Archive for the ‘BD Franco-Belga’ Category

Hermann em Afrika

Sexta-feira, Janeiro 4th, 2008

Um dos mais prolíficos autores europeus de Banda Desenhada, Hermann é também um dos raros autores cuja vastíssima produção o público português tem podido acompanhar com regularidade, graças ao esforço da Editora Vitamina BD que continua a apostar em força no excelente desenhador belga, de quem já publicou catorze álbuns, entre volumes das séries “Jeremiah” e “A Herança de Bois-Maury” e histórias auto-conclusivas.

“Afrika”, o décimo quinto álbum de Hermann editado pela Vitamina BD, que a editora lançou em fins de Dezembro, deixa perceber a razão desta firme aposta naquele que é um dos melhores desenhadores realistas da actualidade e cada vez mais um extraordinário colorista, qualidades que, neste caso, Hermann coloca ao serviço de uma das suas melhores histórias dos últimos tempos, uns bons furos acima dos argumentos que o seu filho lhe tem escrito, ou dos seus próprios guiões para a série “Jeremiah”. 

Afrika
Como o próprio título indica, “Afrika” tem por cenário o continente africano, local a que Hermann regressa 16 anos depois de “Missié Vandisandi”, trocando o turista europeu do álbum de 91, que chega a África pela primeira vez, por um veterano do continente africano, incapaz de viver na Europa para onde Karl Vandesande regressa no fim do álbum. Em “Afrika”, o protagonista, que nos guia através da história é Dário Ferrer, um ex-militar das forças especiais, que abandonou o exército para se tornar guarda florestal, responsável pela segurança de uma reserva florestal na África equatorial e que ao acompanhar Charlotte, uma jornalista que pretendia fazer uma reportagem sobre os caçadores furtivos, é testemunha acidental de um massacre das tropas governamentais sobre uma aldeia de rebeldes. O que os transforma, a ele e à jornalista que o acompanha, em testemunhas incómodas que é preciso eliminar, obrigando-os a fugir por uma selva inóspita, mas onde a fera mais perigosa continua a ser o homem. 

Sombrio e taciturno, com um respeito incomparavelmente maior pela terra e pelos animais de África, do que pelas gentes que habitam o continente, Dário Ferrer, o herói de “Afrika” tem grandes pontos de contacto com o seu criador, com quem partilha um grande desencanto em relação à humanidade em geral. Neste relato seco e sem concessões, Hermann nunca cede à tentação de “dourar a pílula”, numa história contada com o rigor de um metrónomo, em que nada é supérfluo. Veja-se a forma como são retratados os políticos, tanto africanos como europeus, ou mesmo Iseko, a companheira negra de Ferrer, que acaba por ceder aos avanços do seu seboso vizinho, perante a promessa deste a tirar de África e levá-la a conhecer a Europa.

Afrika
Outro aspecto em que Hermann não cede às convenções do “happy end” hollywoodiano é no retrato da relação entre Dário e Charlotte, cujo esperado  envolvimento romântico nunca se chega a concretizar, ou no final elíptico, em que Dário se suicida fazendo justiça, ao destruir com uma avioneta carregada de explosivos a sede na Tasmania da empresa multinacional que ajudou a abafar o massacre, numa cena que nunca nos é mostrada.

Em termos gráficos, pouco há a dizer sobre Hermann que não tenha já sido dito. Senhor de um virtuosismo impressionante, tanto no traço, no dinamismo da planificação, como na aplicação da cor directa, Herman supera-se aqui nas cenas com os animais, como podemos ver na sequência que escolhi para ilustrar este artigo, em que um leopardo caça um antílope.

Prestes a completar 70 anos, Herman tem sabido envelhecer como um bom vinho, refinando as suas qualidades. Qualidades essas bem patentes neste seu regresso a África, com “Afrika”, uma das melhores colheitas Hermann
dos últimos anos.

(“Afrika”, de Hermann, Vitamina BD, 56 pags, 13,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Os melhores de 2007 - Parte I

Sábado, Dezembro 29th, 2007

Estamos em época de balanço do ano que está a terminar e como é comum nesta altura chegam os tops disto e daquilo. A Livraria Dr. Kartoon também adere e elege os melhores de 2007. João Miguel Lameiras é o primeiro a deixar aqui a sua lista dos dez melhores livros lidos em 2007.

01. Alice in Sunderland, de Bryan Talbot
02. Fun Home, de Allison Bechdel
03. Monster, de Naoki Urusawa
04. Captain America, de Ed Brubaker
05. Zoo, de Frank Bonifay
06. Capote in Kansas, de Ande Parks
07. The Complete Peanuts, de Charles M. Shultz
08. The Waliking Dead, de Robert Kirkman
09. Ou le regard ne porte pas, de George Abolin
10. Muchacho, de Lepage

Vazio

Segunda-feira, Setembro 10th, 2007

É com curiosidade que se lê em obras com o potencial de cruzar abordagens, com a esperança de que novas iluminações para uma leitura surjam da junção de conhecimentos. A questão é quando a proposta em causa realiza uma junção de desconhecimentos, ou quando o ponto de partida é demasiado frágil. Se o autor aposta numa fuga para a frente, e o trabalho acaba por dizer mais sobre o autor e o sistema em que produziu a sua análise, do que sobre a obra analisada, o resultado é pior do que meramente medíocre. E a resposta do leitor tende a ser a pena sobre o tempo desperdiçado, não necessariamente a partilha da desilusão, até por se saber que o que se iria afirmar não é simpático. Cria-se assim uma conspiração de silêncio, deixando ao autor a liberdade para divulgar o seu (des)conhecimento. Vem isto a propósito de A invisibilidade do gênero feminino em Tintin, um tese de Mestrado da autoria de Ana Bravo, agora editada em forma de livro. Com o subtítulo, precisamente, de A conspiração do silêncio.

A invisibilidade do género feminino em Tintin

Note-se que o tema é interessante, até pela dimensão masculina historicamente associada à banda desenhada. Cruzando a perspectiva feminista com um ícone da BD a intenção da autora é “provar” a misoginia de Hergé, por este remeter para a invisibilidade mais de metade de um universo ficcional em potência, ao não utilizar (com uma excepção) personagens femininas marcantes. É uma premissa com os mesmos fundamentos, por exemplo, de esforços contemporâneos para reavaliar a participação das mulheres em processos sociológicos e eventos históricos, muitas vezes subalternizada por historiadores (maioritariamente) masculinos. Mas uma coisa é História (ou seja, um todo real), outra é ficção (ou seja, uma representação parcial e figurada). Logo à partida deparamo-nos com dois problemas. Um relaciona-se com o facto de tudo o que ficou dito acima quanto a Hergé e à sua obra não ser novo. Por outro lado, se se quiser discutir (por exemplo) a eventual misoginia em Alfred Hitchcock, há algum material para análise, desde as sevícias impostas ás protagonistas dos seus filmes (The Birds, Psycho, Vertigo…), aos relatos das actrizes que as encarnaram. Em Tintin não há nada equivalente. Como discutir personagens que o autor escolheu não criar? Desde logo a autora arrisca discursar sobre o vazio. Até podia ser uma atitude corajosa mas, como é óbvio, torna-se necessário encontrar outro tipo de assunto, nomeadamente com introduções sobre a banda desenhada, sobre estudos sobre as mulheres e (os chamados) estudos de género, e sobre o próprio Hergé. Em todas notam-se os mesmos problemas formais e de estilo. O texto é, em geral, fragmentado, confuso e pouco focado, com avanços e recuos constantes em termos temporais e de tópicos, provavelmente por tentar resumir demasiados assuntos, não o fazendo bem ou de forma homogénea. Nalguns locais faltam citações, noutros s‹o em demasia e há muitas fontes indirectas. Por outro lado, para esta obra talvez bastasse uma Introdução a Tintin e Hergé. Mas, uma vez que Ana Bravo escolheu falar também da BD como um todo, tinha de ter dispendido um esforço maior do que o resultado indigente dessa parte deixa transparecer, e onde são óbvias (más) leituras em segunda mão. Enki Bilal não é certamente obcecado pelo preto e branco e pela Primeira Grande Guerra (esse é Jacques Tardi), nem Alex Raymond terá sido inspirado por uma personagem (Vampirella) criada após a sua morte (apenas dois exemplos mais caricatos, entre muitos). Picuinhices? E alguém que, escrevendo sobre cinema, trocasse a perspectiva de John Ford pela de Douglas Sirk? Se se escreve sobre o que quer que seja de um ponto de vista que se quer académico, científico e sério, é preciso sê-lo. Mesmo na introdução mais focada à obra e autor em análise os desconhecimentos são evidentes. E é importante notar que as dificuldades de relação de Hergé com as mulheres (e consigo próprio), as relações de trabalho nos Estúdios Hergé, ou, mais uma vez, a ausência de personagens femininas na sua obra, não são propriamente novidade. A excepção a essa “invisibilidade” é a cantora de ópera Bianca Castafiore, uma óbvia caricatura de diva. Como Tournesol é uma caricatura de cientista, ou os Dupondt da polícia. Na verdade, todas as personagens interessantes de Tintin têm uma dimensão caricatural. Menos o próprio, espécie de andrógino em branco no qual o leitor se pode espelhar, e que não é por isso, e por si só, muito interessante (e esta perspectiva também não é original).

A invisibilidade do gênero feminino em Tintin

Fica por explicar como é que um livro com estas características chega às 300 páginas. Fá-lo com aquela que é, de facto, a sua “novidade”: catalogando todas as presenças femininas nos álbuns de Tintin, ou seja tomando nota de TODAS as mulheres que aparecem, do local no livro onde surgem, do contexto da acção, do seu aspecto, etc. é um exercício de “uber”-quantificação ridículo (equivalente a descrever num romance todas as situações em que aparece uma dada palavra), que, mesmo considerando as intenções da autora, nada acrescenta à quantificação das presenças femininas em percentagem de vinhetas de cada álbum (equivalente a descrever num romance as vezes em que uma dada palavra tem uma certa conotação). Nem todo o material preparatório de uma Tese é publicável neste formato, e, mais uma vez, faltou cuidado editorial.

Em conclusão: era interessante Ana Bravo ter usado as mesmas ferramentas analíticas para se debruçar a fundo, por exemplo, sobre a representação da mulher na BD francófona contemporânea a Tintin (algo que menciona apenas de passagem). Ou na evolução dessa representação ao longo do tempo. Ou em alterações equivalentes na BD de superheróis. Ou na representação feminina em revistas como o Camarada ou o Cavaleiro Andante. No caso da BD americana até há pontos de partida interessantes, como o trabalho de Trina Robbins. Daria era muito mais trabalho do que analisar apenas uma obra que, numa pesquisa mais abrangente sobre esta perspectiva, mereceria apenas umas páginas. Essa alternativa teria, no entanto, menos impacto. Porque este livro teve, e terá, impacto. Como teria impacto, e com o devido respeito, uma colectânea de eventuais listas de compras de Hergé, e do que poderiam revelar sobre a sua personalidade… No mundo francófono (e, pelos vistos, não só) há um fascínio permanente com Hergé e Tintin, um homem “ilegível”, autor de uma obra de extrema legibilidade. Um fascínio “tintinólogo” a roçar o culto, de tal modo que qualquer abordagem, quaisquer que sejam as limitações, motiva interesse. é de certo modo irónico que seja esse interesse por Hergé, cultivado sobretudo por quem conhece a fundo a obra, a gerar, indirectamente, livros como este.

(A invisibilidade do género feminino em Tintin. A conspiraçã‹o do silêncio. Ana Bravo. Chronos Editora, 381 pp., 20,95 Euros.)

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Asterix vezes 6

Segunda-feira, Setembro 10th, 2007

De uma assentada, as Edições Asa acabam de lançar nas livrarias mais seis álbuns da série “Asterix”, concluindo assim a primeira edição com chancela desta editora do grande clássico da BD europeia, criado por Uderzo e Gascinny. E pode dizer-se que a reedição encerra com chave de ouro, pois os títulos agora editados estão entre os melhores da série, mostrando dois criadores no auge das suas faculdades e em perfeita e absoluta sintonia.

Astérix: O domínio dos Deuses

Clássico incontornável da BD franco-belga e uma das séries mais populares de todos os tempos, as aventuras do pequeno gaulês nascido em 1969, nas páginas da revista “Pilote” continuam a cativar os leitores de todo o mundo, mesmo que a série tenha perdido muito da sua magia, com a morte do argumentista, Renê Goscinny, em 1977. Mas se o desaparecimento de Goscinny afectou, e muito, a qualidade das histórias, agora escritas e desenhadas por Uderzo, o mesmo não se passou a nível comercial, com Uderzo a revelar-se um hábil gestor da imagem e popularidade do pequeno herói gaulês. E a verdade é que, de uma excelente Banda Desenhada, passível de diversos níveis de leitura, Astérix tornou-se actualmente numa gigantesca máquina comercial a que falta alma, ultimamente alimentada por trabalhos francamente maus, como o inenarrável “O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça”…

Também por isso, é um prazer descobrir (ou redescobrir) títulos como “Asterix na Córsega”(talvez o meu álbum favorito de toda a série), Astérix Legionário”, “O Domínio dos Deuses”, ou “Óbelix & Companhia”. Obras clássicas em que o traço inconfundível de Uderzo está ao serviço de uma história interessante e bem contada, repleta de gags divertidíssimos e trocadilhos deliciosos, muitos deles, infelizmente, praticamente intraduzíveis.

O que nos leva justamente ao aspecto distintivo desta edição da Asa, em relação à anterior da Meribérica, e que é a nova tradução. Uma diferente e discutível tradução, que pretende fazer melhor justiça aos frequentes trocadilhos em que Goscinny era pródigo, mas que não é isenta de polémica ao alterar os nomes das personagens que conhecemos desde sempre, como o bardo Assurancetourix que se passa a chamar Cacofonix, ou Abraracourcix, o chefe da Aldeia, que se transformou em Matasetix na nova versão das Edições Asa.

Astérix: Obelix e Companhia

O argumento, apresentado pela responsável editorial da Asa, de que a maioria dos nomes das personagens não faz sentido em português, sendo por isso arranjar uma alternativa que faça sentido na nossa língua, não deixa de ser legítimo. Mas a verdade é que, para quem, como eu, se habituou aos nomes originais das personagens, o aportuguesamento dos nomes ainda causa uma (desagradável) estranheza.

Mas isso é um pormenor, que não nos deve fazer esquecer o dado mais importante. E esse dado é o facto da totalidade da série estar novamente disponível em português, para que as novas gerações de leitores, traumatizadas com os títulos mais recentes, possam descobrir o verdadeiro “Asterix” nas suas melhores e mais divertidas aventuras.

(“Astérix: Os Louros de César”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Legionário”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Domínio dos Deuses”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
“Astérix: O Presente de César”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
(“Astérix: Na Córsega”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €
(“Astérix: Obelix e Companhia”, de Uderzo e Goscinny, Edições Asa, 48 pags, 12,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Quadro

Quarta-feira, Setembro 5th, 2007

Nos EUA a banda desenhada popularizou-se nos inícios do século XX muito a par do cinema, enquanto entretenimento barato de massas, incluindo as massas de imigrantes pouco familiares com a l’ngua inglesa. Desde essa altura a relação entre ambos, mantendo-se clara, tornou-se algo unívoca. O facto de uma obra em BD fazer apelo a elementos cinéfilos é visto como um sinal positivo, uma vontade de validação; o recíproco num filme é tomado como sinal de menoridade, ou, na melhor das hipóteses, como pontuação irónica. Com a pintura a relação é uma pouco a mesma, mas bastante anterior. Também neste caso o uso de linguagem aparentada com a da banda desenhada tinha uma conotação menor, como o uso de estampas para transmitir mensagens simples (e “morais”) a uma população maioritariamente analfabeta. Nessa perspectiva é interessante tentar estabelecer um paralelo com alguma pintura clássica, considerando que as obras não são meros registos fotográficos de momento, mas consistem muitas vezes em narrativas mais ou menos complexas, retratos comentados de um mundo escondidos numa só representação pictórica. Será que se poderia “expandir” narrativamente um quadro? Especificar a história possivelmente escondida na imagem? É um “high-concept” curioso, levado a cabo, por exemplo, com Rapariga com brinco de pérola de Vermeer. E que Yves H. desenvolve em Dulle Griet, um argumento para o seu pai Hermann Huppen, a partir do quadro homónimo de Pieter Brueghel o Velho (1562).

Dulle Griet

Tal como a sua referência tutelar Hieronymus Bosch, parte da obra de Brueghel vai beber ás tradições de um fantástico que cruza a mitologia católica com elementos pagãos, gerando imagens onde real e surreal se interpenetram. Dulle Griet retrata uma cidade esventrada e saqueada, a arder em caos. Grupos de mulheres, soldados e criaturas demon’acas debatem-se nas ruas, enquanto novos seres nascem de ovos gigantescos, outros divertem-se no meio da confus‹o, e uma torre metamorfoseia-se numa espécie de Porta do Inferno, onde se perdem os danados. A figura central é uma mulher armada, correndo com ar esgazeado, e carregando o seu quinhão do saque. Trata-se também de uma figura da mitologia popular flamenga, Dulle Griet, a Guida Doida, capaz de lutar mesmo ás portas do Inferno. Só que as suas motivações permanecem misteriosas. Que emoções a guiam? Como chegou ali? Luta ou foge? A atitude representa rebeldia, cobiça ou “simples” loucura?

Nesta homenagem/construção em BD Yves H. escolhe a opção mais simples, o amor louco, Dulle Griet enquanto personagem secundária, serva de um demónio com forma humana. é o elo mais ténue da história, a par da ligação forçada ao trabalho anterior de Hermann na série As Torres de Bois-Maury. E a opção não era inevitável: Dulle Griet teria sido, por exemplo, um dos muitos modelos supostamente usados por Bertold Brecht para Mãe Coragem. Mas Yves H. decidiu resumir a protagonista, olhar para além dela, e fixar-se no ambiente do quadro. Ao analisar as estranhas paisagens, possess›es demoníacas e o castigo dos danados de Brueghel é tentador revisitar as grandes lutas político-religiosas da Reforma, a cisão entre o Vaticano e os seguidores de Lutero que, se reflecte também (ou sobretudo) uma vontade de independência, gerou traumas que ainda hoje ensombram a antiga Flandres.

Dulle Griet

De resto Brueghel era um comentador social muito crítico da época, e o fantástico nas suas obras pode ser visto como uma espécie de alucinação colectiva e metafórica dos tempos. Após rapidamente definir Griet, é esta tensão que Yves H. trabalha num interessante registo semi-teatral de tragédia shakespeareana (que a tradução muitas vezes trai); tendo o cuidado de representar a Grande Política através das contradições de anónimos cidadãos comuns, uma característica habitual nos trabalhos de seu pai. Em Dulle Griet Hermann, um dos mais belos desenhadores do feio, foge do vermelho-trágico que marca o quadro original, centrando-se no ambiente soturno do lusco-fusco que o precede, usando pequenas matizes de verde azulado para acentuar o cinzento. Mesmo a apoteose final, com Griet e a cidade fixando-se nas poses que os perpetuariam, é bastante comedida, mesmo ao nível da planifição, sóbria e profundamente “legível”. Ficaria a cargo de Mestre Brueghel, que Yves H. coloca como testemunha semi-anónima da história, a mitificação posterior. E, se metade do leitor gostaria de ver algo mais de explos‹o bruegheliana na arte de Hermann, a outra metade elogia o recato gráfico. Na verdade, fica a sensação de que o concretizar do fantástico nas figuras do Homem-Diabo e nas criaturas por si invocadas enfraquece um pouco a história. é a diferença entre considerar literalmente os ambientes de Brueghel, e lê-los como metáfora para algo mais. Nessa perspectiva, e apesar da sua eficácia, teria sido interessante ver este Dulle Griet sem a “muleta” do fantástico literal.

Em suma, há sempre um problema muito simples e óbvio com uma ideia como o a que esteve subjacente a esta obra. O risco de que a nova interpretação seja menos interessante do que o original, na medida em que tem de concretizar o que apenas estava sugerido.

Dulle Griet. Argumento de Yves H., desenhos de Hermann. Vitamina BD, 48 pp., 12,50 Euros

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Dois Franceses no Quebeque

Terça-feira, Agosto 7th, 2007

Uma das principais diferenças entre a Banda desenhada franco-belga e os comics americanos, reside na forma diversa como os desenhadores trabalham. Nos comics das grandes editoras o mais habitual é haver uma clara separação de tarefas, com um argumentista, um desenhador para o lápis e outro para a arte-final (passagem a tinta), um colorista, um responsável pela legendagem, muitas vezes com cada um numa cidade diferente, cabendo ao editor coordenar toda essa gente. Já na BD franco belga, a regra é ser o desenhador a assegurar o desenho a lápis, a passagem a tinta e muitas vezes a cor, quando não escreve também o argumento…

Claro que, para cada regra há sempre excepções. Basta pensar num americano como Frank Miller, que escreve, desenha e legenda as suas histórias de “Sin City”, ou nos europeus Hergé e Hugo Pratt, que tinham assistentes que asseguravam as partes mais morosas do desenho, como os cenários, ou as máquinas.

Armazém Central: Marie

Esta (longa) introdução vem a propósito de “Armazém Central”, uma trilogia que reúne dois veteranos da BD francesa, Loisel e Tripp, numa colaboração “à americana”, de que as Edições Asa lançaram há poucos meses o primeiro volume, “Marie”. Se Loisel dispensa apresentações para os leitores portugueses que acompanharam o seu trabalho em “Peter Pan” e “Em Busca do Pássaro do Tempo”,  já Tripp, apesar de uma carreira de quase 30 anos é praticamente desconhecido em Portugal, onde nunca foi publicado.

Na origem desta colaboração em moldes poucos habituais para a BD franco-belga, está o facto dos dois autores partilharem o mesmo atellier em Montreal, no Canadá, o que lhes permitiu descobrir que eram complementares, ou nas palavras de Tripp, que “um desenhador virtual, que fosse uma mistura dos dois, desenharia com muito mais prazer, sem esforço”. Com efeito, Loisel adora o desenho a lápis e aborrece-se mortalmente na fase de passar a tinta, enquanto que Tripp é exactamente ao contrário e, ao conseguirem que cada um faça apenas aquilo que mais gosta, conseguem produzir a um ritmo nada habitual no mercado francês, de tal modo que em pouco mais de um ano já foram publicados os dois primeiros álbuns desta trilogia passada em Notre-Dame-des-Lacs, uma aldeia perdida no Quebeque dos anos 20 do século XX.

Mas, passada a curiosidade de vermos dois autores franceses consagrados a trabalharem nestes moldes, falemos do resultado final patente neste primeiro volume de “Armazém Central”. Loisel, numa entrevista à revista “Bo Doi” define a história como “uma comédia à Frank Cappra (…) com um ambiente próximo das pinturas de Norman Rockwell”. E, se e termos de ambiente a coisa funciona muito bem, com os autores a traçarem um bem conseguido retrato nostálgico da vida no campo nessa época, a verdade é que, apesar das 76 páginas deste primeiro volume, a história pouco ou nada avança.

Armazém Central: Marie

Sabemos que a jovem viúva Marie Ducharme vai tomar conta sozinha do Armazém Central que era do seu marido, com cujo funeral se inicia a acção, e ficámos a conhecer algumas das maias pitorescas personagens da aldeia, mas pouco mais acontece de relevante neste álbum, com os autores a concentrarem-se sobretudo na descrição do ambiente campestre, e no dia a dia da comunidade de Notre-Dame-des-Lacs, gastando 5 ou 6 páginas com um baile que descamba em cena de pancadaria, e outras tantas páginas com as brincadeiras perigosas dos garotos da aldeia com um bode…

Vamos esperar que no próximo volume, já publicado em França, a intriga evolua, para que “Armazém Central” possa enfim atingir níveis próximos dos anteriores trabalhos de Loisel.

(”Armazém Central 1: Marie”, de Loisel e Tripp, Edições Asa, 80 pags, 14 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Cyann regressa a casa

Quarta-feira, Agosto 1st, 2007

Com uma ligeira “decalage” de dois meses em relação à edição original francesa, as Edições Asa acabam de publicar “As Cores de Marcade”, quarto volume de “O Ciclo de Cyann”, série de ficção científica com a assinatura inconfundível de François Bourgeon.

Nascido em Paris em 1945, Bourgeon adquiriu merecida fama no mundo da Banda Desenhada graças às séries “Os Passageiros do Vento” e “Os Companheiros do Crepúsculo”, ambas já publicadas em Portugal pela Meribérica. Duas séries de temática histórica que, além do grande rigor histórico e de um domínio perfeito da técnica narrativa, revelavam um desenho de grande sensualidade e realismo e um grande cuidado na construção das personagens, especialmente femininas.

Quando o autor decidiu abandonar a BD de temática histórica para se lançar no campo traiçoeiro, mas pleno de potencialidades, da Ficção Cientifica, com “O ciclo de Cyann” assumiu um grande desafio, que ainda não conseguiu vencer totalmente. Como não é fácil criar, a partir do nada, um universo complexo e coerente, Bourgeon solicitou o apoio de Claude Lacroix, especialista em universos paradoxais e narrativas de ficção cientifica, para juntos criarem o mundo de Cyann.

Ciclo de Cyann - tomo 4

A colaboração da dupla resultou num processo complexo e demorado, com uma primeira fase, em que Bourgeon se ocupou da criação do vestuário, dos personagens e dos aspectos tecnológicos, enquanto Lacroix criou os ambientes em que decorre a história, incluindo a fauna, flora e geografia dos vários planetas. A partir dai, Bourgeon encarregou-se da planificação, diálogos, desenhos e cor, da história concebida por ambos.

Só que o resultado final, os álbuns propriamente ditos, não tem conseguido estar à altura das ambições da dupla, nem no esforço investido na sua concretização… Talvez porque, em se tratando de um universo novo, no qual o leitor ainda não entrou completamente, falta-lhe todo um sistema de referências habitual, o que dificulta a sua adesão imediata a uma série indiscutivelmente bem feita, mas a que falta o golpe de génio a que Bourgeon nos habituou.

Depois de uma paragem de quase uma década entre o segundo e o terceiro volumes, motivada por complexas disputas judiciais entre os autores e a editora Casterman, a série mudou de editora e regressou em 2005 com “Aieia de Aldaal” (ver “Diário As Beiras”de 25/02/2006), um álbum de transição, que pouco adianta em termos de evolução da história que, sabemo-lo agora, está prevista para cinco volumes.

Em “As Cores de Marcade”, publicado menos de dois anos depois do álbum anterior, há uma evidente preocupação de recuperar o tempo perdido e fazer avançar a história, com resultados que, não sendo entusiasmantes, são claramente superiores aos conseguidos com “Aieia de Aldaal”.

Ciclo de Cyann - tomo 4

Não só o mundo de Marcade, em que a simples troca de palavras entre duas pessoas implica uma transacção comercial e um elaborado código de cores permite saber a capacidade económica de cada um, é muito mais interessante do que o planeta Aldaal do álbum anterior, como ainda por cima, a história avança com outra rapidez. Cyann consegue finalmente regressar a Olh para ser confrontada com um paradigma da literatura de ficção científica: quando se viaja no espaço o tempo passa mais lentamente para nós. Assim, a nossa (não muito simpática) heroina descobre que foi dada como morta e a sua linhagem considerada como extinta e que a sua amiga Nacara, agora uma velha, ocupou o seu lugar.

A evolução de Cyann, da adolescente mimada do primeiro álbum para a mulher amadurecida pelas dificuldades da vida, conclui-se no quinto volume, ultimo da série. Mas para o ler ainda vamos ter que esperar alguns anos, pois o próprio Bourgeon disse, numa entrevista à revista Bo Doi que só voltará a Cyann depois de acabar o álbum a solo em que trabalha agora, em que volta a abordar uma época histórica concreta.

Esperemos que o aguardado regresso ao passado de François Bourgeon signifique também o regresso aos tempos gloriosos de “Os Passageiros do Vento” e dos “Companheiros do Crepúsculo”, verdadeiras obras-primas que ajudaram a cimentar o seu estatuto como um nome maior da BD europeia.

(O Ciclo de Cyann 4: As Cores de Marcade”, de François Bourgeon e Claude Lacroix, Edições Asa, 72 pags, 15,75 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras
(publicado originalmente em 28/07/2007)

Olhares

Quarta-feira, Julho 11th, 2007

Como é que se vê , se interpreta, se sente, o Outro? Um problema para a Antropologia, Sociologia, Psicologia, não tanto para a banda desenhada, dir-se-á. Mas como elemento narrativo (e, consequentemente, como ferramenta posterior de análise) poucos serão mais estimulantes; logo arriscados. Duas propostas díspares de autores francófonos demonstram isso mesmo. Em ambas há um certo tipo de olhar sobre o Terceiro Mundo, uma espécie de Antropologia de intervenção em BD, focada sobre a Nicarágua somozista ou o Brasil dos meninos de rua. Desse ponto de vista são obras muito interessantes, num mercado minguante.

Muchacho - Tomo 1

Trabalho em dois volumes Muchacho (ASA) é um projecto de Emmanuel Lepage, autor cujo talento gráfico era notório num excelente livro que passou quase despercebido, Terra Sem Mal (argumento de Anne Sibran, edição VitaminaBD). Aqui volta a juntar a luxúria dos espaços com a delicadeza das figuras humanas, um traço “bonito” que torna o contraste com a dureza do relato tanto mais vibrante. Muchacho resulta de um trabalho preparatório patente, não só na pesquisa histórica, mas na caracterização de personagens e situações. No primeiro caso há a tentativa clara de evitar que o leitor tipifique de imediato os intervenientes. O problema é que todos têm elementos facilmente reconhecíveis, ou seja, disfarçar esteriótipos parece mais viável do que evitá-los logo à partida. No segundo, o retrato político da Nicarágua não é, pelo menos neste primeiro volume, forçado e pedagógico, surge com o desenrolar da narrativa, com a história e sobretudo com a evolução do protagonista, com a sua capacidade para interpretar aquilo que o rodeia.

Com um nome profético, parte do percurso de Gabriel adivinha-se nas suas origens. Jovem filho de proprietários ligados à ditadura, a sensibilidade artística (e a sexualidade) tê-lo-á levado ao desterro familiar, primeiro no Seminário, mais tarde numa paróquia perdida na selva. Onde toma contacto com os efeitos práticos da ditadura de Somoza, com a influência dos EUA no regime, com a Teologia da Libertação, com a guerrilha Sandinista. Aspectos a trabalhar no segundo volume, em paralelo com a (para já apenas adivinhada) perda de ingenuidade do protagonista. Nesse aspecto Muchacho é também um excelente exemplo de como os modelos tradicionais da banda desenhada podem ser limitados para potenciais novos leitores, quer na forma franco-belga de álbuns, quer nas revistas individuais de “comics” americanos. Sobretudo quando não há, como sucede em Portugal, garantias firmes de continuidade. Cada história demora tempo, e, por mais interesse que gere, a leitura deste primeiro volume sabe a preliminares, a pouco. Fica-se à espera da conclusão.

Wolverine Saudade

Wolverine: Saudade (BD Mania) é um objecto semelhante no modo como se posiciona perante a realidade, mas diferente a vários outros níveis. Num certo sentido os defeitos de Muchacho são as suas virtudes; e vice-versa. História auto-conclusiva, com menos páginas e protagonizada por um (super)herói com características vincadas, a margem de manobra é aqui menor. Mas há boas tentativas para a maximizar, para evitar que esta não seja apenas mais uma história de Wolverine. A ideia é mesmo essa: no projecto Marvel Transatlântico personagens da editora Marvel são trabalhadas por olhares europeus, no caso franceses. É certo que os “comics” fizeram outras “importações” de talento europeu, nomeadamente de argumentistas britânicos (Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Garth Ennis, Warren Ellis…). Só que, nesse caso, a proximidade cultural (em termos de BD) levou a que fossem importadas sobretudo referências narrativo-literárias, uma revolução por dentro do modelo existente, mantendo-o reconhecível. Aqui pretende-se algo distinto, trazer algo da BD franco-belga de aventuras, com o uso de planificações que procuram equilibrar o fluxo narrativo com “splash pages” mais espectaculares; bem como uma componente “engagé” que raras vezes se vê nos “comics” de superheróis, pelo menos com um mínimo de complexidade. Isto enquanto os instantes de extrema violência garantem que Wolverine não sai mais “macio” do exercício. Se o desenho de Philippe Buchet é arejado, excepto quando o movimento frenético dos combates faz descobrir tiques de grotesco, o argumento de Jean-David Morvan procura (talvez com demasiado afinco) a diferença, mas torna-se digno de nota por isso mesmo.

Tomando inspiração de obras como Cidade de Deus (e, antes, Pixote) o Brasil de Wolverine: Saudade é o Brasil das favelas e meninos de rua. Os super-poderes são associados ao misticismo afro-brasileiro, e vistos, não com o “angst” típico na Marvel, mas como possíveis instrumentos de justiça e transcendência sociais. E o mal não é corporizado por super-vilões caricatos, mas pela exploração, pela globalização selvagem, com os seus Esquadrões da Morte e outros mercenários e oportunistas. Uma mescla de aventura e mensagem que Morvan faz também, e com maior sucesso, numa boa e surpreendente aventura de Spirou: O homem que não queria morrer (desenhos de Munuera, edição recente Público/ASA). Percebe-se pois esta aposta da nova editora BD Mania (uma evolução natural da loja homónima) numa obra que procura fazer pontes entre géneros. Só que se corre sempre o risco de alienar ambos os públicos que se pretendia unir. Os leitores regulares de BD franco-belga podem afastar-se pelo uso de super-heróis, por uma história demasiado rápida e, apesar de tudo, maniqueísta, apenas com maniqueísmos diferentes dos habituais. A este nível ninguém confundirá Wolverine: Saudade com Muchacho (o mesmo não se aplica a O homem que não queria morrer). Já os leitores de “comics” desconfiarão do formato, preço, e do facto de esta ser, lá está, uma história atípica de Wolverine. Se tal acontecer é pena, porque a ideia de diálogo entre formas de pensar e viver a BD pode gerar polinizações cruzadas muito interessantes.

Muchacho, Volume 1. Argumento e desenhos de Emmanuel Lepage. ASA, 72 pp., 15,50 Euros.
Wolverine: Saudade. Argumento de Jean-David Morvan, desenhos de Philippe Buchet. BD Mania, 48 pp., 13,50 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos