Archive for Novembro, 2007

Tarzan: O Regresso do Senhor Selva

Sexta-feira, Novembro 30th, 2007

Depois do aturado trabalho de restauro levado a cabo com o “Príncipe Valente”, de Harold Foster, a editora Bonecos Rebeldes inicia a publicação de outro clássico da Banda Desenhada americana publicada nos jornais, a série “Tarzan”, na versão clássica e elegante de Russ Maning.

Criado pelo escritor inglês Edgar Rice Burroughs, em 1912, nas páginas da revista “The All Story”, Tarzan é uma das mais conhecidas personagens de ficção de sempre. Nascidas na literatura, as aventuras do homem macaco foram adaptadas ao cinema e à televisão, mas seria a Banda Desenhada a fazer inteira justiça ao universo fantástico imaginado por Burroughs, graças ao trabalho de desenhadores como Harold Foster, Burne Hogart e especialmente, Russ Manning.

Nascido na Califórnia em 1929, Manning foi o desenhador que melhor revitalizou a imagem do homem-macaco sem trair o espírito criativo de Burroughs e a sua verdadeira essência romanesca, trazendo a série de regresso às origens com grande sucesso, graças à “harmonia dinâmica” (expressão feliz de Jorge Magalhães) do seu traço, que reconquistou os leitores cansados de ver o seu herói favorito nas mãos pouco talentosas de desenhadores banais, como John Celardo, que Russ Manning substituiu em 1967.

Tarzan
Mas ainda antes de se tornar desenhador das tiras diárias de Tarzan para a United Feature Syndicate, os caminhos de Russ Manning já se tinham cruzado com outras criações de Burrroughs. Logo em 1950, desenhou umas páginas de apresentação para a série “John Carter of Mars” que a Editora Dell ia começar a publicar, mas entretanto com o eclodir da guerra na Coreia, Manning viu-se mobilizado e mandado para o Japão, perdendo assim a oportunidade para o desenhador Jesse Marsh. Depois de desmobilizado, em 1952, Manning vai trabalhar ao lado de Marsh na revista “Tarzan” da editora Dell/Gold Key, desenhando “Brothers of Spear”, e “Korak, Son Of Tarzan”, séries secundária da revista protagonizada pela criação maior de Burroughs.

Com a morte de Marsh em 1965, Manning substitui-o como desenhador de “Tarzan” na revista do homem-macaco, onde adaptou à BD os primeiros sete romances de Burroughs. Uma adaptação bastante fiel, recentemente editada em Portugal na série “Os Clássicos da Banda Desenhada”, publicada com o jornal “Correio da Manhã”. Face ao seu currículo, a escolha de Manning para ilustrar as tiras diárias e as pranchas dominicais de “Tarzan” surge como perfeitamente natural, traduzindo o reconhecimento do trabalho do desenhador californiano com o Rei da Selva.

Tarzan
Reunindo, por ordem cronológica, num volume grande em formato italiano (sobre o deitado) as páginas dominicais desenhadas por Manning entre 1968 e 1970, esta iniciativa da editora Bonecos Rebeldes dá a descobrir um autor elegante e talentoso no auge das suas capacidades artísticas e narrativas. Ao longo dos dois anos de publicação que este volume recolhe, Manning faz-nos acompanhar Tarzan em aventuras fantásticas em cenários exóticos, numa África mítica, onde subsistem civilizações pré-históricas decadentes, mundos perdidos, belíssimas mulheres e inimigos julgados mortos, como Daga Ramba, personagem introduzido na série por Burne Hogart, que Manning recupera.

Mesmo que a minha análise possa ser afectada pelo olhar nostálgico de alguém que redescobre (muito melhor impressas) as histórias que leu durante a sua infância, em edições brasileiras, a verdade é que estas histórias, em cenários exóticos e com uma dimensão épica que o cinema nunca conseguiu dar a Tarzan, envelheceram muito bem, tal como o traço de Manning, que se mantém tão atractivo como dantes.

Vamos esperar que esta edição de “Tarzan” conheça o mesmo sucesso que está a ter a edição do “Príncipe Valente”, também da Bonecos Rebeldes. Para que outros clássicos da Banda Desenhada publicada nos jornais possam vir a ser publicados em edições com esta qualidade, ficando assim acessíveis para as várias gerações de leitores.

(”Tarzan” Vol 1: 1968-1970″, de Russ Manning, Bonecos Rebeldes, 136 pags, 33 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

O Regresso dos Portugueses I: Evereste e Obrigada, Patrão

Quinta-feira, Novembro 22nd, 2007

Tradicionalmente, as editoras nacionais de Banda Desenhada tendem a concentrar o lançamento das novidades de autores portugueses no Festival da Amadora. As razões são simples e passam, não só, pela maior visibilidade que o Festival dá a esses títulos, possibilitando (mais ou menos) animadas sessões de autógrafos com os autores, mas também pela proximidade da época de Natal, período do ano em que se vendem mais livros.

E, este ano, a colheita de novidades de autores portugueses lançadas durante o festival da Amadora, foi a mais farta dos últimos tempos, com destaque para as Edições Asa, com quatro novidades de autores nacionais. Assim, e durante as próximas três semanas, este espaço será ocupado com as novidades “made in Portugal” que vieram animar a “reentrée bedéfila”.

Obrigado, Patrão
Para começar, temos dois títulos que, em bom rigor, não são inéditos, mas que através da Asa chegam só agora ao grande público numa edição em português. São eles “Obrigada, Patrão” de Rui Lacas e “Evereste”, de Ricardo Cabral.

“Obrigada, Patrão” é um bom exemplo de um caminho a seguir pelos autores nacionais que querem viver da BD, pois o álbum saiu inicialmente em edição francesa em Setembro de 2006, com o título “Merci Patron” e foi a Asa a comprar os direitos para a edição portuguesa, que lançou um ano depois. Uma internacionalização que se deve à iniciativa do autor, Rui Lacas, que foi a Angoulême e conseguiu vender o seu projecto a uma editora francesa (neste caso, a editora Suiça, Paquet), que lhe deu condições de trabalho que não estão ao alcance das editoras nacionais.

História dramática, ambientada no litoral alentejano, de uma criança que se vê obrigada a crescer demasiado depressa e de uma mulher que soube esperar anos a fio pela sua vingança, “Obrigada, Patrão” foi bem recebido em França, tendo mesmo ganho o prémio de Melhor Argumento no Festival de Les Moulins e abriu a Rui Lacas as portas do mercado francês, para onde continua a trabalhar preferencialmente. A edição portuguesa tem uma nova capa, menos chamativa, mas mais adequada ao conteúdo do livro (que é uma história extremamente dura e próxima de um registo neo-realista e não uma história infantil, como a capa da edição francesa sugere…) e um formato ligeiramente mais reduzido, que favorece o traço solto de Lacas, o que mostra que a editora e o autor prepararam com cuidado a versão nacional, cujo sucesso se deseja.

Evereste
Quanto a “Evereste” é o relato da trágica expedição ao Monte Evereste em que o alpinista João Garcia perdeu os dedos da mão e parte do nariz e viu morrer o seu colega e amigo Pascal Debrouwer, transposto para a Banda Desenhada por Ricardo Cabral, a partir do relato de João Garcia, que narra a história na primeira pessoa.

Lançado inicialmente numa edição sem distribuição comercial, da Junta de Freguesia dos Olivais, que foi distribuída pelas escolas da grande Lisboa, as potencialidades comerciais de “Evereste” eram evidentes, até pela popularidade e impacto mediático da figura de João Garcia, o nosso mais famoso alpinista de sempre. Daí que esta edição da Asa surja com toda a naturalidade, ainda mais por ser a editora dos livros do próprio João Garcia.

Obra de estreia em álbum de Ricardo Cabral, “Evereste” revela um grande desenhador e um excelente colorista, que combina de forma harmoniosa as influências franco-belgas e japonesas, com destaque evidente para o trabalho de Jiro Taniguchi, o autor de “Le Sommet des Dieux”, livro que me veio imediatamente à memória ao ler este “Evereste”.

Para a edição da Asa, Ricardo Cabral acrescentou uma mão cheia de páginas, e alterou outra dezena, criando uma nova versão mais consistente e fluida em termos narrativos, sem o final abrupto da primeira edição, para além de ter criado uma nova capa, igualmente bonita mas bastante mais eficaz. Só é pena que todo este trabalho do autor para melhorar o livro tenha sido estragado por problemas de impressão que tornam algumas paginais praticamente ilegíveis, de tão escuras…

Resta esperar que o (esperado) sucesso do álbum possibilite uma segunda edição da Asa, em que esses (graves) problemas gráficos sejam finalmente resolvidos. O belo trabalho de Ricardo Cabral e a coragem de João Garcia, bem o justificam.


(”Evereste”, de Ricardo Cabral (a partir do relato de João Garcia), Edições Asa, 48 pags, 10 €)
“Obrigada, Patrão”, de Rui Lacas, Edições Asa, 92 pags, 15 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras