Banda de Garagem

Graças à Vitamina BD, que na colecção 100 Sentidos acaba de publicar “O Local”, os leitores portugueses têm finalmente oportunidade de descobrir o trabalho do italiano Gipi, um dos mais interessantes autores de Banda Desenhada da actualidade.

Gianni Pacinotti de seu nome, este italiano nascido em Pisa em 1963, começou por se dedicar à ilustração e à publicidade (foi director artístico numa agência de comunicação) antes de decidir contar histórias em imagens, quer através das curtas metragens de animação, produzidas pelo estúdio Santa Maria Vídeo que criou,quer através da BD, campo em que se estreou com quase 30 anos, com diversas histórias curtas espalhadas por diversas revistas italianas. Apesar de ter demorado mais de 10 anos a publicar o seu primeiro álbum, com “Esterno Notte”, uma colectânea de trabalhos dispersos, editada em 2003, Gipi torna-se conhecido a nível internacional, com o magnífico “Appunti Per una storia di Guerra”, de
2004, que, além de ter sido editado em Espanha, Alemanha, França e Estados Unidos, ganhou os Prémios de Melhor Álbum e de Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 2006.

O Local
Curiosamente, em vez de “Appunti Per una storia di Guerra”, a Vitamina BD optou por “O Local” para a estreia de Gipi em português, talvez pelo aspecto gráfico mais atraente de “O Local”, ou pela universalidade do tema, que permite uma mais fácil identificação dos leitores com as dificuldades dos quatro amigos em arranjar um espaço para a sua banda ensaiar, do que com a questão da guerra na ex-Jugoslávia, que funciona como pano de fundo de “Appunti…”. História de quatro amigos adolescentes tão diferentes entre si, mas unidos pelo desejo comum de fazer música, e das coisas que têm que fazer para conseguir manter esse sonho vivo, contada em cinco capítulos que correspondem a outras tantas canções, “O Local” lê-se muito bem. Mas apesar da justeza dos diálogos e da forma como as personagens evoluem, a singeleza da história, muito bem contada, mas quase banal, faz com que tenhamos alguma dificuldade em aperceber-nos pela leitura de “O Local” de que Gipi é, de facto, um notável autor de BD. Curiosamente, esta história com final feliz, de quatro adolescentes e da
sua banda de garagem, nasceu num momento difícil da vida pessoal de Gipi, que tinha perdido o pai um mês antes de começar a escrever a história. E, se na versão inicial, um dos quatro amigos morria, Gipi acabaria por aligeirar a história, ou como o próprio referiu numa entrevista: “cheguei à conclusão que não queria contar uma história tão triste e optei por
transferir o conceito de perda e da vida que continua, de uma pessoa para um espaço físico”. O tal local onde os quatro amigos ensaiavam, cedido temporariamente pelo pai de um deles, enquanto não fizessem nenhuma asneira.

O Local
Se a sua apurada técnica de aguarela nos recorda outro autor italiano, Hugo Pratt, o traço rápido e esboçado, quase caligráfico, de Gipi, faz lembrar outro grande contador de histórias, o francês Joann Sfar, cuja necessidade de desenhar com rapidez é compartilhada por Gipi, como se pode perceber de uma entrevista a um jornal espanhol, em que este diz : “a
rapidez na realização das páginas é muito importante para mim, pois o que me dá mais prazer não é o desenho em si, mas sim o contar de uma história através de desenhos”.

Além de dar os parabéns à Vitamina BD pela aposta em Gipi, faço votos para que a editora também publique “Appunti Per una storia di Guerra”, para que os leitores possam constatar que não há qualquer exagero no texto da contracapa de “O Local”, que se refere a Gipi como “um dos maiores narradores contemporâneos” que, de facto, é!

(”O Local”, de Gipi, 100 Sentidos/Vitamina BD, 120 pags, 16,50 €)
(Blog do autor: http://giannigipi.blogspot.com/)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

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