um fascínio permanente com Hergé e Tintin, um homem “ilegível”, autor de uma obra de extrema legibilidade. Um fascínio “tintinólogo” a roçar o culto, de tal modo que qualquer abordagem, quaisquer que sejam as limitações, motiva interesse. é de certo modo irónico que seja esse interesse por Hergé, cultivado sobretudo por quem conhece a fundo a obra, a gerar, indirectamente, livros como este.

(A invisibilidade do género feminino em Tintin. A conspiraçã‹o do silêncio. Ana Bravo. Chronos Editora, 381 pp., 20,95 Euros.)

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Asterix vezes 6

Setembro 10th, 2007

De uma assentada, as Edições Asa acabam de lançar nas livrarias mais seis álbuns da série “Asterix”, concluindo assim a primeira edição com chancela desta editora do grande clássico da BD europeia, criado por Uderzo e Gascinny. E pode dizer-se que a reedição encerra com chave de ouro, pois os títulos agora editados estão entre os melhores da série, mostrando dois criadores no auge das suas faculdades e em perfeita e absoluta sintonia.

Astérix: O domínio dos Deuses

Clássico incontornável da BD franco-belga e uma das séries mais populares de todos os tempos, as aventuras do pequeno gaulês nascido em 1969, nas páginas da revista “Pilote” continuam a cativar os leitores de todo o mundo, mesmo que a série tenha perdido muito da sua magia, com a morte do argumentista, Renê Goscinny, em 1977. Mas se o desaparecimento de Goscinny afectou, e muito, a qualidade das histórias, agora escritas e desenhadas por Uderzo, o mesmo não se passou a nível comercial, com Uderzo a revelar-se um hábil gestor da imagem e popularidade do pequeno herói gaulês. E a verdade é que, de uma excelente Banda Desenhada, passível de diversos níveis de leitura, Astérix tornou-se actualmente numa gigantesca máquina comercial a que falta alma, ultimamente alimentada por trabalhos francamente maus, como o inenarrável “O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça”…

Também por isso, é um prazer descobrir (ou redescobrir) títulos como “Asterix na Córsega”(talvez o meu álbum favorito de toda a série), Astérix Legionário”, “O Domínio dos Deuses”, ou “Óbelix & Companhia”. Obras clássicas em que o traço inconfundível de Uderzo está ao serviço de uma história interessante e bem contada, repleta de gags divertidíssimos e trocadilhos deliciosos, muitos deles, infelizmente, praticamente intraduzíveis.

O que nos leva justamente ao aspecto distintivo desta edição da Asa, em relação à anterior da Meribérica, e que é a nova tradução. Uma diferente e discutível tradução, que pretende fazer melhor justiça aos frequentes trocadilhos em que Goscinny era pródigo, mas que não é isenta de polémica ao alterar os nomes das personagens que conhecemos desde sempre, como o bardo Assurancetourix que se passa a chamar Cacofonix, ou Abraracourcix, o chefe da Aldeia, que se transformou em Matasetix na nova versão das Edições Asa.

Astérix: Obelix e Companhia

O argumento, apresentado pela responsável editorial da Asa, de que a maioria dos nomes das personagens não faz sentido em português, sendo por isso arranjar uma alternativa que faça sentido na nossa língua, não deixa de ser legítimo. Mas a verdade é que, para quem, como eu, se habituou aos nomes originais das personagens, o aportuguesamento dos nomes ainda causa uma (desagradável) estranheza.

Mas isso é um pormenor, que não nos deve fazer esquecer o dado mais importante. E esse dado é o facto da totalidade da série estar novamente disponível em português, para que as novas gerações de leitores, traumatizadas com os títulos mais recentes, possam descobrir o verdadeiro “Asterix” nas suas melhores e mais divertidas aventuras.

(“Astérix: Os Louros de César”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Legionário”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Domínio dos Deuses”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Presente de César”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
(“Astérix: Na Córsega”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
(“Astérix: Obelix e Companhia”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras