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Monumento

Domingo, Outubro 7th, 2007

A edição de BD tem sido (bem) abalada por algumas surpresas muito agradáveis. Primeiro foi o sucesso de Príncipe Valente, a que se seguiram as edições de obras tão importantes (e atípicas, em termos da panorâmica nacional) como Cidade de vidro (Karasik e Mazzucchelli, adaptando Auster) ou O amor é um inferno de Matt Groening, ás quais voltaremos. Porque o maior destaque deve ir para os dois primeiros volumes da colecção integral de Peanuts, a obra maior de Charles Schultz, uma aposta completamente inesperada das Edições Afrontamento na cuidada edição da norte-americana Fantagraphics, que inclui ainda entrevistas, estudos, ensaios; e conta com o excelente design do autor canadiano Seth. Um monumento à e da banda desenhada.

Pode não ter sido radicalmente inovador, mas Peanuts é uma obra referência que marcou as obras do género (e não só) que se lhe seguiram. Não só pelo desenho simples (mas não simplista, infelizmente s‹o coisas que se confundem muito), ou pelo uso das quatro vinhetas para retratar situações humorísticas, com a terceira vinheta a ter muitas vezes o papel de “pausa” antes da conclusão, ou ainda pela definição de um grupo de personagens muito bem caracterizadas, a viver nos subœrbios norte-americanos. Mas antes porque essas personagens, “crianças” num mundo sem adultos que interagem como adultos, se tornaram arquétipos poderosos, do inseguro mas “bom rapaz” Charlie Brown, à decidida e arrogante Lucy, passando pelo distante “intelectual” Schroeder, pela seguidora Marcy, pela empreendedora sem objectivos Patty, pelo generoso e crédulo Linus; e culminando naquele para quem impossível é nada, mesmo que apenas em fantasia, o cão Snoopy.

Peanuts

Peanuts tem alguma história entre nós, não tanto pela BD, mas talvez até mais pela animação e pelo “merchandising”, que a certa altura chegou a ser asfixiante. No entanto, e apesar da sua qualidade, um conhecedor ocasional é capaz de ficar algo perplexo com estes primeiros volumes, não tanto pelo estilo ainda não consolidado (logo menos familiar), mas porque a maioria das personagens está ainda por definir, não só em termos de representação gráfica, mas sobretudo de personalidade, com destaque para o emblemático Snoopy, aqui ainda (quase) só um cão. Apenas Lucy, e, em menor grau, Linus e Schroeder, surgiram desde logo com as características-base que lhes conhecemos. Na verdade é muito interessante ver como, longe de ser o pobre coitado em que se viria a transformar, ao início Charlie Brown tem uma confiança/arrogância que será depois claramente “sugada” pela neófita Lucy.

Ao analisar o percurso de Peanutso autor é tão fascinante quanto a obra. Charles Schultz é, de certo modo, um iconoclasta involuntário. Após a Depressão e a Segunda Grande Guerra, os anos de 1950 seriam anos de abundância, do trabalho em paz para a felicidade doméstica de subúrbio, com a popularização da cultura do automóvel e electrodomésticos (incluindo a televisão), e antes de novas inquietações na Coreia e (sobretudo) Vietname, ou da ameça iminente da Guerra Fria. Como é patente na entrevista incluída no primeiro volume, Schultz encarna esse ideal ascético e estóico do trabalho enquanto dever para o progresso pós-guerra, sobretudo por parte de quem vinha de tempos piores. Nessa perspectiva cumpre prazos, o seu trabalho nunca põe abertamente em causa o microcosmos social que retrata, Schultz nunca discute com os seus editores, aceitando limitações de espaço, propostas para as suas personagens extra-BD, e até mesmo a imposição de um nome para a sua série, Peanuts, que considerava idiota e degradante. Percebe-se, por isso, a sua animosidade perante autores bem mais exigentes e contestatários a esse nível, como Gary Trudeau (autor do politicamente empenhado Doonesbury), que Schultz classificava como, lá está, pouco profissional.

Peanuts

Claro que, para lá do (suposto) optimismo e da alegria no trabalho, a década de 1950 foi também sintomática do iníco do “spleen” contemporâneo na mesma vida de subœrbio, com a angœstia e a insatisfação por vidas previsíveis e programadas a germinarem logo abaixo do artificialismo idílico (veja-se o episódio respectivo de The Hours), num caminho que levaria à popularização de antidepressivos e psicanálise (e a Happiness de Todd Solondz ou mesmo à caricatura em American Beauty ou Desperate Housewives). Toda essa bipolaridade angustiada está claramente presente desde o início em Peanuts, com a insegurança e a arrogância, a generosidade e a inveja, a surgirem nas mesmas personagens (por vezes em simultâneo). Com a insatisfação e a vontade de fazer a esbarrar em dificuldades constantes, desde a necessidade de conforto e o medo do risco, à simples falta de talento, como nos famosos falhanços desportivos de Charlie Brown. Um mundo do qual a œnica escapatória parece ser a fantasia de Snoopy, o contraponto de Charlie Brown. Para mais os protagonistas s‹o crianças, com a dupla inquietação que isso acarreta. Não só o uso destas personagens geralmente é mais anódino e lamechas, como o retrato (realista) de Schultz não dá grande azo a prever futuros muito diferentes do presente. Claro que as situações humorísticas se “lêem”, a outro nível, sem considerar nada disto. Mas esperava-se que um retrato psico-social brilhante desta natureza fosse realizado por um contestário assumido, e não por um modesto puritano perfeitamente integrado no sistema, que se recusou sempre a fazer grandes leituras do seu trabalho. Á isso que é notável, e aí reside o maior fascínio destas tiras. A análise incisiva enquanto reflexo involuntário. Não só (mas também) por isso é urgente ler hoje Peanuts. Esta é uma edição fundamental, a obra do ano.

Peanuts, Obra Completa 1, 1950-1952. 325 pp.
Peanuts, Obra Completa 2, 1953-1954. 345 pp.
Argumento e desenhos de Charles M. Schultz. Edições Afrontamento, 23 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos