Archive for Agosto, 2007

Máscaras

Quinta-feira, Agosto 16th, 2007

Navegar entre destroços, na busca de um sentido que defina, descodifique, o presente. Mas que se esconde em memórias pouco fiáveis, aparências, símbolos, pesadelos, percursos repetido numa espiral que aperta até forçar alguma resolução. Esse tem sido o mote das colaborações em banda desenhada entre Neil Gaiman e Dave McKean. Mas talvez haja um modo mais simples de as definir. O verdadeiro fio condutor é a iminência da morte, entendida enquanto aquilo que dá sentido à vida. Em Signal to Noise (1989-92) um cineasta (inspirado em Andrei Tarkovski) defronta-se com a sua própria mortalidade, tentando ordenar as memórias de si para os que ficam. Em Violent Cases (1987) e Mr Punch (1994) os protagonistas confrontam-se com a morte da memória, das referências, violências e medos que povoaram as respectivas influências; confrontam-se com a necessidade de emergir e, como diz o protagonista no final de Mr Punch, irem viver a sua vida.

Mr Punch

Mr Punch é uma evolução de Violent Cases, mais pelo tom do que pelo facto de terem (aparentemente) o mesmo jovem protagonista, a mesma voz (auto) biográfica. Em Violent Cases a memória tem um toque de exotismo e aventura, na forma de um possível osteopata de Al Capone, em Mr Punch o ambiente é marcado pelo espectáculo de fantoches de Punch e Judy, quase intradutivelmente britânico. Se em Violent Cases a família é feita de pouco mais do que um espectro bidimensional, em Mr Punch há o cuidado de nutrir cada fantasma, insuflar-lhe uma corporalidade que só a descrição detalhada da velhice, decadência e morte parecem conceder. Violent Cases pode ter gangsters, mas morre-se mais, e mais cruelmente, em Mr Punch. Sobretudo porque morrem mais mundos, não só os da família, mas os de antigas feiras e parques de divers›es que já ninguém visita, espectáculos que já não se procuram, deuses que já não são adorados.

Para além da sensação permanente de perda que emana de todas as suas histórias, como argumentista Neil Gaiman recore muita à sugestão fragmentada. Apesar de uma linha narrativa clara, há sempre a ideia de que o que se vê é apenas uma parte da superfície, que a história permanece incompleta; pedaços cruciais de verdade escondidos em pormenores subentendidos, a que o leitor terá de dar significado, já que as personagens ajudam pouco. A interpretação nem sempre é óbvia, e, mesmo quando o é, até que ponto se pode confiar em memórias de um rapaz sugestionável, quando o adulto em que se tornou recorda com facilidade apenas as vers›es envelhecidas dessas mesmas memórias? É certo que a subtileza de Gaiman é muito trabalhada, mas, e em relação a Violent Cases, Mr Punch evoluiu também (ou sobretudo) por via do trabalho gráfico de Dave McKean. De resto, e apesar do nome de Gaiman, é muito provável que a maioria dos folheadores de livraria aprecie pela primeira vez este livro como um delírio visual em estado puro, pouco se importando com as subtilezas de uma história impossível de captar durante a hipnose inicial. Talvez nem reparem que o livro é de banda desenhada. Aliás, foi por isso mesmo que se começou por discutir o argumento.

Mr Punch

Fazendo a devida vénia a Peter Greenaway, McKean interpreta a narrativa de Gaiman mesclando desenho e colagens dos mais diversos objectos e materiais. Se por vezes as suas soluções arriscam alguma cacofonia gráfica, as lições de depuração cultivadas na sua obra pessoal Cages, bem como uma planificação quase sempre convencional, permitem um equilíbrio que chega a ser brilhante na sua envolvência. A melancolia das conversas com os avós, por exemplo é dada pelo desenho ascético, angular, e, nessa perspectiva, é aquele passado, por ténue que seja na memória do protagonista, que tem a clareza do “real”. Por outro lado, são os sonhos, os medos e as memórias (mas apenas as memórias indirectas, a necessitar de interpretação), que despoletam o uso aberto de outras soluções gráficas. Fotografias marcam os relatos de familiares no “presente”, as paisagens galesas por onde andou o avô (embora este surja como um gigantone); o protagonista desenhado passa a fotografia distorcida quando sonha. Mas há um pretexto muito mais óbvio para as colagens de McKean; o próprio espectáculo bonecreiro de Punch e Judy, apresentado com fantoches “reais”. A história da peça infantil é uma espécie de (mau) conto de fadas clássico, no sentido em que se trata de uma versão que se desconfia não ser apropriada para o público a que se destina. Punch é um ser amoral, destinado a repetir ciclicamente os seus crimes sem castigo, matando, com desenvoltura e ironia, desde o filho bebé até ao Diabo. A violência do espectáculo de fantoches não é, como é óbvio, fortuita. Contrasta com outras violências, das que não se podem resolver poisando bonecos até à próxima actuação. Como o exílio familiar do protagonista, ou a (suposta?) criança indesejada da falsa sereia, ou o estranho destino do tio corcunda. Cada uma dessas histórias a correr o risco de se repetir, até que o tempo as pare, ou as personagens decidam viver outras partes das suas vidas. Mr Punch tem como título completo A trágica comédia ou cómica tragédia de Mr Punch. Como se depreende acima, é todo um programa. Um livro ideal para seduzir quem nunca lê banda desenhada.

(A trágica comédia ou cómica tragédia de Mr Punch. Argumento de Neil Gaiman, desenhos de Dave McKean. VitaminaBD. 82 pp. 19,90 Euros.)

Artigo escrito por: João Ramalho Santos

Dois Franceses no Quebeque

Terça-feira, Agosto 7th, 2007

Uma das principais diferenças entre a Banda desenhada franco-belga e os comics americanos, reside na forma diversa como os desenhadores trabalham. Nos comics das grandes editoras o mais habitual é haver uma clara separação de tarefas, com um argumentista, um desenhador para o lápis e outro para a arte-final (passagem a tinta), um colorista, um responsável pela legendagem, muitas vezes com cada um numa cidade diferente, cabendo ao editor coordenar toda essa gente. Já na BD franco belga, a regra é ser o desenhador a assegurar o desenho a lápis, a passagem a tinta e muitas vezes a cor, quando não escreve também o argumento…

Claro que, para cada regra há sempre excepções. Basta pensar num americano como Frank Miller, que escreve, desenha e legenda as suas histórias de “Sin City”, ou nos europeus Hergé e Hugo Pratt, que tinham assistentes que asseguravam as partes mais morosas do desenho, como os cenários, ou as máquinas.

Armazém Central: Marie

Esta (longa) introdução vem a propósito de “Armazém Central”, uma trilogia que reúne dois veteranos da BD francesa, Loisel e Tripp, numa colaboração “à americana”, de que as Edições Asa lançaram há poucos meses o primeiro volume, “Marie”. Se Loisel dispensa apresentações para os leitores portugueses que acompanharam o seu trabalho em “Peter Pan” e “Em Busca do Pássaro do Tempo”,  já Tripp, apesar de uma carreira de quase 30 anos é praticamente desconhecido em Portugal, onde nunca foi publicado.

Na origem desta colaboração em moldes poucos habituais para a BD franco-belga, está o facto dos dois autores partilharem o mesmo atellier em Montreal, no Canadá, o que lhes permitiu descobrir que eram complementares, ou nas palavras de Tripp, que “um desenhador virtual, que fosse uma mistura dos dois, desenharia com muito mais prazer, sem esforço”. Com efeito, Loisel adora o desenho a lápis e aborrece-se mortalmente na fase de passar a tinta, enquanto que Tripp é exactamente ao contrário e, ao conseguirem que cada um faça apenas aquilo que mais gosta, conseguem produzir a um ritmo nada habitual no mercado francês, de tal modo que em pouco mais de um ano já foram publicados os dois primeiros álbuns desta trilogia passada em Notre-Dame-des-Lacs, uma aldeia perdida no Quebeque dos anos 20 do século XX.

Mas, passada a curiosidade de vermos dois autores franceses consagrados a trabalharem nestes moldes, falemos do resultado final patente neste primeiro volume de “Armazém Central”. Loisel, numa entrevista à revista “Bo Doi” define a história como “uma comédia à Frank Cappra (…) com um ambiente próximo das pinturas de Norman Rockwell”. E, se e termos de ambiente a coisa funciona muito bem, com os autores a traçarem um bem conseguido retrato nostálgico da vida no campo nessa época, a verdade é que, apesar das 76 páginas deste primeiro volume, a história pouco ou nada avança.

Armazém Central: Marie

Sabemos que a jovem viúva Marie Ducharme vai tomar conta sozinha do Armazém Central que era do seu marido, com cujo funeral se inicia a acção, e ficámos a conhecer algumas das maias pitorescas personagens da aldeia, mas pouco mais acontece de relevante neste álbum, com os autores a concentrarem-se sobretudo na descrição do ambiente campestre, e no dia a dia da comunidade de Notre-Dame-des-Lacs, gastando 5 ou 6 páginas com um baile que descamba em cena de pancadaria, e outras tantas páginas com as brincadeiras perigosas dos garotos da aldeia com um bode…

Vamos esperar que no próximo volume, já publicado em França, a intriga evolua, para que “Armazém Central” possa enfim atingir níveis próximos dos anteriores trabalhos de Loisel.

(”Armazém Central 1: Marie”, de Loisel e Tripp, Edições Asa, 80 pags, 14 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Cyann regressa a casa

Quarta-feira, Agosto 1st, 2007

Com uma ligeira “decalage” de dois meses em relação à edição original francesa, as Edições Asa acabam de publicar “As Cores de Marcade”, quarto volume de “O Ciclo de Cyann”, série de ficção científica com a assinatura inconfundível de François Bourgeon.

Nascido em Paris em 1945, Bourgeon adquiriu merecida fama no mundo da Banda Desenhada graças às séries “Os Passageiros do Vento” e “Os Companheiros do Crepúsculo”, ambas já publicadas em Portugal pela Meribérica. Duas séries de temática histórica que, além do grande rigor histórico e de um domínio perfeito da técnica narrativa, revelavam um desenho de grande sensualidade e realismo e um grande cuidado na construção das personagens, especialmente femininas.

Quando o autor decidiu abandonar a BD de temática histórica para se lançar no campo traiçoeiro, mas pleno de potencialidades, da Ficção Cientifica, com “O ciclo de Cyann” assumiu um grande desafio, que ainda não conseguiu vencer totalmente. Como não é fácil criar, a partir do nada, um universo complexo e coerente, Bourgeon solicitou o apoio de Claude Lacroix, especialista em universos paradoxais e narrativas de ficção cientifica, para juntos criarem o mundo de Cyann.

Ciclo de Cyann - tomo 4

A colaboração da dupla resultou num processo complexo e demorado, com uma primeira fase, em que Bourgeon se ocupou da criação do vestuário, dos personagens e dos aspectos tecnológicos, enquanto Lacroix criou os ambientes em que decorre a história, incluindo a fauna, flora e geografia dos vários planetas. A partir dai, Bourgeon encarregou-se da planificação, diálogos, desenhos e cor, da história concebida por ambos.

Só que o resultado final, os álbuns propriamente ditos, não tem conseguido estar à altura das ambições da dupla, nem no esforço investido na sua concretização… Talvez porque, em se tratando de um universo novo, no qual o leitor ainda não entrou completamente, falta-lhe todo um sistema de referências habitual, o que dificulta a sua adesão imediata a uma série indiscutivelmente bem feita, mas a que falta o golpe de génio a que Bourgeon nos habituou.

Depois de uma paragem de quase uma década entre o segundo e o terceiro volumes, motivada por complexas disputas judiciais entre os autores e a editora Casterman, a série mudou de editora e regressou em 2005 com “Aieia de Aldaal” (ver “Diário As Beiras”de 25/02/2006), um álbum de transição, que pouco adianta em termos de evolução da história que, sabemo-lo agora, está prevista para cinco volumes.

Em “As Cores de Marcade”, publicado menos de dois anos depois do álbum anterior, há uma evidente preocupação de recuperar o tempo perdido e fazer avançar a história, com resultados que, não sendo entusiasmantes, são claramente superiores aos conseguidos com “Aieia de Aldaal”.

Ciclo de Cyann - tomo 4

Não só o mundo de Marcade, em que a simples troca de palavras entre duas pessoas implica uma transacção comercial e um elaborado código de cores permite saber a capacidade económica de cada um, é muito mais interessante do que o planeta Aldaal do álbum anterior, como ainda por cima, a história avança com outra rapidez. Cyann consegue finalmente regressar a Olh para ser confrontada com um paradigma da literatura de ficção científica: quando se viaja no espaço o tempo passa mais lentamente para nós. Assim, a nossa (não muito simpática) heroina descobre que foi dada como morta e a sua linhagem considerada como extinta e que a sua amiga Nacara, agora uma velha, ocupou o seu lugar.

A evolução de Cyann, da adolescente mimada do primeiro álbum para a mulher amadurecida pelas dificuldades da vida, conclui-se no quinto volume, ultimo da série. Mas para o ler ainda vamos ter que esperar alguns anos, pois o próprio Bourgeon disse, numa entrevista à revista Bo Doi que só voltará a Cyann depois de acabar o álbum a solo em que trabalha agora, em que volta a abordar uma época histórica concreta.

Esperemos que o aguardado regresso ao passado de François Bourgeon signifique também o regresso aos tempos gloriosos de “Os Passageiros do Vento” e dos “Companheiros do Crepúsculo”, verdadeiras obras-primas que ajudaram a cimentar o seu estatuto como um nome maior da BD europeia.

(O Ciclo de Cyann 4: As Cores de Marcade”, de François Bourgeon e Claude Lacroix, Edições Asa, 72 pags, 15,75 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras
(publicado originalmente em 28/07/2007)