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O Regresso de Hellboy

Segunda-feira, Julho 9th, 2007

No preciso momento em que Guillermo Del Toro inicia em Praga as filmagens do segundo filme da série “Hellboy”, o diabólico herói de Mike Mignola regressa às livrarias portuguesas através da Devir, que lança “A Mão Direita do Apocalipse”, o 4º volume da série, ao mesmo tempo que distribui os três primeiros volumes, agrupados num pack, a um preço bastante mais agradável. Um dos maiores nomes dos comics americanos, Mignola é senhor de uma carreira de duas décadas, que não se limita apenas à BD.

hellboy

Tendo-se iniciado profissionalmente na Marvel nos inícios da década de 80, a fama de Mignola consolidar-se-ia já durante os anos 90, graças à magnífica adaptação em BD do filme “Drácula”, de Francis Ford Coppola e, principalmente a “Gotham by Gaslight”, uma história passada no século XIX em que Batman enfrenta Jack, o Estripador, numa Gotham City vitoriana submersa pelas sombras e pelo nevoeiro. Esse peculiar uso das sombras como uma forma de criar ambiente, é uma das características mais identificáveis da obra de Mignola. Como ele próprio refere: “a princípio utilizava as sombras para tapar o que não sabia desenhar, mas aos poucos isso converteu-se numa forma de dar outra solidez às figuras.” Figuras cuja corporalidade remete para o trabalho de Jack Kirby, o mítico desenhador da época de ouro da Marvel, responsável pela criação da maioria dos personagens da Marvel. Hellboy, a sua criação mais representativa, nasceu ao mesmo tempo que a linha “Legend”, um selo que acolhia os projectos independentes de uma série de autores, como Frank Miller, Mike Allred e John Byrne, publicados pela Dark Horse.

Tendo necessidade de criar um personagem que permitisse contar as histórias que lhe interessavam, Hellboy surgiu naturalmente, graças ao prazer que Mignola experimenta ao desenhá-lo. Tal como sucede com o “Sandman” de Neil Gaiman, também “Hellboy” (que Mignola define como próximo de Sandman, mas com bastante mais acção) possibilita ao seu autor as mais variadas incursões pelos inúmeros cambiantes do terror e do fantástico, das mais diversas lendas europeias aos monstros do cinema de série B. Membro do BPRD (Bureau for Paranormal Research and Defense), uma organização governamental tipo X-Files, Hellboy dedica-se a investigar fenómenos paranormais, o que faz com a fleuma de um funcionário público, sendo precisamente esse comportamento contrastante com a sua imagem demoníaca, que dá uma pitada de humor à série e ajuda à identificação do leitor com o herói e os seus estranhos companheiros de equipa, com destaque para o misterioso homem-peixe Abe Sapien.

HellBoy

Já em termos gráficos, Mignola dá livre curso ao seu fascínio pela arquitectura gótica e pelas ruínas antigas, enchendo as páginas com ruínas cobertas de heras, baixo relevos exóticos e estátuas funerárias, elementos que surgem realçados por um jogo de sombras digno do expressionismo cinematográfico alemão, de filmes como “Nosferatu”, ou “O Gabinete do Dr. Caligari”. Excelente em termos de criação de ambientes, o seu traço estilizado revela-se também extremamente eficaz em termos narrativos. Este quarto volume da série reúne várias histórias curtas de dimensão variável, que abraçam diferentes fases da vida da personagem e que vão do simples divertimento de “Panquecas”, ao brilhantismo narrativo de “A Natureza do Monstro” e “Cabeças”, a história que escolhi para ilustrar este artigo, em que Hellboy enfrenta demónios japoneses. Mas a “piece de resistance” deste livro são as histórias “A Mão Direita do Apocalipse” e “Uma Caixa Cheia de Mal”, que desenvolvem um aspecto importante da mitologia de Hellboy, a sua mão de pedra. Obra absolutamente recomendável, até porque ver o Hellboy desenhado por Mignola é um prazer cada vez mais raro, esta edição resulta da associação entre a editora dinamarquesa g-Floy Studio e a portuguesa Devir, à semelhança do que já tinha sucedido com o “Orquídea Negra”, de Neil Gaiman e Dave McKean. E, para aqueles que só agora descobrirem o Hellboy, nada melhor que o pack que a Devir lançou, que permite comprar “Semente de Destruição”, “O Caixão Acorrentado” e “Despertar o Demónio” os três primeiros volumes da série, por menos de 20 euros.

(“Hellboy: A Mão Direita do Apocalipse”, de Mike Mignola, Edições Devir/G-Floy Studios, 144 pags, 14,99 €
“Pack Hellboy”, de Mike Mignola, Edições Devir, 128, 144 e 168 pags, 19,99 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras
(publicado originalmente no Diário As Beiras em 23/06/2007)