Gary Larson finalmente em português
Um dos acontecimentos editoriais do ano, a estreia de Gary Larson em português pelas mãos da Gradiva apenas peca por tardia. Conhecido sobretudo pela série humorística “Farside”, publicada em milhares de jornais por todo o mundo, entre 1980 e 1995, Larson chega às livrarias nacionais, não com a sua série-fetiche, mas com “Há um Cabelo na minha Terra!”, uma história de minhocas narrada como um conto ilustrado, publicada originalmente em 1998 e que é o seu último trabalho, até à data.
Nascido em 1950, em Tacoma, Washington, Gary Larson frequentou a Washington Sate University na área de ciências, antes de decidir licenciar-se em comunicação e acabar por ganhar a vida como cartoonista, primeiro em jornais de Seattle e mais tarde no “San Francisco Chronicle”, que distribuiu a série “Far Side” a nível global. Essa formação científica inicial reflecte-se nos seus cartoons, protagonizados por animais de comportamento humano, cuja enorme popularidade junto da comunidade científica lhe valeu a honra pouco habitual de ver o seu nome dado a duas novas espécies animais, um piolho das corujas (o “Strigiphilus Garylarsoni”) e uma borboleta da floresta equatorial (a “Serratoterga Larsoni”).
Em 1 Janeiro de 1995, após 15 anos de publicação regular, de que resultaram 22 livros de tiras, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos e traduções em 17 línguas e inúmeros prémios, Larson decidiu pôr fim à série “Far Side” no auge da sua popularidade e reformar-se, dedicando-se a outros interesses, como o jazz e as viagens. Uma reforma só interrompida em 1998, para fazer este “Há um Cabelo na minha terra!” que conhece agora edição portuguesa, graças à persistência de Guilherme Valente, editor da Gradiva, que satisfez todos os caprichos do autor, que raramente dá entrevistas e nunca se deixa fotografar, aceitando as condições draconianas impostas pelo contrato de edição, única forma de concretizar o seu sonho antigo de editar Larson em Portugal.
Com outro nível de produção (os cartoons de “Far Side” são a preto e branco e este livro explora as potencialidades estéticas e narrativas da cor), “Há um cabelo na minha terra!” prossegue com a mesma visão da natureza que já encontrávamos em “Far Side”, referidas pelo biólogo Edward O. Wilson no prefácio, onde diz: “Larson descreve o que nós, biólogos, sabemos há muito: a Natureza, é, efectivamente violenta e cruel.”

Assim, através da história que o pai minhoca conta ao seu filho, revoltado por ter encontrado um cabelo no seu prato de terra, percebemos que avisão idílica do campo e dos animaizinhos, esconde uma luta feroz e interminável pela sobrevivência, em que assenta o equilíbrio dos ecossistemas. Usando muito bem as duplas páginas, cheias de pequenos pormenores divertidos, Larson apresenta na da esquerda a visão ingénua e “new age” que a bela Henriqueta (tão bela quanto pode ser um humano desenhado por Larson…) tem da natureza, enquanto que na página da direita nos é explicado como essa mesma natureza, efectivamente, funciona. Uma lição que Henriqueta só vai aprender demasiado tarde e à sua custa, ao morrer infectada por um vírus transmitido por um rato, que ela tinha salvo de ser morto por uma cobra…
Esclarecida a origem do cabelo que aterrou no prato do filho minhoca, Larson termina lembrando-nos que mais tarde ou mais cedo, todos nós vamos servir de alimento às minhocas, como aconteceu à bela Henriqueta, dando assim a indispensável moral da história, com que terminavam sempre os bons contos infantis.
Bela introdução ao universo de Larson, esperemos que este livro tenha um sucesso que incentive o editor a continuar com a sua dura luta para convencer Larson, um dos raros autores que prefere não ser publicado, a deixar publicar em Portugal a série “Farside”.
(“Há um cabelo na minha terra! Uma história de minhocas”, de Gary Larson, Gradiva, 64 pags, 17 €)
Artigo escrito por: João Miguel Lameiras