Archive for Janeiro, 2008

Banda de Garagem

Terça-feira, Janeiro 15th, 2008

Graças à Vitamina BD, que na colecção 100 Sentidos acaba de publicar “O Local”, os leitores portugueses têm finalmente oportunidade de descobrir o trabalho do italiano Gipi, um dos mais interessantes autores de Banda Desenhada da actualidade.

Gianni Pacinotti de seu nome, este italiano nascido em Pisa em 1963, começou por se dedicar à ilustração e à publicidade (foi director artístico numa agência de comunicação) antes de decidir contar histórias em imagens, quer através das curtas metragens de animação, produzidas pelo estúdio Santa Maria Vídeo que criou,quer através da BD, campo em que se estreou com quase 30 anos, com diversas histórias curtas espalhadas por diversas revistas italianas. Apesar de ter demorado mais de 10 anos a publicar o seu primeiro álbum, com “Esterno Notte”, uma colectânea de trabalhos dispersos, editada em 2003, Gipi torna-se conhecido a nível internacional, com o magnífico “Appunti Per una storia di Guerra”, de
2004, que, além de ter sido editado em Espanha, Alemanha, França e Estados Unidos, ganhou os Prémios de Melhor Álbum e de Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 2006.

O Local
Curiosamente, em vez de “Appunti Per una storia di Guerra”, a Vitamina BD optou por “O Local” para a estreia de Gipi em português, talvez pelo aspecto gráfico mais atraente de “O Local”, ou pela universalidade do tema, que permite uma mais fácil identificação dos leitores com as dificuldades dos quatro amigos em arranjar um espaço para a sua banda ensaiar, do que com a questão da guerra na ex-Jugoslávia, que funciona como pano de fundo de “Appunti…”. História de quatro amigos adolescentes tão diferentes entre si, mas unidos pelo desejo comum de fazer música, e das coisas que têm que fazer para conseguir manter esse sonho vivo, contada em cinco capítulos que correspondem a outras tantas canções, “O Local” lê-se muito bem. Mas apesar da justeza dos diálogos e da forma como as personagens evoluem, a singeleza da história, muito bem contada, mas quase banal, faz com que tenhamos alguma dificuldade em aperceber-nos pela leitura de “O Local” de que Gipi é, de facto, um notável autor de BD. Curiosamente, esta história com final feliz, de quatro adolescentes e da
sua banda de garagem, nasceu num momento difícil da vida pessoal de Gipi, que tinha perdido o pai um mês antes de começar a escrever a história. E, se na versão inicial, um dos quatro amigos morria, Gipi acabaria por aligeirar a história, ou como o próprio referiu numa entrevista: “cheguei à conclusão que não queria contar uma história tão triste e optei por
transferir o conceito de perda e da vida que continua, de uma pessoa para um espaço físico”. O tal local onde os quatro amigos ensaiavam, cedido temporariamente pelo pai de um deles, enquanto não fizessem nenhuma asneira.

O Local
Se a sua apurada técnica de aguarela nos recorda outro autor italiano, Hugo Pratt, o traço rápido e esboçado, quase caligráfico, de Gipi, faz lembrar outro grande contador de histórias, o francês Joann Sfar, cuja necessidade de desenhar com rapidez é compartilhada por Gipi, como se pode perceber de uma entrevista a um jornal espanhol, em que este diz : “a
rapidez na realização das páginas é muito importante para mim, pois o que me dá mais prazer não é o desenho em si, mas sim o contar de uma história através de desenhos”.

Além de dar os parabéns à Vitamina BD pela aposta em Gipi, faço votos para que a editora também publique “Appunti Per una storia di Guerra”, para que os leitores possam constatar que não há qualquer exagero no texto da contracapa de “O Local”, que se refere a Gipi como “um dos maiores narradores contemporâneos” que, de facto, é!

(”O Local”, de Gipi, 100 Sentidos/Vitamina BD, 120 pags, 16,50 €)
(Blog do autor: http://giannigipi.blogspot.com/)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Hermann em Afrika

Sexta-feira, Janeiro 4th, 2008

Um dos mais prolíficos autores europeus de Banda Desenhada, Hermann é também um dos raros autores cuja vastíssima produção o público português tem podido acompanhar com regularidade, graças ao esforço da Editora Vitamina BD que continua a apostar em força no excelente desenhador belga, de quem já publicou catorze álbuns, entre volumes das séries “Jeremiah” e “A Herança de Bois-Maury” e histórias auto-conclusivas.

“Afrika”, o décimo quinto álbum de Hermann editado pela Vitamina BD, que a editora lançou em fins de Dezembro, deixa perceber a razão desta firme aposta naquele que é um dos melhores desenhadores realistas da actualidade e cada vez mais um extraordinário colorista, qualidades que, neste caso, Hermann coloca ao serviço de uma das suas melhores histórias dos últimos tempos, uns bons furos acima dos argumentos que o seu filho lhe tem escrito, ou dos seus próprios guiões para a série “Jeremiah”. 

Afrika
Como o próprio título indica, “Afrika” tem por cenário o continente africano, local a que Hermann regressa 16 anos depois de “Missié Vandisandi”, trocando o turista europeu do álbum de 91, que chega a África pela primeira vez, por um veterano do continente africano, incapaz de viver na Europa para onde Karl Vandesande regressa no fim do álbum. Em “Afrika”, o protagonista, que nos guia através da história é Dário Ferrer, um ex-militar das forças especiais, que abandonou o exército para se tornar guarda florestal, responsável pela segurança de uma reserva florestal na África equatorial e que ao acompanhar Charlotte, uma jornalista que pretendia fazer uma reportagem sobre os caçadores furtivos, é testemunha acidental de um massacre das tropas governamentais sobre uma aldeia de rebeldes. O que os transforma, a ele e à jornalista que o acompanha, em testemunhas incómodas que é preciso eliminar, obrigando-os a fugir por uma selva inóspita, mas onde a fera mais perigosa continua a ser o homem. 

Sombrio e taciturno, com um respeito incomparavelmente maior pela terra e pelos animais de África, do que pelas gentes que habitam o continente, Dário Ferrer, o herói de “Afrika” tem grandes pontos de contacto com o seu criador, com quem partilha um grande desencanto em relação à humanidade em geral. Neste relato seco e sem concessões, Hermann nunca cede à tentação de “dourar a pílula”, numa história contada com o rigor de um metrónomo, em que nada é supérfluo. Veja-se a forma como são retratados os políticos, tanto africanos como europeus, ou mesmo Iseko, a companheira negra de Ferrer, que acaba por ceder aos avanços do seu seboso vizinho, perante a promessa deste a tirar de África e levá-la a conhecer a Europa.

Afrika
Outro aspecto em que Hermann não cede às convenções do “happy end” hollywoodiano é no retrato da relação entre Dário e Charlotte, cujo esperado  envolvimento romântico nunca se chega a concretizar, ou no final elíptico, em que Dário se suicida fazendo justiça, ao destruir com uma avioneta carregada de explosivos a sede na Tasmania da empresa multinacional que ajudou a abafar o massacre, numa cena que nunca nos é mostrada.

Em termos gráficos, pouco há a dizer sobre Hermann que não tenha já sido dito. Senhor de um virtuosismo impressionante, tanto no traço, no dinamismo da planificação, como na aplicação da cor directa, Herman supera-se aqui nas cenas com os animais, como podemos ver na sequência que escolhi para ilustrar este artigo, em que um leopardo caça um antílope.

Prestes a completar 70 anos, Herman tem sabido envelhecer como um bom vinho, refinando as suas qualidades. Qualidades essas bem patentes neste seu regresso a África, com “Afrika”, uma das melhores colheitas Hermann
dos últimos anos.

(“Afrika”, de Hermann, Vitamina BD, 56 pags, 13,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras