Quadro
Quarta-feira, Setembro 5th, 2007Nos EUA a banda desenhada popularizou-se nos inícios do século XX muito a par do cinema, enquanto entretenimento barato de massas, incluindo as massas de imigrantes pouco familiares com a l’ngua inglesa. Desde essa altura a relação entre ambos, mantendo-se clara, tornou-se algo unívoca. O facto de uma obra em BD fazer apelo a elementos cinéfilos é visto como um sinal positivo, uma vontade de validação; o recíproco num filme é tomado como sinal de menoridade, ou, na melhor das hipóteses, como pontuação irónica. Com a pintura a relação é uma pouco a mesma, mas bastante anterior. Também neste caso o uso de linguagem aparentada com a da banda desenhada tinha uma conotação menor, como o uso de estampas para transmitir mensagens simples (e “morais”) a uma população maioritariamente analfabeta. Nessa perspectiva é interessante tentar estabelecer um paralelo com alguma pintura clássica, considerando que as obras não são meros registos fotográficos de momento, mas consistem muitas vezes em narrativas mais ou menos complexas, retratos comentados de um mundo escondidos numa só representação pictórica. Será que se poderia “expandir” narrativamente um quadro? Especificar a história possivelmente escondida na imagem? É um “high-concept” curioso, levado a cabo, por exemplo, com Rapariga com brinco de pérola de Vermeer. E que Yves H. desenvolve em Dulle Griet, um argumento para o seu pai Hermann Huppen, a partir do quadro homónimo de Pieter Brueghel o Velho (1562).
Tal como a sua referência tutelar Hieronymus Bosch, parte da obra de Brueghel vai beber ás tradições de um fantástico que cruza a mitologia católica com elementos pagãos, gerando imagens onde real e surreal se interpenetram. Dulle Griet retrata uma cidade esventrada e saqueada, a arder em caos. Grupos de mulheres, soldados e criaturas demon’acas debatem-se nas ruas, enquanto novos seres nascem de ovos gigantescos, outros divertem-se no meio da confus‹o, e uma torre metamorfoseia-se numa espécie de Porta do Inferno, onde se perdem os danados. A figura central é uma mulher armada, correndo com ar esgazeado, e carregando o seu quinhão do saque. Trata-se também de uma figura da mitologia popular flamenga, Dulle Griet, a Guida Doida, capaz de lutar mesmo ás portas do Inferno. Só que as suas motivações permanecem misteriosas. Que emoções a guiam? Como chegou ali? Luta ou foge? A atitude representa rebeldia, cobiça ou “simples” loucura?
Nesta homenagem/construção em BD Yves H. escolhe a opção mais simples, o amor louco, Dulle Griet enquanto personagem secundária, serva de um demónio com forma humana. é o elo mais ténue da história, a par da ligação forçada ao trabalho anterior de Hermann na série As Torres de Bois-Maury. E a opção não era inevitável: Dulle Griet teria sido, por exemplo, um dos muitos modelos supostamente usados por Bertold Brecht para Mãe Coragem. Mas Yves H. decidiu resumir a protagonista, olhar para além dela, e fixar-se no ambiente do quadro. Ao analisar as estranhas paisagens, possess›es demoníacas e o castigo dos danados de Brueghel é tentador revisitar as grandes lutas político-religiosas da Reforma, a cisão entre o Vaticano e os seguidores de Lutero que, se reflecte também (ou sobretudo) uma vontade de independência, gerou traumas que ainda hoje ensombram a antiga Flandres.

De resto Brueghel era um comentador social muito crítico da época, e o fantástico nas suas obras pode ser visto como uma espécie de alucinação colectiva e metafórica dos tempos. Após rapidamente definir Griet, é esta tensão que Yves H. trabalha num interessante registo semi-teatral de tragédia shakespeareana (que a tradução muitas vezes trai); tendo o cuidado de representar a Grande Política através das contradições de anónimos cidadãos comuns, uma característica habitual nos trabalhos de seu pai. Em Dulle Griet Hermann, um dos mais belos desenhadores do feio, foge do vermelho-trágico que marca o quadro original, centrando-se no ambiente soturno do lusco-fusco que o precede, usando pequenas matizes de verde azulado para acentuar o cinzento. Mesmo a apoteose final, com Griet e a cidade fixando-se nas poses que os perpetuariam, é bastante comedida, mesmo ao nível da planifição, sóbria e profundamente “legível”. Ficaria a cargo de Mestre Brueghel, que Yves H. coloca como testemunha semi-anónima da história, a mitificação posterior. E, se metade do leitor gostaria de ver algo mais de explos‹o bruegheliana na arte de Hermann, a outra metade elogia o recato gráfico. Na verdade, fica a sensação de que o concretizar do fantástico nas figuras do Homem-Diabo e nas criaturas por si invocadas enfraquece um pouco a história. é a diferença entre considerar literalmente os ambientes de Brueghel, e lê-los como metáfora para algo mais. Nessa perspectiva, e apesar da sua eficácia, teria sido interessante ver este Dulle Griet sem a “muleta” do fantástico literal.
Em suma, há sempre um problema muito simples e óbvio com uma ideia como o a que esteve subjacente a esta obra. O risco de que a nova interpretação seja menos interessante do que o original, na medida em que tem de concretizar o que apenas estava sugerido.
Dulle Griet. Argumento de Yves H., desenhos de Hermann. Vitamina BD, 48 pp., 12,50 Euros
Artigo escrito por: João Ramalho Santos
