Hermann em Afrika

Um dos mais prolíficos autores europeus de Banda Desenhada, Hermann é também um dos raros autores cuja vastíssima produção o público português tem podido acompanhar com regularidade, graças ao esforço da Editora Vitamina BD que continua a apostar em força no excelente desenhador belga, de quem já publicou catorze álbuns, entre volumes das séries “Jeremiah” e “A Herança de Bois-Maury” e histórias auto-conclusivas.

“Afrika”, o décimo quinto álbum de Hermann editado pela Vitamina BD, que a editora lançou em fins de Dezembro, deixa perceber a razão desta firme aposta naquele que é um dos melhores desenhadores realistas da actualidade e cada vez mais um extraordinário colorista, qualidades que, neste caso, Hermann coloca ao serviço de uma das suas melhores histórias dos últimos tempos, uns bons furos acima dos argumentos que o seu filho lhe tem escrito, ou dos seus próprios guiões para a série “Jeremiah”. 

Afrika
Como o próprio título indica, “Afrika” tem por cenário o continente africano, local a que Hermann regressa 16 anos depois de “Missié Vandisandi”, trocando o turista europeu do álbum de 91, que chega a África pela primeira vez, por um veterano do continente africano, incapaz de viver na Europa para onde Karl Vandesande regressa no fim do álbum. Em “Afrika”, o protagonista, que nos guia através da história é Dário Ferrer, um ex-militar das forças especiais, que abandonou o exército para se tornar guarda florestal, responsável pela segurança de uma reserva florestal na África equatorial e que ao acompanhar Charlotte, uma jornalista que pretendia fazer uma reportagem sobre os caçadores furtivos, é testemunha acidental de um massacre das tropas governamentais sobre uma aldeia de rebeldes. O que os transforma, a ele e à jornalista que o acompanha, em testemunhas incómodas que é preciso eliminar, obrigando-os a fugir por uma selva inóspita, mas onde a fera mais perigosa continua a ser o homem. 

Sombrio e taciturno, com um respeito incomparavelmente maior pela terra e pelos animais de África, do que pelas gentes que habitam o continente, Dário Ferrer, o herói de “Afrika” tem grandes pontos de contacto com o seu criador, com quem partilha um grande desencanto em relação à humanidade em geral. Neste relato seco e sem concessões, Hermann nunca cede à tentação de “dourar a pílula”, numa história contada com o rigor de um metrónomo, em que nada é supérfluo. Veja-se a forma como são retratados os políticos, tanto africanos como europeus, ou mesmo Iseko, a companheira negra de Ferrer, que acaba por ceder aos avanços do seu seboso vizinho, perante a promessa deste a tirar de África e levá-la a conhecer a Europa.

Afrika
Outro aspecto em que Hermann não cede às convenções do “happy end” hollywoodiano é no retrato da relação entre Dário e Charlotte, cujo esperado  envolvimento romântico nunca se chega a concretizar, ou no final elíptico, em que Dário se suicida fazendo justiça, ao destruir com uma avioneta carregada de explosivos a sede na Tasmania da empresa multinacional que ajudou a abafar o massacre, numa cena que nunca nos é mostrada.

Em termos gráficos, pouco há a dizer sobre Hermann que não tenha já sido dito. Senhor de um virtuosismo impressionante, tanto no traço, no dinamismo da planificação, como na aplicação da cor directa, Herman supera-se aqui nas cenas com os animais, como podemos ver na sequência que escolhi para ilustrar este artigo, em que um leopardo caça um antílope.

Prestes a completar 70 anos, Herman tem sabido envelhecer como um bom vinho, refinando as suas qualidades. Qualidades essas bem patentes neste seu regresso a África, com “Afrika”, uma das melhores colheitas Hermann
dos últimos anos.

(“Afrika”, de Hermann, Vitamina BD, 56 pags, 13,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

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