Simplificar
Sexta-feira, Setembro 28th, 2007Pedagogia. Uma palavra que leva muita gente a procurar refúgio. Incluindo, desconfio, alguns pedagogos. É um daqueles assuntos demasiado importantes para frivolidades, e demasiado volátil para discuss›es serenas. Mas que, para lá de todas as polémicas, se reduz a dois pontos muito simples. Não se pode fazer pedagogia, do que quer que seja, a partir de uma posição de ignorância. E ser-se pedagógico implica (também) simplificar. O corolário é que é preciso saber-se muito mais do que aquilo que se pretende transmitir, quaisquer que sejam os (presumidos) conhecimentos e capacidades de um potencial público. Isto para saber onde fazer concessões, distinguir o essencial do acessório, e, neste, o acessório que pode ser útil. Só assim se consegue simplificar sem cometer erros grosseiros, sem deixar um texto ininteligível, onde a cénica solução parece ser memorizar o caos. Quanto mais difícil o tópico, tanto mais complicada é a tarefa de destilar a essência.
De um ponto de vista pessoal, e enquanto biólogo, o teste de qualquer obra pedagógica (nomeadamente no ensino secundário) é o modo como aborda temas tradicionalmente “difíceis” do metabolismo celular, incluindo a fermentação, a respiração aeróbica, a fotossíntese. Difíceis, lá está, porque geralmente mal explicados, mal simplificados. E este é apenas um tópico de uma área, de uma ciência. Que dizer de todo o Universo, mesmo que aqui Universo “apenas” signifique a História da Vida e da Humanidade? Como se simplifica tal coisa? É-se Larry Gonick e usa-se a banda desenhada. O primeiro volume da colectânea A História do Universo em banda desenhada reœne os sete primeiros livros deste trabalho, abordando desde o Big Bang até Alexandre o Grande, com toda a evolução da vida e do Homem de permeio. É um trabalho fascinante que parece negar o aforismo habitual para obras desta natureza. Do ponto de vista crítico definir uma obra como “pedagógica” significa, quase sempre, declarar implicitamente a sua menoridade enquanto obra; e, quando a obra é em BD, é bem capaz de arriscar duas menoridades pelo preço de uma.
Gonick ataca o desafio pesquisando e lendo, muito. Sem ser completa (o que seria impossível) a bibliografia é extensa, e não particularmente fácil. Depois, o autor fez escolhas, muitas, muitas escolhas, marcadas sem dœvida pelas leituras que mais ressoaram. Escolheu linhas narrativas, escolheu histórias interessantes e abordagens que até podem ser polémicas, procurando fundamentá-las o mais possível. O que nem sempre é fácil: no campo da evolução cósmica e biológica, da vida à espécie humana, passando pela evolução do sexo, e para além da evidência insofismível de que a Evolução existiu e existe, qualquer abordagem terá mesmo de ter um cunho especulativo, dada a natureza indirecta dos registos. Desse ponto de vista é muito interessante, por exemplo, a leitura da Pré-História Humana de um ponto de vista femininista, uma perspectiva que, curiosamente também, o autor parece esquecer à medida que entra na História (aqui nota-se claramente a influência da escolha bibliográfica). Neste caso o percurso é, de certo modo, mais “canânico” em termos de momentos considerados chave, apesar de Gonick lançar constantemente provocações que pretendem re-equacionar imagens estabelecidas sobre diferentes descobertas e acontecimentos, ou apresentar outros, menos conhecidos. Mas espera-se que os próximos volumes aliviem um pouco da progressão histórica “clássica” seguida até aqui, e revelem algo mais da iconoclastia pré-histórica.
Quanto ao desenho, o “cartoon” é a escolha ideal para uma obra desta natureza, devido ao seu poder de síntese e ao cunho humorístico. Um “gag” œnico pode resumir de forma eficaz séculos, enquanto um traço realista pareceria forçado, porquanto o leitor espera coisas distintas dos diferentes tipos de desenho. Uma representação realista “pede” uma narração equivalente (difícil neste caso), enquanto o “cartoon” é intuído de forma simbólica. Este problema é de resto comum em muitas obras ditas “pedagógicas” em BD. No entanto o “cartoon” tem também um poder de finalidade, no sentido em que reduz a possibilidade de diferentes interpretações. A figuração exacta, ou, por influência de ironia, o seu oposto. Mesmo que o autor seja muito honesto e explícito nos pontos em que a sua linha narrativa é mais pessoal e especulativa, o que é facto é que as escolhas finais são as que permanecem com o leitor. A “verdade última”. E é sabido como a memória de informações adquiridas em obras deste género (mesmo que erradas) pode ser particularmente viva. Por outro lado é inevitável que a simplificação pedida pela natureza da obra faça com que especialistas nas várias áreas do saber abordadas por Gonick detectem omissões, exageros, desequilíbrios. Estas questões s‹o minimizadas pelo facto de A História do Universo em banda desenhada contar histórias estimulantes, daquelas que dá vontade ler, discutir e, sobretudo, aprofundar. Ou seja, é uma obra que desafia o leitor a saber mais do que aquilo que a obra em si conta. E mesmo, eventualmente, a discordar das posições do autor. Não é esse o objectivo de qualquer obra com cunho pedagógico? De resto, e como exemplo do seu potencial a este nível, a banda desenhada dificilmente poderia contar com melhor embaixador.
A História do Universo em banda desenhada I: Do Big Bang a Alexandre o Grande. Argumento e desenhos de Larry Gonick. Gradiva, 360 pp., 20 Euros.
Artigo escrito por: João Ramalho Santos











