INTERPRETAÇÕES
Segunda-feira, Setembro 24th, 2007A última edição do Festival de banda desenhada da Amadora voltou a revelar as qualidades fundamentais necessárias a um evento de referência: um espaço com potencial (o Fórum Cultural da Brandoa, apesar de periférico), um tema e material fortes (a BD produzida em locais menos óbvios do mundo), boas exposições laterais (colaborações entre mundos, Filipe Abranches, Decálogo, uma viagem com autores portugueses), um espaço comercial mais digno. Falhou onde tem falhado: o trabalhar total das propostas (uma aposta de risco a nível da exposição principal implicava um comissariado mais cuidado), a divulgação do evento, a vinda desenquadrada de autores, a captação do grande público (limitada à aposta, ganha, do brasileiro Maurício de Souza, autor de Mónica). Mas a Amadora sempre foi um importante pólo editorial, o sítio onde se mostram as novidades de Outono. Nessa perspectiva Tratado de Umbrografia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques (Devir) foi a proposta mais interessante, até por marcar uma mudança no percurso do nosso mais reconhecido autor. Com um universo criativo prolífico e bem marcado, o traço de José Carlos Fernandes começava a parecer algo limitado para dar corpo aos seus argumentos. Ou, melhor, para lhes dar outros corpos. Daí o interesse da colecção BlackBox Stories, na qual pequenos contos entre o fantástico, o melancólico, o cínico e o simbólico de Fernandes serão interpretados por outros desenhadores. Tratado de Umbrografia revela um todo interessante na sua diversidade, sobretudo porque a sensação de familiaridade do texto é corrompida por soluções gráficas que dificilmente se esperariam do argumentista. A escrita telegráfica e o tom de José Carlos Fernandes são reconhecíveis, num meio termo entre histórias breves (como nas Histórias de um minuto de István Órkény) e ideias curtas para histórias, que cabe ao leitor elaborar (como em Centúria de Giorgio Manganelli). Em Fernandes há um núcleo de significados-base que se expandem, e que vão ganhando ambiguidade à medida que conteœdos concretos e simbólicos se interpenetram; e, um pouco à maneira de Sam Shepard, por vezes é difícil saber se a história acaba onde o leitor pensa que acabou (literal e figurativamente).
Nesse sentido Luís Henriques funciona como um privilegiado primeiro leitor, expandindo as ideias de cada narrativa em diferentes sentidos, e dando novas dimensões ao livro, por variar o registo do desenho. O resultado, curiosamente, nem é (bem) banda desenhada, mas contos ilustrados onde o texto penetra o desenho (a ausência de falas ajuda a marcar essa sensação), e nos quais o traço, mais do que se adaptar a cada ambiente narrativo, tenta complementá-lo. Por exemplo, se A feira dos políticos manuseados é uma sátira linear sobre a pequena política, Henriques “responde” com um estilo gongórico feito de colagens, contrastes extremos e pouco espaço livre. Algo que, para além de tocar na essência dos comportamentos caricaturados, complementa um texto, é partida, simples e directo nas suas intenções. Contraste-se esta abordagem com o tom diáfano a sépia e creme de A substância de que são feitos os sonhos e O avanço do deserto. Em ambos os casos pretende-se dar corpo a um tom onírico, embora com intenções muito distintas. Na primeira história (num universo que toca o de Neil Gaiman) o ritmo é o de uma história (falsamente) infantil, em torno de uma criança com o estranho poder de materializar o os sonhos. Ou seja, sobre o poder (e o perigo) do sonho. É essa componente que sugere o traço leve, já que o espaço (quarto e casa do protagonista) é suficientemente identificável. Já em O avanço do deserto quase o mesmo traço parece sumir-se constantemente no fundo claro da página. A história fala de uma cidade estranha e inexoravelmente invadida por areia. Mas o desenho evita em permanência que o leitor se situe, perceba exactamente como é que o deserto está a contaminar a cidade surpreendida, de que tipo de cidade se trata. Onde, para além do espanto, os habitantes reagem com um estranho desprendimento e adaptabilidade; o deserto invasor como metáfora prov‡vel para algo mais do que areia, um pouco à imagem dos ambientes de J. G. Ballard.
Por outro lado, é interessante ver como em Elegia americana, um conto de estradas e motéis (e sonhos) desertos ao ritmo de Sam Shepard, Henriques preenche as páginas, criando um ambiente fechado e opressivo. Nunca deixando a monumentalidade adivinhada da paisagem respirar; apenas espreitar, envergonhada, no fundo desfocado de vinhetas. Mas este não é um conto de grandes espaços, mas de grandes ambições, que acabam por encolher o espaço, transformando-o numa caricatura de si mesmo. Prolongando a reflexão sobre o que é a Arte feita em A œltima obra prima de Aaron Slobodj, a história sobre alguém que descobre a originalidade de encenar animais atropelados (”road-kill”) enquanto arte é (mais) uma metáfora sobre pequenas mentes presas em grandes filosofias. Apenas, não por acaso, passada em grandes espaços. E por isso parece apropriado que Henriques os encolha. Já em Zuma, o tatuador a alegoria é antropológico-cultural. Um velho artista usa símbolos da sua cultura quase desaparecida para decorar peles jovens que apenas desejam moda. Só que, em noites de lua cheia, as tatuagens possuem os corpos, os símbolos tornam-se literais, o colonizador passa a (simbólico) colonizado. O desenho rendilhado mostra a loucura na interpenetração de mundos, enquanto o (ab)uso da cor vermelha é talvez uma maneira demasiado óbvia para marcar o regresso a um estado primordial (”selvagem”?) que as tatuagens de Zuma induzem sob o luar. Há uma relação entre esta história e o conto que dá nome à colectânea, embora Tratado de umbrografia seja mais ambicioso; um romance entre contos. Ou melhor, notas para um potencial romance sobre o estudo das sombras ao longo dos tempos, e do poder que delas se pode retirar. O ritmo apocrifo-enciclopédico cita abertamente Borges e Bioy Casares, e o desenho oscila de acordo com o momento narrativo, ajudando, logo aí, a criar a ideia de que esta é uma narrativa mais complexa, mas, por oposição, retirando alguma unidade patente nos outros contos. O conceito-base (as sombras, o oculto) não se compadece com um desenho revelador, e esta é uma história sob semi-penumbra permanente. Mas há diferenças no uso caricatural de referências arqueológicas, no misticismo em negativo dos índios norte-americanos, na inquietação que transparece das estranhas experiências para dissociar o corpo da sombra, ou das actividades misteriosas da Seita da Linha da Sombra. Fica, no entanto, a sensação de que faltou algo que garantisse a Tratado de Umbrografia (a história) a mesma ambição de Tratado de Umbrografia (a colectânea). Esta última vibra na história mais falsamente simples de todo o conjunto, a sœmula de inquietações que é O avanço do deserto.
Tratado de Umbrografia. Argumento de José Carlos Fernandes, desenhos de Luís Henriques. Devir 72 pp., 17 Euros.
Artigo escrito por: João Ramalho Santos

