Alternativas
Face ao estado actual do mercado nacional de Banda Desenhada torna-se cada vez mais difícil para os autores portugueses conseguiram ver os seus trabalhos publicados pelas editoras nacionais e distribuídos nas Livrarias. A alternativa passa pela auto-edição, ou pelo recurso a editoras independentes com circuitos de distribuição alternativos, que permitam chegar a um público bem mais seleccionado do que o das livrarias tradicionais, mas ainda assim relativamente alargado. A impressão digital e o “print on demand” têm sido a solução encontrada por alguns autores, mas no caso dos dois livros que motivam este texto, a opção foi pela impressão tradicional e por uma tiragem, realisticamente ambiciosa, de 500 exemplares.
Mas além da tiragem, de estas edições estarem à venda em Coimbra na Livraria Dr. Kartoon e dos seus autores virem do mundo dos fanzines (Teresa C. Pestana do “Gambuzine” e José Feitor do saudoso “Zundap”) “Postais de Viagem”, de Teresa Câmara Pestana e “Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques têm outros pontos em comum. Desde logo, o facto de não serem dois livros de Banda Desenhada em sentido tradicional, mas antes mais próximos do livro ilustrado. Obras que articulam texto (muito mais sintético em “Babinski”) e imagem, de uma forma que vem de encontro à descrição que Rodolphe Topfer (pintor e ilustrador suíço do século XIX, considerado como o “inventor” da Banda Desenhada) fez do seu trabalho ao seu amigo Goethe, dizendo-lhe que: “O conjunto dos dois [texto e imagem] forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa.
Mas falemos então de cada um dos livros, começando por “Postais de Viagem” que, como a autora refere no site do Gambuzine: “teve a sua raiz num ensaio excessivamente longo sobre o vodu, resultante da minha estadia na costa oeste africana; como não lhe queria acentuar o lado descritivo, ilustrei-o, reduzi o texto ao mínimo, embuti-lhe uma narração assim surge “postais de viagem”. O ensaio era de 92, em 2002 passou a ter postais ,e depois esperou 5 anos pelo seu momento, um pouco tarde, mas não tarde demais”.
O livro de Teresa C. Pestana inicia-se quase como um policial, com a narradora/autora a partir para o Togo em busca de uma amiga desaparecida, mas essa intriga cedo ganha um papel secundário face ao relato, numa perspectiva mais antropológica, da relação dos africanos com a magia, através dos rituais do vodu, visto por uma ocidental que, embora procurando integrar-se, será sempre uma estrangeira. E se o texto consegue transmitir muita informação de forma acessível e interessante, as ilustrações, em que o grafismo sombrio e falsamente naif de Teresa C. Pestana se aproxima da arte africana, criam um curioso diálogo com o texto, resultando num produto final à altura das ambições da autora e do tempo que levou a desenvolver este projecto.
Quanto a “Babinski”, o ponto de partida deste belo livro num formato italiano pouco habitual, é uma história dentro da história do livro “Der Golem” de Gustav Meyrink, um clássico da literatura fantástica que cristaliza uma das mais interessantes personagens da mitologia hebraica. Em vez do golem e do rabi que o criou a partir do barro, José Feitor escolheu contar a história de Babinski, o salteador de Praga, que depois de escapar à morte quando a corda com que ia ser enforcado se partiu, decide mudar radicalmente de vida. É essa história de crime, castigo e redenção, que José Feitor conta em frases muito curtas e neutras, que as ilustrações barrocas de Luís Henriques confrontam, ironizam e reinterpretam com o talento que se lhe reconhece, usando o texto como ponto de partida para uma série de imagens capazes de gerar só por si outras histórias. Veja-se o caso da biblioteca em que os livros gigantes formam colinas e montanhas onde crescem árvores e se passeiam animais, que podia ter saído de um conto de Borges.
Depois da estreia fulgurante com o “Tratado de Umbrografia”, primeiro volume da série “Black Box Stories” (ver “Diário As Beiras” de 16/12/2006), Luís Henriques dá mais uma vez provas do seu grande talento gráfico, através de umas boas dezenas de ilustrações feitas com uma técnica de “hachures” que a aproxima da gravura, e onde não faltam referências e piscadelas de olho em termos de História da Arte, que vão de Piranesi e Piero de la Francesca, passando por Doré e Francis Masse. E, curiosamente, tratando-se de uma obra que está muito mais próxima do livro ilustrado do que propriamente da banda desenhada, Henriques vai utilizar elementos característicos da BD, como os balões, ou a divisão da ilustração em vários quadrados, na sequência da prisão que escolhi para ilustrar este texto.
Resta esperar que estes dois trabalhos, tão diferentes entre si, apesar dos vários pontos de contacto e da vontade comum de chegar aos leitores interessados, encontrem o seu público.
(“Postais de Viagem”, de Teresa C. Pestana, Ed. de Autor, 56 pags, 10,0 €
“Babinski”, de José Feitor e Luís Henriques, Imprensa Canalha, 80 pags, 14,0 €)
Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

