Archive for the ‘BD Portuguesa’ Category

Wanya regressa a Orongo

Terça-feira, Fevereiro 19th, 2008

Título seminal da Banda Desenhada portuguesa da década de 70 do Século XX e uma das raras incursões nacionais pela BD de ficção científica, “Wanya, Escala em Orongo” acaba de ser reeditado pela Gradiva numa edição especial numerada, lançada 35 anos depois da primeira edição e 15 anos após a morte de Nelson Dias, o desenhador.

Publicada originalmente em 1973, em plena “Primavera Marcelista”, “Wanya” é claramente filha do seu tempo, tanto em termos estéticos, como literários. Filiada numa corrente de ficção científica da Banda Desenhada francesa, em que o erotismo se alia ao comentário social, lançada pelo editor Eric Losfeld, de que “Saga de Xam”, de Nicolas Devil, é o exemplo mais importante e influência directamente assumida pelo desenhador, “Wanya” demonstra que o impacto desta obra, e de outras como a “Barbarella” de Jean-Claude Forrest, também editada por Losfeld, se fez sentir em Portugal, apesar da censura que dificultava o acesso a este tipo de BD mais adulta e “engagé”.

Curiosa história de ficção científica libertária e de ressonâncias cósmicas, “Wanya” foi apontada por alguma crítica como tendo um tom político que presagiava as mudanças ocorridas com o 25 de Abril. E, mesmo que o argumentista Augusto Mota rejeite essa visão mais panfletária, frases como “o povo veio finalmente dos subterrâneos para a superfície”, ou a semelhança fonética entre o nome de Isar, o Deus/despota iluminado cuja morte veio libertar o povo de Citânia, e o nome de Salazar, falecido anos antes, permite essas leituras.

Wanya 1
Trinta e cinco anos depois da edição original, (re)ler “Wanya” permite constatar que o texto de Augusto Mota, cujo tom solene é muitas vezes redundante em relação ao que as imagens mostram, envelheceu pior que os desenhos de Nelson Dias, cuja técnica de pontilhado, na linha de Caprioli e dos primeiros trabalhos de Esban Maroto, é impressionante. Belo exemplo da estética da Pop Art e da absorção pela BD de elementos provenientes de outras artes, bem patente na sequência de duas páginas, de que escolhi uma para ilustrar este artigo, em que Vania conta a história da Terra aos habitante de Citânia, “Wanya” é um verdadeiro espectáculo visual e a prova cabal do grande talento de um desenhador, Nelson Dias, que infelizmente não deixou muita obra neste campo.

Com a excepção de “Eternus 9″, de Victor Mesquita, 5 ou 6 anos depois, em que o trabalho de Philipe Druilllet se afirma como influência principal, “Wanya” não deixou herdeiros, afirmando-se como um dos raros exemplos de ficção científica na BD nacional, o que torna ainda mais relevante a sua existência.

A edição da Gradiva, cuja capa, bastante mais conseguida do que a da edição original da Assírio & Alvim, recupera um estudo de Nelson Dias, respeita em tudo a primeira edição, inclusive nas gralhas do texto e na diferença de grafia do nome da protagonista, que de Wanya na capa, passa a Vania no interior. O único acrescento são os três prefácios, de interesse variável, que procuram contextualizar a obra para os leitores do Século XXI.

Wanya 2
Mas, se essa preocupação de enquadrar o álbum no contexto da época em que foi criado, é louvável, tão ou mais interessante teria sido publicar num caderno a cores as seis páginas existentes de “Wanya e o Povo dos Espelhos”, a segunda aventura de Wanya que ficou incompleta, Com a excepção do catálogo da segunda Exposição que o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian dedicou à Banda Desenhada portuguesa, essas pranchas permanecem inéditas, pelo que me parece que faria todo o sentido juntar essa história inacabada ao álbum que recupera a missão de Wanya em Orongo para uma nova geração de leitores. E mesmo em termos comerciais, parece-me que a inclusão da aventura inédita e incompleta de Wanya faria todo o sentido, pois seria uma importante mais valia que podia levar alguns dos leitores que já têm a edição da Assírio & Alvim a comprar esta nova edição.

(”Wanya: Escala em Orongo”, de Augusto Mota e Nelson Dias, Gradiva, 72 pags, 15,0 €)
(Blog: http://wanya-escalaemorongo.blogspot.com/)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

O Regresso dos Portugueses IV: As propostas das editoras independentes

Quarta-feira, Dezembro 5th, 2007

Terminando a análise das novidades editoriais “made in Portugal”, lançadas durante o Festival da Amadora, que vieram animar a “reentrée bedéfila” de 2007, o espaço desta semana é destinado aos mais recentes lançamentos das Editoras Kingpin Comics e Pedranocharco, duas pequenas editoras que têm sabido apostar na divulgação dos autores nacionais, dando-lhes oportunidades de publicação.

Super Pig 3
Comecemos pela análise das séries da Kingpin, “Super Pig” e “C.A.O.S.”, que chegam ao terceiro número, precisamente um ano depois de ter saído o primeiro, no Festival da Amadora de 2006, confirmando um ritmo sustentado de publicação pouco habitual em projectos desta natureza.

E, no caso da série “C.A.O.S.”, este terceiro volume é também o último. Série de espionagem cuja acção se inicia em Portugal nos inícios dos anos 80, para terminar 13 anos depois, em Lisboa, com uma passagem pela Rússia de Boris Yeltsin, C.A.O.S., sem nunca chegar a deslumbrar, tem melhorado gradualmente de número para número, tanto em termos do desenho bastante agradável de Filipe Teixeira, como das cores, ainda assim demasiado planas de Carlos Geraldes. E mesmo o argumento, sem primar pela originalidade, vai ganhando em eficácia e fluência narrativa, resultando numa movimentada história de acção que se lê bem, com um ritmo e um aparato nas cenas de tiroteio (dignas de um filme de Hollywood) pouco habituais na BD portuguesa.

Seguindo um princípio vulgar nos comics americanos, um dos personagens da série C.A.O.S., o bem conseguido inspector Franco (uma espécie de cruzamento entre o Comissário Gordon e o Dirty Harry) vai também aparecer no nº 3 das aventuras de Super Pig, onde vai ter um papel importante, numa história que tem por base os jogos de poder na Fundação Calouste Pig, cuja administração o Super Pig acabou de herdar. A grande novidade deste 3º número, para além da cor, é a chegada de um novo desenhador, GEvan, cujo estilo “redondo” se adequa melhor ao universo de Super Pig, do que o desenho de Carlos Pedro (responsável pela arte dos dois primeiros números), que não se adaptava tão bem às personagens humanas como se adapta ao porco playboy. Além da arte digital de GEvan, cujos bonequinhos “cute”, se adoram ou detestam, não deixando ninguém indiferente, este Super Pig nº 3, traz também uma segunda história, que cria uma outra imagem de Super Pig, graças ao desenho de Eduardo Rebelo, um novo autor de grande potencial, com um traço bastante agradável e personalizado (mesmo que se notem influências de Sam Kieth) e um óptimo trabalho de cor.

Sexo, Mentiras e Fotocopias
Já a Pedranocharco, editora responsável pelo BD Jornal, lançou dois títulos de qualidade desigual (e um terceiro, “Formas de Pensar a BD”, de que falaremos brevemente) em que o “Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, ganha claramente face ao “Bang Bang” de Hugo Teixeira. Pré-publicado nas páginas do BD Jornal, “Sexo, Mentiras e Fotocópias” é um divertidíssimo exercício de humor, a partir de uma situação do quotidiano tão banal como kafkiana: um homem entra numa casa de fotocópias para pedir uma folha A3, mas a funcionária não lhe pode dar nem vender a folha, a menos que ele tire uma fotocópia. Tal como os Monty Phyton faziam nos seus scketches, Álvaro também prolonga o gag até ao limite do suportável, mantendo o leitor fixo à espera de uma punch line que tarda a chegar, conseguindo prende-lo às páginas do livro durante mais de 60 páginas. Aproveitando muito bem as potencialidades do seu traço limitado, este é o melhor trabalho de Álvaro, até agora, e a mais divertida BD portuguesa dos últimos anos.

Já o mesmo não se pode dizer de “Bang Bang”, de Hugo Teixeira, autor também habitual no “BD Jornal”, que aqui lança o primeiro capítulo do seu Western Spaguetti espacial, em versão mangá. Para além de não acontecer nada de relevante ao longo das quase quarenta páginas de história do primeiro número (não é por acaso que os mangas japoneses têm geralmente centenas, ou milhares de páginas), o pouco que acontece não ultrapassa os mais batidos clichés do género. Do mesmo modo, o traço ainda incipiente de Hugo Teixeira, que foi buscar à série “Trigun” inspiração para o visual da sua heroína, não se consegue libertar da influência de Totsumo Nihei, o desenhador de “Blame”.

Bang Bang 1
Ninguém põe em causa o mérito do trabalho de divulgação de novos autores levado a cabo por estas duas editoras. Mas se esse esforço é sempre louvável, convém que o trabalho desses autores já tenha um mínimo de maturidade e qualidade que justifique essa divulgação, o que, manifestamente, (ainda) não é o caso de Hugo Teixeira…

(”C.A.O.S. – Livro três” de Fernando Dordio Campos e Filipe Teixeira, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Super Pig” nº 3, de Mário Freitas, GEvan e Eduardo Rebelo, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, Pedranocharco, 78 pags, 7 €

“Bang Bang”, de Hugo Teixeira, Pedranocharco, 68 pags, 7 €)

Artigo escrito por : João Miguel Lameiras

INTERPRETAÇÕES

Segunda-feira, Setembro 24th, 2007

A última edição do Festival de banda desenhada da Amadora voltou a revelar as qualidades fundamentais necessárias a um evento de referência: um espaço com potencial (o Fórum Cultural da Brandoa, apesar de periférico), um tema e material fortes (a BD produzida em locais menos óbvios do mundo), boas exposições laterais (colaborações entre mundos, Filipe Abranches, Decálogo, uma viagem com autores portugueses), um espaço comercial mais digno. Falhou onde tem falhado: o trabalhar total das propostas (uma aposta de risco a nível da exposição principal implicava um comissariado mais cuidado), a divulgação do evento, a vinda desenquadrada de autores, a captação do grande público (limitada à aposta, ganha, do brasileiro Maurício de Souza, autor de Mónica). Mas a Amadora sempre foi um importante pólo editorial, o sítio onde se mostram as novidades de Outono. Nessa perspectiva Tratado de Umbrografia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques (Devir) foi a proposta mais interessante, até por marcar uma mudança no percurso do nosso mais reconhecido autor. Com um universo criativo prolífico e bem marcado, o traço de José Carlos Fernandes começava a parecer algo limitado para dar corpo aos seus argumentos. Ou, melhor, para lhes dar outros corpos. Daí o interesse da colecção BlackBox Stories, na qual pequenos contos entre o fantástico, o melancólico, o cínico e o simbólico de Fernandes serão interpretados por outros desenhadores. Tratado de Umbrografia revela um todo interessante na sua diversidade, sobretudo porque a sensação de familiaridade do texto é corrompida por soluções gráficas que dificilmente se esperariam do argumentista. A escrita telegráfica e o tom de José Carlos Fernandes são reconhecíveis, num meio termo entre histórias breves (como nas Histórias de um minuto de István Órkény) e ideias curtas para histórias, que cabe ao leitor elaborar (como em Centúria de Giorgio Manganelli). Em Fernandes há um núcleo de significados-base que se expandem, e que vão ganhando ambiguidade à medida que conteœdos concretos e simbólicos se interpenetram; e, um pouco à maneira de Sam Shepard, por vezes é difícil saber se a história acaba onde o leitor pensa que acabou (literal e figurativamente).

Tratado de Umbrografia

Nesse sentido Luís Henriques funciona como um privilegiado primeiro leitor, expandindo as ideias de cada narrativa em diferentes sentidos, e dando novas dimensões ao livro, por variar o registo do desenho. O resultado, curiosamente, nem é (bem) banda desenhada, mas contos ilustrados onde o texto penetra o desenho (a ausência de falas ajuda a marcar essa sensação), e nos quais o traço, mais do que se adaptar a cada ambiente narrativo, tenta complementá-lo. Por exemplo, se A feira dos políticos manuseados é uma sátira linear sobre a pequena política, Henriques “responde” com um estilo gongórico feito de colagens, contrastes extremos e pouco espaço livre. Algo que, para além de tocar na essência dos comportamentos caricaturados, complementa um texto, é partida, simples e directo nas suas intenções. Contraste-se esta abordagem com o tom diáfano a sépia e creme de A substância de que são feitos os sonhos e O avanço do deserto. Em ambos os casos pretende-se dar corpo a um tom onírico, embora com intenções muito distintas. Na primeira história (num universo que toca o de Neil Gaiman) o ritmo é o de uma história (falsamente) infantil, em torno de uma criança com o estranho poder de materializar o os sonhos. Ou seja, sobre o poder (e o perigo) do sonho. É essa componente que sugere o traço leve, já que o espaço (quarto e casa do protagonista) é suficientemente identificável. Já em O avanço do deserto quase o mesmo traço parece sumir-se constantemente no fundo claro da página. A história fala de uma cidade estranha e inexoravelmente invadida por areia. Mas o desenho evita em permanência que o leitor se situe, perceba exactamente como é que o deserto está a contaminar a cidade surpreendida, de que tipo de cidade se trata. Onde, para além do espanto, os habitantes reagem com um estranho desprendimento e adaptabilidade; o deserto invasor como metáfora prov‡vel para algo mais do que areia, um pouco à imagem dos ambientes de J. G. Ballard.

Tratado de Umbrografia

Por outro lado, é interessante ver como em Elegia americana, um conto de estradas e motéis (e sonhos) desertos ao ritmo de Sam Shepard, Henriques preenche as páginas, criando um ambiente fechado e opressivo. Nunca deixando a monumentalidade adivinhada da paisagem respirar; apenas espreitar, envergonhada, no fundo desfocado de vinhetas. Mas este não é um conto de grandes espaços, mas de grandes ambições, que acabam por encolher o espaço, transformando-o numa caricatura de si mesmo. Prolongando a reflexão sobre o que é a Arte feita em A œltima obra prima de Aaron Slobodj, a história sobre alguém que descobre a originalidade de encenar animais atropelados (”road-kill”) enquanto arte é (mais) uma metáfora sobre pequenas mentes presas em grandes filosofias. Apenas, não por acaso, passada em grandes espaços. E por isso parece apropriado que Henriques os encolha. Já em Zuma, o tatuador a alegoria é antropológico-cultural. Um velho artista usa símbolos da sua cultura quase desaparecida para decorar peles jovens que apenas desejam moda. Só que, em noites de lua cheia, as tatuagens possuem os corpos, os símbolos tornam-se literais, o colonizador passa a (simbólico) colonizado. O desenho rendilhado mostra a loucura na interpenetração de mundos, enquanto o (ab)uso da cor vermelha é talvez uma maneira demasiado óbvia para marcar o regresso a um estado primordial (”selvagem”?) que as tatuagens de Zuma induzem sob o luar. Há uma relação entre esta história e o conto que dá nome à colectânea, embora Tratado de umbrografia seja mais ambicioso; um romance entre contos. Ou melhor, notas para um potencial romance sobre o estudo das sombras ao longo dos tempos, e do poder que delas se pode retirar. O ritmo apocrifo-enciclopédico cita abertamente Borges e Bioy Casares, e o desenho oscila de acordo com o momento narrativo, ajudando, logo aí, a criar a ideia de que esta é uma narrativa mais complexa, mas, por oposição, retirando alguma unidade patente nos outros contos. O conceito-base (as sombras, o oculto) não se compadece com um desenho revelador, e esta é uma história sob semi-penumbra permanente. Mas há diferenças no uso caricatural de referências arqueológicas, no misticismo em negativo dos índios norte-americanos, na inquietação que transparece das estranhas experiências para dissociar o corpo da sombra, ou das actividades misteriosas da Seita da Linha da Sombra. Fica, no entanto, a sensação de que faltou algo que garantisse a Tratado de Umbrografia (a história) a mesma ambição de Tratado de Umbrografia (a colectânea). Esta última vibra na história mais falsamente simples de todo o conjunto, a sœmula de inquietações que é O avanço do deserto.

Tratado de Umbrografia. Argumento de José Carlos Fernandes, desenhos de Luís Henriques. Devir 72 pp., 17 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Alternativas

Terça-feira, Setembro 18th, 2007

Face ao estado actual do mercado nacional de Banda Desenhada torna-se cada vez mais difícil para os autores portugueses conseguiram ver os seus trabalhos publicados pelas editoras nacionais e distribuídos nas Livrarias. A alternativa passa pela auto-edição, ou pelo recurso a editoras independentes com circuitos de distribuição alternativos, que permitam chegar a um público bem mais seleccionado do que o das livrarias tradicionais, mas ainda assim relativamente alargado. A impressão digital e o “print on demand” têm sido a solução encontrada por alguns autores, mas no caso dos dois livros que motivam este texto, a opção foi pela impressão tradicional e por uma tiragem, realisticamente ambiciosa, de 500 exemplares.

Mas além da tiragem, de estas edições estarem à venda em Coimbra na Livraria Dr. Kartoon e dos seus autores virem do mundo dos fanzines (Teresa C. Pestana do “Gambuzine” e José Feitor do saudoso “Zundap”) “Postais de Viagem”, de Teresa Câmara Pestana e “Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques têm outros pontos em comum. Desde logo, o facto de não serem dois livros de Banda Desenhada em sentido tradicional, mas antes mais próximos do livro ilustrado. Obras que articulam texto (muito mais sintético em “Babinski”) e imagem, de uma forma que vem de encontro à descrição que Rodolphe Topfer (pintor e ilustrador suíço do século XIX, considerado como o “inventor” da Banda Desenhada) fez do seu trabalho ao seu amigo Goethe, dizendo-lhe que: “O conjunto dos dois [texto e imagem] forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa.

Postais de Viagem

Mas falemos então de cada um dos livros, começando por “Postais de Viagem” que, como a autora refere no site do Gambuzine: “teve a sua raiz num ensaio excessivamente longo sobre o vodu, resultante da minha estadia na costa oeste africana; como não lhe queria acentuar o lado descritivo, ilustrei-o, reduzi o texto ao mínimo, embuti-lhe uma narração assim surge “postais de viagem”. O ensaio era de 92, em 2002 passou a ter postais ,e depois esperou 5 anos pelo seu momento, um pouco tarde, mas não tarde demais”.

O livro de Teresa C. Pestana inicia-se quase como um policial, com a narradora/autora a partir para o Togo em busca de uma amiga desaparecida, mas essa intriga cedo ganha um papel secundário face ao relato, numa perspectiva mais antropológica, da relação dos africanos com a magia, através dos rituais do vodu, visto por uma ocidental que, embora procurando integrar-se, será sempre uma estrangeira. E se o texto consegue transmitir muita informação de forma acessível e interessante, as ilustrações, em que o grafismo sombrio e falsamente naif de Teresa C. Pestana se aproxima da arte africana, criam um curioso diálogo com o texto, resultando num produto final à altura das ambições da autora e do tempo que levou a desenvolver este projecto.
Quanto a “Babinski”, o ponto de partida deste belo livro num formato italiano pouco habitual, é uma história dentro da história do livro “Der Golem” de Gustav Meyrink, um clássico da literatura fantástica que cristaliza uma das mais interessantes personagens da mitologia hebraica. Em vez do golem e do rabi que o criou a partir do barro, José Feitor escolheu contar a história de Babinski, o salteador de Praga, que depois de escapar à morte quando a corda com que ia ser enforcado se partiu, decide mudar radicalmente de vida. É essa história de crime, castigo e redenção, que José Feitor conta em frases muito curtas e neutras, que as ilustrações barrocas de Luís Henriques confrontam, ironizam e reinterpretam com o talento que se lhe reconhece, usando o texto como ponto de partida para uma série de imagens capazes de gerar só por si outras histórias. Veja-se o caso da biblioteca em que os livros gigantes formam colinas e montanhas onde crescem árvores e se passeiam animais, que podia ter saído de um conto de Borges.

Babinski

Depois da estreia fulgurante com o “Tratado de Umbrografia”, primeiro volume da série “Black Box Stories” (ver “Diário As Beiras” de 16/12/2006), Luís Henriques dá mais uma vez provas do seu grande talento gráfico, através de umas boas dezenas de ilustrações feitas com uma técnica de “hachures” que a aproxima da gravura, e onde não faltam referências e piscadelas de olho em termos de História da Arte, que vão de Piranesi e Piero de la Francesca, passando por Doré e Francis Masse. E, curiosamente, tratando-se de uma obra que está muito mais próxima do livro ilustrado do que propriamente da banda desenhada, Henriques vai utilizar elementos característicos da BD, como os balões, ou a divisão da ilustração em vários quadrados, na sequência da prisão que escolhi para ilustrar este texto.
Resta esperar que estes dois trabalhos, tão diferentes entre si, apesar dos vários pontos de contacto e da vontade comum de chegar aos leitores interessados, encontrem o seu público.

(“Postais de Viagem”, de Teresa C. Pestana, Ed. de Autor, 56 pags, 10,0 €
“Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques, Imprensa Canalha, 80 pags, 14,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras