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Dois Franceses no Quebeque

Terça-feira, Agosto 7th, 2007

Uma das principais diferenças entre a Banda desenhada franco-belga e os comics americanos, reside na forma diversa como os desenhadores trabalham. Nos comics das grandes editoras o mais habitual é haver uma clara separação de tarefas, com um argumentista, um desenhador para o lápis e outro para a arte-final (passagem a tinta), um colorista, um responsável pela legendagem, muitas vezes com cada um numa cidade diferente, cabendo ao editor coordenar toda essa gente. Já na BD franco belga, a regra é ser o desenhador a assegurar o desenho a lápis, a passagem a tinta e muitas vezes a cor, quando não escreve também o argumento…

Claro que, para cada regra há sempre excepções. Basta pensar num americano como Frank Miller, que escreve, desenha e legenda as suas histórias de “Sin City”, ou nos europeus Hergé e Hugo Pratt, que tinham assistentes que asseguravam as partes mais morosas do desenho, como os cenários, ou as máquinas.

Armazém Central: Marie

Esta (longa) introdução vem a propósito de “Armazém Central”, uma trilogia que reúne dois veteranos da BD francesa, Loisel e Tripp, numa colaboração “à americana”, de que as Edições Asa lançaram há poucos meses o primeiro volume, “Marie”. Se Loisel dispensa apresentações para os leitores portugueses que acompanharam o seu trabalho em “Peter Pan” e “Em Busca do Pássaro do Tempo”,  já Tripp, apesar de uma carreira de quase 30 anos é praticamente desconhecido em Portugal, onde nunca foi publicado.

Na origem desta colaboração em moldes poucos habituais para a BD franco-belga, está o facto dos dois autores partilharem o mesmo atellier em Montreal, no Canadá, o que lhes permitiu descobrir que eram complementares, ou nas palavras de Tripp, que “um desenhador virtual, que fosse uma mistura dos dois, desenharia com muito mais prazer, sem esforço”. Com efeito, Loisel adora o desenho a lápis e aborrece-se mortalmente na fase de passar a tinta, enquanto que Tripp é exactamente ao contrário e, ao conseguirem que cada um faça apenas aquilo que mais gosta, conseguem produzir a um ritmo nada habitual no mercado francês, de tal modo que em pouco mais de um ano já foram publicados os dois primeiros álbuns desta trilogia passada em Notre-Dame-des-Lacs, uma aldeia perdida no Quebeque dos anos 20 do século XX.

Mas, passada a curiosidade de vermos dois autores franceses consagrados a trabalharem nestes moldes, falemos do resultado final patente neste primeiro volume de “Armazém Central”. Loisel, numa entrevista à revista “Bo Doi” define a história como “uma comédia à Frank Cappra (…) com um ambiente próximo das pinturas de Norman Rockwell”. E, se e termos de ambiente a coisa funciona muito bem, com os autores a traçarem um bem conseguido retrato nostálgico da vida no campo nessa época, a verdade é que, apesar das 76 páginas deste primeiro volume, a história pouco ou nada avança.

Armazém Central: Marie

Sabemos que a jovem viúva Marie Ducharme vai tomar conta sozinha do Armazém Central que era do seu marido, com cujo funeral se inicia a acção, e ficámos a conhecer algumas das maias pitorescas personagens da aldeia, mas pouco mais acontece de relevante neste álbum, com os autores a concentrarem-se sobretudo na descrição do ambiente campestre, e no dia a dia da comunidade de Notre-Dame-des-Lacs, gastando 5 ou 6 páginas com um baile que descamba em cena de pancadaria, e outras tantas páginas com as brincadeiras perigosas dos garotos da aldeia com um bode…

Vamos esperar que no próximo volume, já publicado em França, a intriga evolua, para que “Armazém Central” possa enfim atingir níveis próximos dos anteriores trabalhos de Loisel.

(”Armazém Central 1: Marie”, de Loisel e Tripp, Edições Asa, 80 pags, 14 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras