Neil Gaiman chega ao cinema com Stardust
Segunda-feira, Outubro 15th, 2007Em exibição nas salas de cinema nacionais desde o passado dia 27 de Setembro, “Stardust” é a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de Neil Gaiman, o criador de “Sandman” e “Mr. Punch”, a chegar ao grande ecrã.
Numa época em que as relações entre Banda Desenhada e cinema são cada vez mais intensas, a obra de Neil Gaiman não podia escapar ao radar dos estúdios de Hollywood. Considerado como um dos mais importantes nomes da BD de língua inglesa, e não só, muito por via da seminal série “Sandman”, Gaiman espalhou igualmente o seu talento pela literatura, tanto infantil como para adultos, mantendo-se ao mesmo tempo próximo do cinema e da televisão, das mais variadas formas. Seja adaptando os diálogos do filme “Princesa Mononoke”, de Myiazaki, escrevendo o guião da série “Neverwere” para a BBC, escrevendo o argumento de “Mirrormask” para o seu amigo Dave McKean realizar e até realizando ele próprio a curta metragem “A Short Film About John Bolton”, produzida por Matthew Vaughn, o realizador de “Stardust”.
Mas ainda antes de ser um filme, “Stardust” começou por ser uma novela que Gaiman começou a escrever para ser ilustrada por Charles Vess, em 1991, logo a seguir a ambos terem ganho o World Fantasy Award com “A Midsummer’s Night Dream”, um episódio de Sandman, e que foi publicada em 1998 pela Vertigo, como uma mini-série em quatro partes, antes de ser recolhida num único volume. E logo em 1998, a Miramax quis transformar “Stardust” num filme, mas o projecto nunca foi avante, acabando os direitos cinematográficos por voltarem para Gaiman, uma vez expirada a cláusula de opção, que os vendeu a Matthem Vaughn, realizador de “Layer Cake” e produtor dos filmes de Guy Ritchie (cineasta mais conhecido por ser casado com Madonna…) em 2005, tendo este último convencido a Paramount a investir 65 milhões de dólares no filme.
Embora acompanhasse o processo de gestação do filme, tendo inclusive indicado Jane Goldman, a argumentista que, com Vaughn, adaptou o romance ao cinema, Gaiman sempre teve consciência que o filme seria diferente do livro. Como o próprio confessou “não queria que “Stardust” fosse um daqueles filmes que tentava ser completamente fiel ao livro e falhava”. E a verdade é que as diferenças são assinaláveis, começando pela dimensão mais sombria do livro (aterrorizador como os bons contos de fadas devem ser) que no filme é bastante amenizada por um humor britânico, pouco habitual neste tipo de filmes fantásticos. Um bom exemplo, são as personagens do comerciante, interpretado por Ricky Gervais (da série “The Office”), ou do Capitão Shakespeare, o comandante do navio voador, interpretado por Robert de Niro, que no livro se chama Johannes Alberic, e não tem uma faceta secreta de “drag queen”…
Mas, não sendo tão interessante como o livro, “Stardust” é um filme divertido e que entretém, com uma imaginação que está ausente da maioria dos filmes do género, que se limitam a repisar os cânones de Tolkien e seguidores. E além disso, o elenco é de respeito, como uma notável Michelle Pfeifer que faz uma bruxa fabulosa, bem secundada por Claire Danes no papel da Estrela Cadente.
Se o leitor gostou de “Stardust”, o filme, a minha ideia é que irá gostar ainda mais do livro que lhe deu origem. Livro esse que está disponível em português numa edição da Presença, a que faltam lamentavelmente as ilustrações de Charles Vess. E, não desfazendo na tradução da Presença, “Stardust” ganha muito em ser lido na versão original, acompanhado pelos desenhos de Charles Vess. Desenhos belíssimos e que influenciaram decisivamente a própria evolução da história, como confessa Neil Gaiman quando diz que: “uma grande parte da história surgiu comigo a pensar: “era giro ver esta cena desenhada pelo Charles Vess”.
(“Stardust”, de Matthew Vaughn, com Michelle Pfeifer, Claire Danes e Robert de Niro, em exibição em Coimbra nos cinemas Lusomundo Dolce Vita)
Artigo escrito por: João Miguel Lameiras



