Archive for Outubro, 2007

Um samurai na corte de Luís XIV

Terça-feira, Outubro 23rd, 2007

Um dos grandes sucessos do mercado americano em 2005, “Samurai, Céu e Terra” recentemente editado em Portugal pela editora BdMania, é um bom exemplo como colocar personagens familiares num contexto diferente do habitual, jogando precisamente com esses contrastes, pode resultar muito bem em termos de história.

Neste caso, temos um samurai japonês que se vê obrigado a cruzar os mares até à Paris de Luís XIV, em busca da sua amada, vendida como escrava ao Embaixador espanhol por um mercador de escravos árabe, acabando por ter que enfrentar os mosqueteiros do Rei. Tudo começa em 1704, com um ataque de um Senhor da Guerra chinês a um castelo da província de Kaga, no Japão, na sequência do qual Asukai Shiro, o samurai que dá título ao livro, vê o seu Shogun morrer em combate e a sua amada Yoshiko levada para a China como um troféu de guerra. Ponto de partida para uma movimentada saga que leva o samurai japonês a atravessar céu e terra para recuperar a mulher que ama, enfrentando os mais diversos inimigos. O que, face ao sucesso da primeira série, não acontecerá tão cedo…

Com efeito, depois desta primeira aventura, em que Shiro vai do Japão à China, da Ásia à Europa, para acabar em Paris, já saiu nos Estados Unidos uma segunda mini-série em que a busca de Yoshiko leva Shiro ao Egipto e está anunciada uma terceira série em que o samurai vai cruzar os mares das Caraíbas e enfrentar piratas, o que deixa perceber que os dois amantes só irão conhecer finalmente a paz quando os leitores se fartarem das suas aventuras.

Samurai
Escrita por Ron Marz, um veterano dos comic books, com trabalhos publicados nas principais editoras americanas, “Samurai”, é uma série de aventuras romântica de recorte clássico, com uma forte base histórica e um ligeiro toque de erotismo, bem contada, com diálogos muito conseguidos (especialmente as falas dos mosqueteiros) e que se lê muito bem. Mas grande parte do sucesso da série deve-se ao traço quase foto-realista de Luke Ross, nome artístico do brasileiro Luciano Queiroz, que concilia o dinamismo da planificação e das cenas de acção, com um rigor da reconstituição histórica pouco habitual nos comics americanos.

Um trabalho de reconstituição histórica que resulta de uma aturada pesquisa iconográfica, cujo processo o desenhador brasileiro descreve assim: “O Ron me mandou vários livros sobre samurais e também sobre os lugares que Shiro iria percorrer para encontrar Yoshiko: Versailles, Egipto e outros. Os livros me ajudaram na pesquisa mais minuciosa que fiz na internet em busca de melhores fotos sobre estes lugares. Como a maioria das fotos que encontrei eram bem recentes e a história se passa há 300 anos, evitei usar monumentos ou lugares que eu desconfiava serem mais modernos. Fiz muita pesquisa na internet em sites que tratam da moda no decorrer dos séculos e em sites que possuem galerias das obras dos principais pintores de cada século, e que retratam muito bem os costumes da época. Tudo para tentar reproduzir correctamente os lugares e os vestuários daquele período e convencer os leitores de que os personagens estão mesmo no século 18.

Samurai
Também recorri a várias BDs como “Lobo Solitário”, “Vagabond”, “Blade”, além de filmes do cineasta Akira Kurosawa, como “Os Sete Samurais”, Ran, Kagemusha, dentre outros. E também filmes mais recentes como “O Último Samurai”, “Azumi eZatoichi”.

Apesar de toda a pesquisa iconográfica de Ross, o argumento de Marz não evita alguns erros históricos (não há referência histórica a nenhum ataque chinês a Japão em 1704; depois da morte do seu Shogun, Shiro deixava de ser samurai e passava à categoria de ronin; e em 1704 os três mosqueteiros deviam ter mais de 80 anos, pois Alexandre Dumas situa a acção do seu romance em 1648…), mas que nem sequer escandalizam quando comparado com o que é infelizmente habitual nos comics americanos.

Bom exemplo de uma produção “mainstream” de qualidade, bem servida por uma excelente edição, “Samurai, Céu e Terra” não ficará na história da BD, mas é um produto sólido, que, depois do sucesso no estrangeiro, em Portugal parece estar a conseguir conquistar tanto os fãs dos comics, como os apreciadores da BD franco-belga.

(”Samurai: Céu e Terra”, de Ron Marz e Luke Ross, BDMania, 144 pags, 13,50 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Neil Gaiman chega ao cinema com Stardust

Segunda-feira, Outubro 15th, 2007

Em exibição nas salas de cinema nacionais desde o passado dia 27 de Setembro, “Stardust” é a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de Neil Gaiman, o criador de “Sandman” e “Mr. Punch”, a chegar ao grande ecrã.

Numa época em que as relações entre Banda Desenhada e cinema são cada vez mais intensas, a obra de Neil Gaiman não podia escapar ao radar dos estúdios de Hollywood. Considerado como um dos mais importantes nomes da BD de língua inglesa, e não só, muito por via da seminal série “Sandman”, Gaiman espalhou igualmente o seu talento pela literatura, tanto infantil como para adultos, mantendo-se ao mesmo tempo próximo do cinema e da televisão, das mais variadas formas. Seja adaptando os diálogos do filme “Princesa Mononoke”, de Myiazaki, escrevendo o guião da série “Neverwere” para a BBC, escrevendo o argumento de “Mirrormask” para o seu amigo Dave McKean realizar e até realizando ele próprio a curta metragem “A Short Film About John Bolton”, produzida por Matthew Vaughn, o realizador de “Stardust”.

Stardust

Mas ainda antes de ser um filme, “Stardust” começou por ser uma novela que Gaiman começou a escrever para ser ilustrada por Charles Vess, em 1991, logo a seguir a ambos terem ganho o World Fantasy Award com “A Midsummer’s Night Dream”, um episódio de Sandman, e que foi publicada em 1998 pela Vertigo, como uma mini-série em quatro partes, antes de ser recolhida num único volume. E logo em 1998, a Miramax quis transformar “Stardust” num filme, mas o projecto nunca foi avante, acabando os direitos cinematográficos por voltarem para Gaiman, uma vez expirada a cláusula de opção, que os vendeu a Matthem Vaughn, realizador de “Layer Cake” e produtor dos filmes de Guy Ritchie (cineasta mais conhecido por ser casado com Madonna…) em 2005, tendo este último convencido a Paramount a investir 65 milhões de dólares no filme.

Embora acompanhasse o processo de gestação do filme, tendo inclusive indicado Jane Goldman, a argumentista que, com Vaughn, adaptou o romance ao cinema, Gaiman sempre teve consciência que o filme seria diferente do livro. Como o próprio confessou “não queria que “Stardust” fosse um daqueles filmes que tentava ser completamente fiel ao livro e falhava”. E a verdade é que as diferenças são assinaláveis, começando pela dimensão mais sombria do livro (aterrorizador como os bons contos de fadas devem ser) que no filme é bastante amenizada por um humor britânico, pouco habitual neste tipo de filmes fantásticos. Um bom exemplo, são as personagens do comerciante, interpretado por Ricky Gervais (da série “The Office”), ou do Capitão Shakespeare, o comandante do navio voador, interpretado por Robert de Niro, que no livro se chama Johannes Alberic, e não tem uma faceta secreta de “drag queen”…

Stardust

Mas, não sendo tão interessante como o livro, “Stardust” é um filme divertido e que entretém, com uma imaginação que está ausente da maioria dos filmes do género, que se limitam a repisar os cânones de Tolkien e seguidores. E além disso, o elenco é de respeito, como uma notável Michelle Pfeifer que faz uma bruxa fabulosa, bem secundada por Claire Danes no papel da Estrela Cadente.

Se o leitor gostou de “Stardust”, o filme, a minha ideia é que irá gostar ainda mais do livro que lhe deu origem. Livro esse que está disponível em português numa edição da Presença, a que faltam lamentavelmente as ilustrações de Charles Vess. E, não desfazendo na tradução da Presença, “Stardust” ganha muito em ser lido na versão original, acompanhado pelos desenhos de Charles Vess. Desenhos belíssimos e que influenciaram decisivamente a própria evolução da história, como confessa Neil Gaiman quando diz que: “uma grande parte da história surgiu comigo a pensar: “era giro ver esta cena desenhada pelo Charles Vess”.

(“Stardust”, de Matthew Vaughn, com Michelle Pfeifer, Claire Danes e Robert de Niro, em exibição em Coimbra nos cinemas Lusomundo Dolce Vita)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Monumento

Domingo, Outubro 7th, 2007

A edição de BD tem sido (bem) abalada por algumas surpresas muito agradáveis. Primeiro foi o sucesso de Príncipe Valente, a que se seguiram as edições de obras tão importantes (e atípicas, em termos da panorâmica nacional) como Cidade de vidro (Karasik e Mazzucchelli, adaptando Auster) ou O amor é um inferno de Matt Groening, ás quais voltaremos. Porque o maior destaque deve ir para os dois primeiros volumes da colecção integral de Peanuts, a obra maior de Charles Schultz, uma aposta completamente inesperada das Edições Afrontamento na cuidada edição da norte-americana Fantagraphics, que inclui ainda entrevistas, estudos, ensaios; e conta com o excelente design do autor canadiano Seth. Um monumento à e da banda desenhada.

Pode não ter sido radicalmente inovador, mas Peanuts é uma obra referência que marcou as obras do género (e não só) que se lhe seguiram. Não só pelo desenho simples (mas não simplista, infelizmente s‹o coisas que se confundem muito), ou pelo uso das quatro vinhetas para retratar situações humorísticas, com a terceira vinheta a ter muitas vezes o papel de “pausa” antes da conclusão, ou ainda pela definição de um grupo de personagens muito bem caracterizadas, a viver nos subœrbios norte-americanos. Mas antes porque essas personagens, “crianças” num mundo sem adultos que interagem como adultos, se tornaram arquétipos poderosos, do inseguro mas “bom rapaz” Charlie Brown, à decidida e arrogante Lucy, passando pelo distante “intelectual” Schroeder, pela seguidora Marcy, pela empreendedora sem objectivos Patty, pelo generoso e crédulo Linus; e culminando naquele para quem impossível é nada, mesmo que apenas em fantasia, o cão Snoopy.

Peanuts

Peanuts tem alguma história entre nós, não tanto pela BD, mas talvez até mais pela animação e pelo “merchandising”, que a certa altura chegou a ser asfixiante. No entanto, e apesar da sua qualidade, um conhecedor ocasional é capaz de ficar algo perplexo com estes primeiros volumes, não tanto pelo estilo ainda não consolidado (logo menos familiar), mas porque a maioria das personagens está ainda por definir, não só em termos de representação gráfica, mas sobretudo de personalidade, com destaque para o emblemático Snoopy, aqui ainda (quase) só um cão. Apenas Lucy, e, em menor grau, Linus e Schroeder, surgiram desde logo com as características-base que lhes conhecemos. Na verdade é muito interessante ver como, longe de ser o pobre coitado em que se viria a transformar, ao início Charlie Brown tem uma confiança/arrogância que será depois claramente “sugada” pela neófita Lucy.

Ao analisar o percurso de Peanutso autor é tão fascinante quanto a obra. Charles Schultz é, de certo modo, um iconoclasta involuntário. Após a Depressão e a Segunda Grande Guerra, os anos de 1950 seriam anos de abundância, do trabalho em paz para a felicidade doméstica de subúrbio, com a popularização da cultura do automóvel e electrodomésticos (incluindo a televisão), e antes de novas inquietações na Coreia e (sobretudo) Vietname, ou da ameça iminente da Guerra Fria. Como é patente na entrevista incluída no primeiro volume, Schultz encarna esse ideal ascético e estóico do trabalho enquanto dever para o progresso pós-guerra, sobretudo por parte de quem vinha de tempos piores. Nessa perspectiva cumpre prazos, o seu trabalho nunca põe abertamente em causa o microcosmos social que retrata, Schultz nunca discute com os seus editores, aceitando limitações de espaço, propostas para as suas personagens extra-BD, e até mesmo a imposição de um nome para a sua série, Peanuts, que considerava idiota e degradante. Percebe-se, por isso, a sua animosidade perante autores bem mais exigentes e contestatários a esse nível, como Gary Trudeau (autor do politicamente empenhado Doonesbury), que Schultz classificava como, lá está, pouco profissional.

Peanuts

Claro que, para lá do (suposto) optimismo e da alegria no trabalho, a década de 1950 foi também sintomática do iníco do “spleen” contemporâneo na mesma vida de subœrbio, com a angœstia e a insatisfação por vidas previsíveis e programadas a germinarem logo abaixo do artificialismo idílico (veja-se o episódio respectivo de The Hours), num caminho que levaria à popularização de antidepressivos e psicanálise (e a Happiness de Todd Solondz ou mesmo à caricatura em American Beauty ou Desperate Housewives). Toda essa bipolaridade angustiada está claramente presente desde o início em Peanuts, com a insegurança e a arrogância, a generosidade e a inveja, a surgirem nas mesmas personagens (por vezes em simultâneo). Com a insatisfação e a vontade de fazer a esbarrar em dificuldades constantes, desde a necessidade de conforto e o medo do risco, à simples falta de talento, como nos famosos falhanços desportivos de Charlie Brown. Um mundo do qual a œnica escapatória parece ser a fantasia de Snoopy, o contraponto de Charlie Brown. Para mais os protagonistas s‹o crianças, com a dupla inquietação que isso acarreta. Não só o uso destas personagens geralmente é mais anódino e lamechas, como o retrato (realista) de Schultz não dá grande azo a prever futuros muito diferentes do presente. Claro que as situações humorísticas se “lêem”, a outro nível, sem considerar nada disto. Mas esperava-se que um retrato psico-social brilhante desta natureza fosse realizado por um contestário assumido, e não por um modesto puritano perfeitamente integrado no sistema, que se recusou sempre a fazer grandes leituras do seu trabalho. Á isso que é notável, e aí reside o maior fascínio destas tiras. A análise incisiva enquanto reflexo involuntário. Não só (mas também) por isso é urgente ler hoje Peanuts. Esta é uma edição fundamental, a obra do ano.

Peanuts, Obra Completa 1, 1950-1952. 325 pp.
Peanuts, Obra Completa 2, 1953-1954. 345 pp.
Argumento e desenhos de Charles M. Schultz. Edições Afrontamento, 23 Euros.

Artigo escrito por: João Ramalho Santos