Cyann regressa a casa
Quarta-feira, Agosto 1st, 2007Com uma ligeira “decalage” de dois meses em relação à edição original francesa, as Edições Asa acabam de publicar “As Cores de Marcade”, quarto volume de “O Ciclo de Cyann”, série de ficção científica com a assinatura inconfundível de François Bourgeon.
Nascido em Paris em 1945, Bourgeon adquiriu merecida fama no mundo da Banda Desenhada graças às séries “Os Passageiros do Vento” e “Os Companheiros do Crepúsculo”, ambas já publicadas em Portugal pela Meribérica. Duas séries de temática histórica que, além do grande rigor histórico e de um domínio perfeito da técnica narrativa, revelavam um desenho de grande sensualidade e realismo e um grande cuidado na construção das personagens, especialmente femininas.
Quando o autor decidiu abandonar a BD de temática histórica para se lançar no campo traiçoeiro, mas pleno de potencialidades, da Ficção Cientifica, com “O ciclo de Cyann” assumiu um grande desafio, que ainda não conseguiu vencer totalmente. Como não é fácil criar, a partir do nada, um universo complexo e coerente, Bourgeon solicitou o apoio de Claude Lacroix, especialista em universos paradoxais e narrativas de ficção cientifica, para juntos criarem o mundo de Cyann.
A colaboração da dupla resultou num processo complexo e demorado, com uma primeira fase, em que Bourgeon se ocupou da criação do vestuário, dos personagens e dos aspectos tecnológicos, enquanto Lacroix criou os ambientes em que decorre a história, incluindo a fauna, flora e geografia dos vários planetas. A partir dai, Bourgeon encarregou-se da planificação, diálogos, desenhos e cor, da história concebida por ambos.
Só que o resultado final, os álbuns propriamente ditos, não tem conseguido estar à altura das ambições da dupla, nem no esforço investido na sua concretização… Talvez porque, em se tratando de um universo novo, no qual o leitor ainda não entrou completamente, falta-lhe todo um sistema de referências habitual, o que dificulta a sua adesão imediata a uma série indiscutivelmente bem feita, mas a que falta o golpe de génio a que Bourgeon nos habituou.
Depois de uma paragem de quase uma década entre o segundo e o terceiro volumes, motivada por complexas disputas judiciais entre os autores e a editora Casterman, a série mudou de editora e regressou em 2005 com “Aieia de Aldaal” (ver “Diário As Beiras”de 25/02/2006), um álbum de transição, que pouco adianta em termos de evolução da história que, sabemo-lo agora, está prevista para cinco volumes.
Em “As Cores de Marcade”, publicado menos de dois anos depois do álbum anterior, há uma evidente preocupação de recuperar o tempo perdido e fazer avançar a história, com resultados que, não sendo entusiasmantes, são claramente superiores aos conseguidos com “Aieia de Aldaal”.
Não só o mundo de Marcade, em que a simples troca de palavras entre duas pessoas implica uma transacção comercial e um elaborado código de cores permite saber a capacidade económica de cada um, é muito mais interessante do que o planeta Aldaal do álbum anterior, como ainda por cima, a história avança com outra rapidez. Cyann consegue finalmente regressar a Olh para ser confrontada com um paradigma da literatura de ficção científica: quando se viaja no espaço o tempo passa mais lentamente para nós. Assim, a nossa (não muito simpática) heroina descobre que foi dada como morta e a sua linhagem considerada como extinta e que a sua amiga Nacara, agora uma velha, ocupou o seu lugar.
A evolução de Cyann, da adolescente mimada do primeiro álbum para a mulher amadurecida pelas dificuldades da vida, conclui-se no quinto volume, ultimo da série. Mas para o ler ainda vamos ter que esperar alguns anos, pois o próprio Bourgeon disse, numa entrevista à revista Bo Doi que só voltará a Cyann depois de acabar o álbum a solo em que trabalha agora, em que volta a abordar uma época histórica concreta.
Esperemos que o aguardado regresso ao passado de François Bourgeon signifique também o regresso aos tempos gloriosos de “Os Passageiros do Vento” e dos “Companheiros do Crepúsculo”, verdadeiras obras-primas que ajudaram a cimentar o seu estatuto como um nome maior da BD europeia.
(O Ciclo de Cyann 4: As Cores de Marcade”, de François Bourgeon e Claude Lacroix, Edições Asa, 72 pags, 15,75 €)
Artigo escrito por: João Miguel Lameiras
(publicado originalmente em 28/07/2007)

