Corto Maltese nasceu há 40 anos
Domingo, Julho 22nd, 2007Fez esta quarta-feira, 10 de Julho, precisamente 40 anos que, nas páginas de “A Balada do Mar Salgado“, história cuja publicação se inicia no primeiro número da revista “Sgt. Kirk”, datado de 10 Julho de 1967, nasce Corto Maltese, o marinheiro romântico criado por Hugo Pratt. A Portugal essa história chegou só em 1981, nas páginas da revista “Tintin”, que começou a publicar a “Balada…”, sem o menor destaque, a 10 de Janeiro, concedendo-lhe a capa da revista, apenas 3 meses e 9 números depois.
Tudo começou no mar. É das águas do Oceano Pacífico, que é ele próprio o narrador da história, que surge pela primeira vez Corto Maltese, esse cavalheiro da fortuna e “pirata simpático” (como o definirá o Tenente Slütter), então náufrago forçado preso a uma jangada, e ainda mero figurante de uma aventura épica que marcará para sempre a BD europeia.
O marinheiro de Malta que traçou o seu próprio destino é aqui apenas mais um personagem de uma extraordinária galeria de actores secundários. O pragmatismo da sua actuação e a ironia e o aparente distanciamento com que disfarça a sua costela sentimental tornam-no uma personagem credível, mas menos marcante do que, por exemplo, o Tenente Slütter, herói tipicamente romântico, apanhado entre as exigências da sua missão e o rigor do seu código de honra, que acabará vítima da lógica fria dos exércitos em guerra. E há ainda o cruel Raspoutine, um louco homicida com o desejo patético de que gostem dele; a bela Pandora; Crânio, dividido entre o desejo de independência do seu povo e a fidelidade ao Monge; o misterioso Monge, que na sua ilha Escondida expia a dor de um amor trágico; o jovem Maori Tarao, legítimo herdeiro de uma raça de navegantes que em grandes canoas cruzaram todo o Pacífico, do Thaity à Nova Zelândia… Personagens inesquecíveis de uma saga épica mas plena de humanidade, que mais do que uma simples balada é um verdadeiro hino à aventura.
Assim, o principal tema desta história sem heróis definidos, reunindo um conjunto diverso de personagens com histórias próprias que a I Guerra Mundial colocou numa conjuntura que as ultrapassa, talvez seja o doloroso processo de passagem à idade adulta de Cain e Pandora Groovesnore, os dois jovens que a força do destino arrasta para uma aventura que nunca esquecerão.
Embora nesta aventura (como no resto da obra de Pratt) se misturem as mais variadas influências, desde as histórias de Franco Caprioli (clássico da BD italiana que influenciou também Milo Manara) aos romances de Stevenson, Conrad, Melville e London, e a filmes como “Revolta na Bounty”, Pratt confessa que a obra que mais o influenciou na criação da “Balada…” foi “A Lagoa Azul”, romance de Vere Stackpoole que deu origem a um filme indigente protagonizado por Brooke Shields, o que constitui mais uma prova do grande talento de Hugo Pratt, que lhe permitiu superar claramente a obra em que se inspirou.
Tal como Salgari, Pratt situa a acção num Pacífico imaginado, de que o autor veneziano só conhecia o que se avista da costa chilena. Este mar salgado nasce das páginas dos livros dos autores já citados e de muitos outros, como Homero e Coleridge, cuja “Rime of the Ancient Mariner” Cain lê ao longo da história. Talvez seja por isso que, como salienta Umberto Eco no prefácio à edição a cores do álbum, os personagens, apesar dos inúmeros mapas que possuem, andam perdidos num mar de sonhos e apenas Tarao, o jovem Maori que tem como portulanos as estrelas e um tubarão, consegue chegar onde pretende. Neste mar de papel, a magia do autor veneziano faz com que a geografia e o sonho se confundam. Quem sabe se a porta para os mares do Sul não se encontra algures num qualquer recanto de Veneza, pois é uma gôndola que ornamenta a bandeira do misterioso Monge, do mesmo modo que os indígenas polinésios falam um dialecto veneziano…
Embora percorram os quatro cantos do mundo, tanto Pratt como Corto depois de muitas viagens acabarão por regressar ao Pacífico, fechando assim um ciclo que leva Corto, que nasceu das águas, de volta ao mar, onde se junta ao seu criador. J. E. Cirlot, no seu “Diccionário de Símbolos”, refere-se ao mar como símbolo do carácter circular da ligação entre a vida e a morte. As águas dos oceanos são vistas não apenas como fonte da vida, mas também como o seu culminar. “Voltar ao mar é voltar à mãe, isto é, morrer”. Uma interpretação simbólica já utilizada por Pratt no álbum dedicado a Saint-Exupéry, em que a última vinheta, feita de mar e céu, é utilizada para representar de forma elíptica a morte do escritor. Também a vida de Corto se fecha num ciclo, com o personagem a voltar pela última vez ao Pacífico em “Mü”, a última história do marinheiro maltês desenhada por Pratt.
E se Corto irá, tudo indica, voltar pela mão de outros autores, já em 2008 ou 2009, o verdadeiro marinheiro maltês vive apenas nos livros de Pratt. A começar pela “Balada do Mar Salgado“, que podemos encontrar em português na versão a cores da Meribérica, ou, de preferência, na magnífica edição a preto e branco que a Casterman acaba de lançar para comemorar condignamente os 40 anos de aventuras de Corto Maltese.
Artigo escrito por: João Miguel Lameiras
(publicado originalmente no Diário As Beiras em 14/07/2007)







