Olhares
Quarta-feira, Julho 11th, 2007Como é que se vê , se interpreta, se sente, o Outro? Um problema para a Antropologia, Sociologia, Psicologia, não tanto para a banda desenhada, dir-se-á. Mas como elemento narrativo (e, consequentemente, como ferramenta posterior de análise) poucos serão mais estimulantes; logo arriscados. Duas propostas díspares de autores francófonos demonstram isso mesmo. Em ambas há um certo tipo de olhar sobre o Terceiro Mundo, uma espécie de Antropologia de intervenção em BD, focada sobre a Nicarágua somozista ou o Brasil dos meninos de rua. Desse ponto de vista são obras muito interessantes, num mercado minguante.
Trabalho em dois volumes Muchacho (ASA) é um projecto de Emmanuel Lepage, autor cujo talento gráfico era notório num excelente livro que passou quase despercebido, Terra Sem Mal (argumento de Anne Sibran, edição VitaminaBD). Aqui volta a juntar a luxúria dos espaços com a delicadeza das figuras humanas, um traço “bonito” que torna o contraste com a dureza do relato tanto mais vibrante. Muchacho resulta de um trabalho preparatório patente, não só na pesquisa histórica, mas na caracterização de personagens e situações. No primeiro caso há a tentativa clara de evitar que o leitor tipifique de imediato os intervenientes. O problema é que todos têm elementos facilmente reconhecíveis, ou seja, disfarçar esteriótipos parece mais viável do que evitá-los logo à partida. No segundo, o retrato político da Nicarágua não é, pelo menos neste primeiro volume, forçado e pedagógico, surge com o desenrolar da narrativa, com a história e sobretudo com a evolução do protagonista, com a sua capacidade para interpretar aquilo que o rodeia.
Com um nome profético, parte do percurso de Gabriel adivinha-se nas suas origens. Jovem filho de proprietários ligados à ditadura, a sensibilidade artística (e a sexualidade) tê-lo-á levado ao desterro familiar, primeiro no Seminário, mais tarde numa paróquia perdida na selva. Onde toma contacto com os efeitos práticos da ditadura de Somoza, com a influência dos EUA no regime, com a Teologia da Libertação, com a guerrilha Sandinista. Aspectos a trabalhar no segundo volume, em paralelo com a (para já apenas adivinhada) perda de ingenuidade do protagonista. Nesse aspecto Muchacho é também um excelente exemplo de como os modelos tradicionais da banda desenhada podem ser limitados para potenciais novos leitores, quer na forma franco-belga de álbuns, quer nas revistas individuais de “comics” americanos. Sobretudo quando não há, como sucede em Portugal, garantias firmes de continuidade. Cada história demora tempo, e, por mais interesse que gere, a leitura deste primeiro volume sabe a preliminares, a pouco. Fica-se à espera da conclusão.
Wolverine: Saudade (BD Mania) é um objecto semelhante no modo como se posiciona perante a realidade, mas diferente a vários outros níveis. Num certo sentido os defeitos de Muchacho são as suas virtudes; e vice-versa. História auto-conclusiva, com menos páginas e protagonizada por um (super)herói com características vincadas, a margem de manobra é aqui menor. Mas há boas tentativas para a maximizar, para evitar que esta não seja apenas mais uma história de Wolverine. A ideia é mesmo essa: no projecto Marvel Transatlântico personagens da editora Marvel são trabalhadas por olhares europeus, no caso franceses. É certo que os “comics” fizeram outras “importações” de talento europeu, nomeadamente de argumentistas britânicos (Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Garth Ennis, Warren Ellis…). Só que, nesse caso, a proximidade cultural (em termos de BD) levou a que fossem importadas sobretudo referências narrativo-literárias, uma revolução por dentro do modelo existente, mantendo-o reconhecível. Aqui pretende-se algo distinto, trazer algo da BD franco-belga de aventuras, com o uso de planificações que procuram equilibrar o fluxo narrativo com “splash pages” mais espectaculares; bem como uma componente “engagé” que raras vezes se vê nos “comics” de superheróis, pelo menos com um mínimo de complexidade. Isto enquanto os instantes de extrema violência garantem que Wolverine não sai mais “macio” do exercício. Se o desenho de Philippe Buchet é arejado, excepto quando o movimento frenético dos combates faz descobrir tiques de grotesco, o argumento de Jean-David Morvan procura (talvez com demasiado afinco) a diferença, mas torna-se digno de nota por isso mesmo.
Tomando inspiração de obras como Cidade de Deus (e, antes, Pixote) o Brasil de Wolverine: Saudade é o Brasil das favelas e meninos de rua. Os super-poderes são associados ao misticismo afro-brasileiro, e vistos, não com o “angst” típico na Marvel, mas como possíveis instrumentos de justiça e transcendência sociais. E o mal não é corporizado por super-vilões caricatos, mas pela exploração, pela globalização selvagem, com os seus Esquadrões da Morte e outros mercenários e oportunistas. Uma mescla de aventura e mensagem que Morvan faz também, e com maior sucesso, numa boa e surpreendente aventura de Spirou: O homem que não queria morrer (desenhos de Munuera, edição recente Público/ASA). Percebe-se pois esta aposta da nova editora BD Mania (uma evolução natural da loja homónima) numa obra que procura fazer pontes entre géneros. Só que se corre sempre o risco de alienar ambos os públicos que se pretendia unir. Os leitores regulares de BD franco-belga podem afastar-se pelo uso de super-heróis, por uma história demasiado rápida e, apesar de tudo, maniqueísta, apenas com maniqueísmos diferentes dos habituais. A este nível ninguém confundirá Wolverine: Saudade com Muchacho (o mesmo não se aplica a O homem que não queria morrer). Já os leitores de “comics” desconfiarão do formato, preço, e do facto de esta ser, lá está, uma história atípica de Wolverine. Se tal acontecer é pena, porque a ideia de diálogo entre formas de pensar e viver a BD pode gerar polinizações cruzadas muito interessantes.
Muchacho, Volume 1. Argumento e desenhos de Emmanuel Lepage. ASA, 72 pp., 15,50 Euros.
Wolverine: Saudade. Argumento de Jean-David Morvan, desenhos de Philippe Buchet. BD Mania, 48 pp., 13,50 Euros.
Artigo escrito por: João Ramalho Santos

