Archive for Dezembro, 2007

Os melhores de 2007 - Parte II

Domingo, Dezembro 30th, 2007

Depois da primeira lista bem variada dos melhores de 2007, fica agora a lista de Fernando Ferreira com os 10 melhores mangás lidos este ano que está a terminar.

01. MW, de Osamu Tezuka
02. Abandon the Old in Tokyo, de Yoshihiro Tatsumi
03. Non Non Bâ, de Shigeru Mizuki
04. Diario de una Desaparicion, de Hideo Azuma
05. Azumanga Daioh Omnibus, de Kiyohiko Azuma
06. Death Note, de Takeshi Obata / Tsugumi Ohba
07. Museum of Terror, de Junji Ito
08. Le gourmet solitaire, de Taniguchi Jiro / Kusumi Masayuki
09. Blue, de Nananan Kiriko
10. Japan, de VVAA

Os melhores de 2007 - Parte I

Sábado, Dezembro 29th, 2007

Estamos em época de balanço do ano que está a terminar e como é comum nesta altura chegam os tops disto e daquilo. A Livraria Dr. Kartoon também adere e elege os melhores de 2007. João Miguel Lameiras é o primeiro a deixar aqui a sua lista dos dez melhores livros lidos em 2007.

01. Alice in Sunderland, de Bryan Talbot
02. Fun Home, de Allison Bechdel
03. Monster, de Naoki Urusawa
04. Captain America, de Ed Brubaker
05. Zoo, de Frank Bonifay
06. Capote in Kansas, de Ande Parks
07. The Complete Peanuts, de Charles M. Shultz
08. The Waliking Dead, de Robert Kirkman
09. Ou le regard ne porte pas, de George Abolin
10. Muchacho, de Lepage

Gary Larson finalmente em português

Domingo, Dezembro 9th, 2007

Um dos acontecimentos editoriais do ano, a estreia de Gary Larson em português pelas mãos da Gradiva apenas peca por tardia. Conhecido sobretudo pela série humorística “Farside”, publicada em milhares de jornais por todo o mundo, entre 1980 e 1995, Larson chega às livrarias nacionais, não com a sua série-fetiche, mas com “Há um Cabelo na minha Terra!”, uma história de minhocas narrada como um conto ilustrado, publicada originalmente em 1998 e que é o seu último trabalho, até à data.

Nascido em 1950, em Tacoma, Washington, Gary Larson frequentou a Washington Sate University na área de ciências, antes de decidir licenciar-se em comunicação e acabar por ganhar a vida como cartoonista, primeiro em jornais de Seattle e mais tarde no “San Francisco Chronicle”, que distribuiu a série “Far Side” a nível global. Essa formação científica inicial reflecte-se nos seus cartoons, protagonizados por animais de comportamento humano, cuja enorme popularidade junto da comunidade científica lhe valeu a honra pouco habitual de ver o seu nome dado a duas novas espécies animais, um piolho das corujas (o “Strigiphilus Garylarsoni”) e uma borboleta da floresta equatorial (a “Serratoterga Larsoni”).

Em 1 Janeiro de 1995, após 15 anos de publicação regular, de que resultaram 22 livros de tiras, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos e traduções em 17 línguas e inúmeros prémios, Larson decidiu pôr fim à série “Far Side” no auge da sua popularidade e reformar-se, dedicando-se a outros interesses, como o jazz e as viagens. Uma reforma só interrompida em 1998, para fazer este “Há um Cabelo na minha terra!” que conhece agora edição portuguesa, graças à persistência de Guilherme Valente, editor da Gradiva, que satisfez todos os caprichos do autor, que raramente dá entrevistas e nunca se deixa fotografar, aceitando as condições draconianas impostas pelo contrato de edição, única forma de concretizar o seu sonho antigo de editar Larson em Portugal.

Com outro nível de produção (os cartoons de “Far Side” são a preto e branco e este livro explora as potencialidades estéticas e narrativas da cor), “Há um cabelo na minha terra!” prossegue com a mesma visão da natureza que já encontrávamos em “Far Side”, referidas pelo biólogo Edward O. Wilson no prefácio, onde diz: “Larson descreve o que nós, biólogos, sabemos há muito: a Natureza, é, efectivamente violenta e cruel.”

Há um Cabelo na minha Terra!
Assim, através da história que o pai minhoca conta ao seu filho, revoltado por ter encontrado um cabelo no seu prato de terra, percebemos que avisão idílica do campo e dos animaizinhos, esconde uma luta feroz e interminável pela sobrevivência, em que assenta o equilíbrio dos ecossistemas. Usando muito bem as duplas páginas, cheias de pequenos pormenores divertidos, Larson apresenta na da esquerda a visão ingénua e “new age” que a bela Henriqueta (tão bela quanto pode ser um humano desenhado por Larson…) tem da natureza, enquanto que na página da direita nos é explicado como essa mesma natureza, efectivamente, funciona.  Uma lição que Henriqueta só vai aprender demasiado tarde e  à sua custa, ao morrer infectada por um vírus transmitido por um rato, que ela tinha salvo de ser morto por uma cobra…

Esclarecida a origem do cabelo que aterrou no prato do filho minhoca, Larson termina lembrando-nos que mais tarde ou mais cedo, todos nós vamos servir de alimento às minhocas, como aconteceu à bela Henriqueta, dando assim a indispensável moral da história, com que terminavam sempre os bons contos infantis.

Bela introdução ao universo de Larson, esperemos que este livro tenha um sucesso que incentive o editor a continuar com a sua dura luta para convencer Larson, um dos raros autores que prefere não ser publicado, a deixar publicar em Portugal a série “Farside”.

(“Há um cabelo na minha terra! Uma história de minhocas”, de Gary Larson, Gradiva, 64 pags, 17 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

O Regresso dos Portugueses IV: As propostas das editoras independentes

Quarta-feira, Dezembro 5th, 2007

Terminando a análise das novidades editoriais “made in Portugal”, lançadas durante o Festival da Amadora, que vieram animar a “reentrée bedéfila” de 2007, o espaço desta semana é destinado aos mais recentes lançamentos das Editoras Kingpin Comics e Pedranocharco, duas pequenas editoras que têm sabido apostar na divulgação dos autores nacionais, dando-lhes oportunidades de publicação.

Super Pig 3
Comecemos pela análise das séries da Kingpin, “Super Pig” e “C.A.O.S.”, que chegam ao terceiro número, precisamente um ano depois de ter saído o primeiro, no Festival da Amadora de 2006, confirmando um ritmo sustentado de publicação pouco habitual em projectos desta natureza.

E, no caso da série “C.A.O.S.”, este terceiro volume é também o último. Série de espionagem cuja acção se inicia em Portugal nos inícios dos anos 80, para terminar 13 anos depois, em Lisboa, com uma passagem pela Rússia de Boris Yeltsin, C.A.O.S., sem nunca chegar a deslumbrar, tem melhorado gradualmente de número para número, tanto em termos do desenho bastante agradável de Filipe Teixeira, como das cores, ainda assim demasiado planas de Carlos Geraldes. E mesmo o argumento, sem primar pela originalidade, vai ganhando em eficácia e fluência narrativa, resultando numa movimentada história de acção que se lê bem, com um ritmo e um aparato nas cenas de tiroteio (dignas de um filme de Hollywood) pouco habituais na BD portuguesa.

Seguindo um princípio vulgar nos comics americanos, um dos personagens da série C.A.O.S., o bem conseguido inspector Franco (uma espécie de cruzamento entre o Comissário Gordon e o Dirty Harry) vai também aparecer no nº 3 das aventuras de Super Pig, onde vai ter um papel importante, numa história que tem por base os jogos de poder na Fundação Calouste Pig, cuja administração o Super Pig acabou de herdar. A grande novidade deste 3º número, para além da cor, é a chegada de um novo desenhador, GEvan, cujo estilo “redondo” se adequa melhor ao universo de Super Pig, do que o desenho de Carlos Pedro (responsável pela arte dos dois primeiros números), que não se adaptava tão bem às personagens humanas como se adapta ao porco playboy. Além da arte digital de GEvan, cujos bonequinhos “cute”, se adoram ou detestam, não deixando ninguém indiferente, este Super Pig nº 3, traz também uma segunda história, que cria uma outra imagem de Super Pig, graças ao desenho de Eduardo Rebelo, um novo autor de grande potencial, com um traço bastante agradável e personalizado (mesmo que se notem influências de Sam Kieth) e um óptimo trabalho de cor.

Sexo, Mentiras e Fotocopias
Já a Pedranocharco, editora responsável pelo BD Jornal, lançou dois títulos de qualidade desigual (e um terceiro, “Formas de Pensar a BD”, de que falaremos brevemente) em que o “Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, ganha claramente face ao “Bang Bang” de Hugo Teixeira. Pré-publicado nas páginas do BD Jornal, “Sexo, Mentiras e Fotocópias” é um divertidíssimo exercício de humor, a partir de uma situação do quotidiano tão banal como kafkiana: um homem entra numa casa de fotocópias para pedir uma folha A3, mas a funcionária não lhe pode dar nem vender a folha, a menos que ele tire uma fotocópia. Tal como os Monty Phyton faziam nos seus scketches, Álvaro também prolonga o gag até ao limite do suportável, mantendo o leitor fixo à espera de uma punch line que tarda a chegar, conseguindo prende-lo às páginas do livro durante mais de 60 páginas. Aproveitando muito bem as potencialidades do seu traço limitado, este é o melhor trabalho de Álvaro, até agora, e a mais divertida BD portuguesa dos últimos anos.

Já o mesmo não se pode dizer de “Bang Bang”, de Hugo Teixeira, autor também habitual no “BD Jornal”, que aqui lança o primeiro capítulo do seu Western Spaguetti espacial, em versão mangá. Para além de não acontecer nada de relevante ao longo das quase quarenta páginas de história do primeiro número (não é por acaso que os mangas japoneses têm geralmente centenas, ou milhares de páginas), o pouco que acontece não ultrapassa os mais batidos clichés do género. Do mesmo modo, o traço ainda incipiente de Hugo Teixeira, que foi buscar à série “Trigun” inspiração para o visual da sua heroína, não se consegue libertar da influência de Totsumo Nihei, o desenhador de “Blame”.

Bang Bang 1
Ninguém põe em causa o mérito do trabalho de divulgação de novos autores levado a cabo por estas duas editoras. Mas se esse esforço é sempre louvável, convém que o trabalho desses autores já tenha um mínimo de maturidade e qualidade que justifique essa divulgação, o que, manifestamente, (ainda) não é o caso de Hugo Teixeira…

(”C.A.O.S. – Livro três” de Fernando Dordio Campos e Filipe Teixeira, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Super Pig” nº 3, de Mário Freitas, GEvan e Eduardo Rebelo, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, Pedranocharco, 78 pags, 7 €

“Bang Bang”, de Hugo Teixeira, Pedranocharco, 68 pags, 7 €)

Artigo escrito por : João Miguel Lameiras