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O Regresso dos Portugueses IV: As propostas das editoras independentes

Quarta-feira, Dezembro 5th, 2007

Terminando a análise das novidades editoriais “made in Portugal”, lançadas durante o Festival da Amadora, que vieram animar a “reentrée bedéfila” de 2007, o espaço desta semana é destinado aos mais recentes lançamentos das Editoras Kingpin Comics e Pedranocharco, duas pequenas editoras que têm sabido apostar na divulgação dos autores nacionais, dando-lhes oportunidades de publicação.

Super Pig 3
Comecemos pela análise das séries da Kingpin, “Super Pig” e “C.A.O.S.”, que chegam ao terceiro número, precisamente um ano depois de ter saído o primeiro, no Festival da Amadora de 2006, confirmando um ritmo sustentado de publicação pouco habitual em projectos desta natureza.

E, no caso da série “C.A.O.S.”, este terceiro volume é também o último. Série de espionagem cuja acção se inicia em Portugal nos inícios dos anos 80, para terminar 13 anos depois, em Lisboa, com uma passagem pela Rússia de Boris Yeltsin, C.A.O.S., sem nunca chegar a deslumbrar, tem melhorado gradualmente de número para número, tanto em termos do desenho bastante agradável de Filipe Teixeira, como das cores, ainda assim demasiado planas de Carlos Geraldes. E mesmo o argumento, sem primar pela originalidade, vai ganhando em eficácia e fluência narrativa, resultando numa movimentada história de acção que se lê bem, com um ritmo e um aparato nas cenas de tiroteio (dignas de um filme de Hollywood) pouco habituais na BD portuguesa.

Seguindo um princípio vulgar nos comics americanos, um dos personagens da série C.A.O.S., o bem conseguido inspector Franco (uma espécie de cruzamento entre o Comissário Gordon e o Dirty Harry) vai também aparecer no nº 3 das aventuras de Super Pig, onde vai ter um papel importante, numa história que tem por base os jogos de poder na Fundação Calouste Pig, cuja administração o Super Pig acabou de herdar. A grande novidade deste 3º número, para além da cor, é a chegada de um novo desenhador, GEvan, cujo estilo “redondo” se adequa melhor ao universo de Super Pig, do que o desenho de Carlos Pedro (responsável pela arte dos dois primeiros números), que não se adaptava tão bem às personagens humanas como se adapta ao porco playboy. Além da arte digital de GEvan, cujos bonequinhos “cute”, se adoram ou detestam, não deixando ninguém indiferente, este Super Pig nº 3, traz também uma segunda história, que cria uma outra imagem de Super Pig, graças ao desenho de Eduardo Rebelo, um novo autor de grande potencial, com um traço bastante agradável e personalizado (mesmo que se notem influências de Sam Kieth) e um óptimo trabalho de cor.

Sexo, Mentiras e Fotocopias
Já a Pedranocharco, editora responsável pelo BD Jornal, lançou dois títulos de qualidade desigual (e um terceiro, “Formas de Pensar a BD”, de que falaremos brevemente) em que o “Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, ganha claramente face ao “Bang Bang” de Hugo Teixeira. Pré-publicado nas páginas do BD Jornal, “Sexo, Mentiras e Fotocópias” é um divertidíssimo exercício de humor, a partir de uma situação do quotidiano tão banal como kafkiana: um homem entra numa casa de fotocópias para pedir uma folha A3, mas a funcionária não lhe pode dar nem vender a folha, a menos que ele tire uma fotocópia. Tal como os Monty Phyton faziam nos seus scketches, Álvaro também prolonga o gag até ao limite do suportável, mantendo o leitor fixo à espera de uma punch line que tarda a chegar, conseguindo prende-lo às páginas do livro durante mais de 60 páginas. Aproveitando muito bem as potencialidades do seu traço limitado, este é o melhor trabalho de Álvaro, até agora, e a mais divertida BD portuguesa dos últimos anos.

Já o mesmo não se pode dizer de “Bang Bang”, de Hugo Teixeira, autor também habitual no “BD Jornal”, que aqui lança o primeiro capítulo do seu Western Spaguetti espacial, em versão mangá. Para além de não acontecer nada de relevante ao longo das quase quarenta páginas de história do primeiro número (não é por acaso que os mangas japoneses têm geralmente centenas, ou milhares de páginas), o pouco que acontece não ultrapassa os mais batidos clichés do género. Do mesmo modo, o traço ainda incipiente de Hugo Teixeira, que foi buscar à série “Trigun” inspiração para o visual da sua heroína, não se consegue libertar da influência de Totsumo Nihei, o desenhador de “Blame”.

Bang Bang 1
Ninguém põe em causa o mérito do trabalho de divulgação de novos autores levado a cabo por estas duas editoras. Mas se esse esforço é sempre louvável, convém que o trabalho desses autores já tenha um mínimo de maturidade e qualidade que justifique essa divulgação, o que, manifestamente, (ainda) não é o caso de Hugo Teixeira…

(”C.A.O.S. – Livro três” de Fernando Dordio Campos e Filipe Teixeira, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Super Pig” nº 3, de Mário Freitas, GEvan e Eduardo Rebelo, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, Pedranocharco, 78 pags, 7 €

“Bang Bang”, de Hugo Teixeira, Pedranocharco, 68 pags, 7 €)

Artigo escrito por : João Miguel Lameiras