Dr. Kartoon nas Festas do Bodo

Julho 24th, 2008

A partir de hoje 5feira (24 Julho) até à próxima 2feira (28 Julho) a Dr. Kartoon vai estar nas Festas do Bodo em Pombal numa mini-feira de Banda Desenhada, onde poderão encontrar livros desde 2€.
A livraria durante este período continuará aberta no horário normal.

Concurso de Banda Desenhada

Abril 1st, 2008

O Magazine de Artes de Coimbra e Afins (MACA) e a livraria Dr. Kartoon organizam um concurso de Banda Desenhada direccionado a todas as pessoas sem qualquer limite de idade e de nacionalidade. O tema é livre, mas é obrigatório uma referência gráfica à cidade de Coimbra .

Para mais informações e consultar o regulamento em formato .pdf, clicar aqui.

Wanya regressa a Orongo

Fevereiro 19th, 2008

Título seminal da Banda Desenhada portuguesa da década de 70 do Século XX e uma das raras incursões nacionais pela BD de ficção científica, “Wanya, Escala em Orongo” acaba de ser reeditado pela Gradiva numa edição especial numerada, lançada 35 anos depois da primeira edição e 15 anos após a morte de Nelson Dias, o desenhador.

Publicada originalmente em 1973, em plena “Primavera Marcelista”, “Wanya” é claramente filha do seu tempo, tanto em termos estéticos, como literários. Filiada numa corrente de ficção científica da Banda Desenhada francesa, em que o erotismo se alia ao comentário social, lançada pelo editor Eric Losfeld, de que “Saga de Xam”, de Nicolas Devil, é o exemplo mais importante e influência directamente assumida pelo desenhador, “Wanya” demonstra que o impacto desta obra, e de outras como a “Barbarella” de Jean-Claude Forrest, também editada por Losfeld, se fez sentir em Portugal, apesar da censura que dificultava o acesso a este tipo de BD mais adulta e “engagé”.

Curiosa história de ficção científica libertária e de ressonâncias cósmicas, “Wanya” foi apontada por alguma crítica como tendo um tom político que presagiava as mudanças ocorridas com o 25 de Abril. E, mesmo que o argumentista Augusto Mota rejeite essa visão mais panfletária, frases como “o povo veio finalmente dos subterrâneos para a superfície”, ou a semelhança fonética entre o nome de Isar, o Deus/despota iluminado cuja morte veio libertar o povo de Citânia, e o nome de Salazar, falecido anos antes, permite essas leituras.

Wanya 1
Trinta e cinco anos depois da edição original, (re)ler “Wanya” permite constatar que o texto de Augusto Mota, cujo tom solene é muitas vezes redundante em relação ao que as imagens mostram, envelheceu pior que os desenhos de Nelson Dias, cuja técnica de pontilhado, na linha de Caprioli e dos primeiros trabalhos de Esban Maroto, é impressionante. Belo exemplo da estética da Pop Art e da absorção pela BD de elementos provenientes de outras artes, bem patente na sequência de duas páginas, de que escolhi uma para ilustrar este artigo, em que Vania conta a história da Terra aos habitante de Citânia, “Wanya” é um verdadeiro espectáculo visual e a prova cabal do grande talento de um desenhador, Nelson Dias, que infelizmente não deixou muita obra neste campo.

Com a excepção de “Eternus 9″, de Victor Mesquita, 5 ou 6 anos depois, em que o trabalho de Philipe Druilllet se afirma como influência principal, “Wanya” não deixou herdeiros, afirmando-se como um dos raros exemplos de ficção científica na BD nacional, o que torna ainda mais relevante a sua existência.

A edição da Gradiva, cuja capa, bastante mais conseguida do que a da edição original da Assírio & Alvim, recupera um estudo de Nelson Dias, respeita em tudo a primeira edição, inclusive nas gralhas do texto e na diferença de grafia do nome da protagonista, que de Wanya na capa, passa a Vania no interior. O único acrescento são os três prefácios, de interesse variável, que procuram contextualizar a obra para os leitores do Século XXI.

Wanya 2
Mas, se essa preocupação de enquadrar o álbum no contexto da época em que foi criado, é louvável, tão ou mais interessante teria sido publicar num caderno a cores as seis páginas existentes de “Wanya e o Povo dos Espelhos”, a segunda aventura de Wanya que ficou incompleta, Com a excepção do catálogo da segunda Exposição que o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian dedicou à Banda Desenhada portuguesa, essas pranchas permanecem inéditas, pelo que me parece que faria todo o sentido juntar essa história inacabada ao álbum que recupera a missão de Wanya em Orongo para uma nova geração de leitores. E mesmo em termos comerciais, parece-me que a inclusão da aventura inédita e incompleta de Wanya faria todo o sentido, pois seria uma importante mais valia que podia levar alguns dos leitores que já têm a edição da Assírio & Alvim a comprar esta nova edição.

(”Wanya: Escala em Orongo”, de Augusto Mota e Nelson Dias, Gradiva, 72 pags, 15,0 €)
(Blog: http://wanya-escalaemorongo.blogspot.com/)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Vitamina BD responde…

Fevereiro 4th, 2008

A BdMania e a VitaminaBD respondem a tudo o que sempre quiseste saber!

Com os respectivos planos editoriais para 2008 praticamente definidos, a VitaminaBD e o braço editorial da BdMania estão prontas a revelar o que aí vem. Mas não só: as duas editoras vão responder às tuas perguntas também. Tudo o que queres saber sobre títulos, autores, continuações, cancelamentos, distribuição, polémicas, etc, podes agora perguntar.

Basta enviares até 8 de Fevereiro as tuas perguntas (máximo: duas) para geral [at] drkartoon [ponto] com e, se estiverem entre as escolhidas, poderás ler em breve as respostas aqui.

Banda de Garagem

Janeiro 15th, 2008

Graças à Vitamina BD, que na colecção 100 Sentidos acaba de publicar “O Local”, os leitores portugueses têm finalmente oportunidade de descobrir o trabalho do italiano Gipi, um dos mais interessantes autores de Banda Desenhada da actualidade.

Gianni Pacinotti de seu nome, este italiano nascido em Pisa em 1963, começou por se dedicar à ilustração e à publicidade (foi director artístico numa agência de comunicação) antes de decidir contar histórias em imagens, quer através das curtas metragens de animação, produzidas pelo estúdio Santa Maria Vídeo que criou,quer através da BD, campo em que se estreou com quase 30 anos, com diversas histórias curtas espalhadas por diversas revistas italianas. Apesar de ter demorado mais de 10 anos a publicar o seu primeiro álbum, com “Esterno Notte”, uma colectânea de trabalhos dispersos, editada em 2003, Gipi torna-se conhecido a nível internacional, com o magnífico “Appunti Per una storia di Guerra”, de
2004, que, além de ter sido editado em Espanha, Alemanha, França e Estados Unidos, ganhou os Prémios de Melhor Álbum e de Melhor Argumento no Festival de Angoulême de 2006.

O Local
Curiosamente, em vez de “Appunti Per una storia di Guerra”, a Vitamina BD optou por “O Local” para a estreia de Gipi em português, talvez pelo aspecto gráfico mais atraente de “O Local”, ou pela universalidade do tema, que permite uma mais fácil identificação dos leitores com as dificuldades dos quatro amigos em arranjar um espaço para a sua banda ensaiar, do que com a questão da guerra na ex-Jugoslávia, que funciona como pano de fundo de “Appunti…”. História de quatro amigos adolescentes tão diferentes entre si, mas unidos pelo desejo comum de fazer música, e das coisas que têm que fazer para conseguir manter esse sonho vivo, contada em cinco capítulos que correspondem a outras tantas canções, “O Local” lê-se muito bem. Mas apesar da justeza dos diálogos e da forma como as personagens evoluem, a singeleza da história, muito bem contada, mas quase banal, faz com que tenhamos alguma dificuldade em aperceber-nos pela leitura de “O Local” de que Gipi é, de facto, um notável autor de BD. Curiosamente, esta história com final feliz, de quatro adolescentes e da
sua banda de garagem, nasceu num momento difícil da vida pessoal de Gipi, que tinha perdido o pai um mês antes de começar a escrever a história. E, se na versão inicial, um dos quatro amigos morria, Gipi acabaria por aligeirar a história, ou como o próprio referiu numa entrevista: “cheguei à conclusão que não queria contar uma história tão triste e optei por
transferir o conceito de perda e da vida que continua, de uma pessoa para um espaço físico”. O tal local onde os quatro amigos ensaiavam, cedido temporariamente pelo pai de um deles, enquanto não fizessem nenhuma asneira.

O Local
Se a sua apurada técnica de aguarela nos recorda outro autor italiano, Hugo Pratt, o traço rápido e esboçado, quase caligráfico, de Gipi, faz lembrar outro grande contador de histórias, o francês Joann Sfar, cuja necessidade de desenhar com rapidez é compartilhada por Gipi, como se pode perceber de uma entrevista a um jornal espanhol, em que este diz : “a
rapidez na realização das páginas é muito importante para mim, pois o que me dá mais prazer não é o desenho em si, mas sim o contar de uma história através de desenhos”.

Além de dar os parabéns à Vitamina BD pela aposta em Gipi, faço votos para que a editora também publique “Appunti Per una storia di Guerra”, para que os leitores possam constatar que não há qualquer exagero no texto da contracapa de “O Local”, que se refere a Gipi como “um dos maiores narradores contemporâneos” que, de facto, é!

(”O Local”, de Gipi, 100 Sentidos/Vitamina BD, 120 pags, 16,50 €)
(Blog do autor: http://giannigipi.blogspot.com/)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Hermann em Afrika

Janeiro 4th, 2008

Um dos mais prolíficos autores europeus de Banda Desenhada, Hermann é também um dos raros autores cuja vastíssima produção o público português tem podido acompanhar com regularidade, graças ao esforço da Editora Vitamina BD que continua a apostar em força no excelente desenhador belga, de quem já publicou catorze álbuns, entre volumes das séries “Jeremiah” e “A Herança de Bois-Maury” e histórias auto-conclusivas.

“Afrika”, o décimo quinto álbum de Hermann editado pela Vitamina BD, que a editora lançou em fins de Dezembro, deixa perceber a razão desta firme aposta naquele que é um dos melhores desenhadores realistas da actualidade e cada vez mais um extraordinário colorista, qualidades que, neste caso, Hermann coloca ao serviço de uma das suas melhores histórias dos últimos tempos, uns bons furos acima dos argumentos que o seu filho lhe tem escrito, ou dos seus próprios guiões para a série “Jeremiah”. 

Afrika
Como o próprio título indica, “Afrika” tem por cenário o continente africano, local a que Hermann regressa 16 anos depois de “Missié Vandisandi”, trocando o turista europeu do álbum de 91, que chega a África pela primeira vez, por um veterano do continente africano, incapaz de viver na Europa para onde Karl Vandesande regressa no fim do álbum. Em “Afrika”, o protagonista, que nos guia através da história é Dário Ferrer, um ex-militar das forças especiais, que abandonou o exército para se tornar guarda florestal, responsável pela segurança de uma reserva florestal na África equatorial e que ao acompanhar Charlotte, uma jornalista que pretendia fazer uma reportagem sobre os caçadores furtivos, é testemunha acidental de um massacre das tropas governamentais sobre uma aldeia de rebeldes. O que os transforma, a ele e à jornalista que o acompanha, em testemunhas incómodas que é preciso eliminar, obrigando-os a fugir por uma selva inóspita, mas onde a fera mais perigosa continua a ser o homem. 

Sombrio e taciturno, com um respeito incomparavelmente maior pela terra e pelos animais de África, do que pelas gentes que habitam o continente, Dário Ferrer, o herói de “Afrika” tem grandes pontos de contacto com o seu criador, com quem partilha um grande desencanto em relação à humanidade em geral. Neste relato seco e sem concessões, Hermann nunca cede à tentação de “dourar a pílula”, numa história contada com o rigor de um metrónomo, em que nada é supérfluo. Veja-se a forma como são retratados os políticos, tanto africanos como europeus, ou mesmo Iseko, a companheira negra de Ferrer, que acaba por ceder aos avanços do seu seboso vizinho, perante a promessa deste a tirar de África e levá-la a conhecer a Europa.

Afrika
Outro aspecto em que Hermann não cede às convenções do “happy end” hollywoodiano é no retrato da relação entre Dário e Charlotte, cujo esperado  envolvimento romântico nunca se chega a concretizar, ou no final elíptico, em que Dário se suicida fazendo justiça, ao destruir com uma avioneta carregada de explosivos a sede na Tasmania da empresa multinacional que ajudou a abafar o massacre, numa cena que nunca nos é mostrada.

Em termos gráficos, pouco há a dizer sobre Hermann que não tenha já sido dito. Senhor de um virtuosismo impressionante, tanto no traço, no dinamismo da planificação, como na aplicação da cor directa, Herman supera-se aqui nas cenas com os animais, como podemos ver na sequência que escolhi para ilustrar este artigo, em que um leopardo caça um antílope.

Prestes a completar 70 anos, Herman tem sabido envelhecer como um bom vinho, refinando as suas qualidades. Qualidades essas bem patentes neste seu regresso a África, com “Afrika”, uma das melhores colheitas Hermann
dos últimos anos.

(“Afrika”, de Hermann, Vitamina BD, 56 pags, 13,0 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

Os melhores de 2007 - Parte II

Dezembro 30th, 2007

Depois da primeira lista bem variada dos melhores de 2007, fica agora a lista de Fernando Ferreira com os 10 melhores mangás lidos este ano que está a terminar.

01. MW, de Osamu Tezuka
02. Abandon the Old in Tokyo, de Yoshihiro Tatsumi
03. Non Non Bâ, de Shigeru Mizuki
04. Diario de una Desaparicion, de Hideo Azuma
05. Azumanga Daioh Omnibus, de Kiyohiko Azuma
06. Death Note, de Takeshi Obata / Tsugumi Ohba
07. Museum of Terror, de Junji Ito
08. Le gourmet solitaire, de Taniguchi Jiro / Kusumi Masayuki
09. Blue, de Nananan Kiriko
10. Japan, de VVAA

Os melhores de 2007 - Parte I

Dezembro 29th, 2007

Estamos em época de balanço do ano que está a terminar e como é comum nesta altura chegam os tops disto e daquilo. A Livraria Dr. Kartoon também adere e elege os melhores de 2007. João Miguel Lameiras é o primeiro a deixar aqui a sua lista dos dez melhores livros lidos em 2007.

01. Alice in Sunderland, de Bryan Talbot
02. Fun Home, de Allison Bechdel
03. Monster, de Naoki Urusawa
04. Captain America, de Ed Brubaker
05. Zoo, de Frank Bonifay
06. Capote in Kansas, de Ande Parks
07. The Complete Peanuts, de Charles M. Shultz
08. The Waliking Dead, de Robert Kirkman
09. Ou le regard ne porte pas, de George Abolin
10. Muchacho, de Lepage

Gary Larson finalmente em português

Dezembro 9th, 2007

Um dos acontecimentos editoriais do ano, a estreia de Gary Larson em português pelas mãos da Gradiva apenas peca por tardia. Conhecido sobretudo pela série humorística “Farside”, publicada em milhares de jornais por todo o mundo, entre 1980 e 1995, Larson chega às livrarias nacionais, não com a sua série-fetiche, mas com “Há um Cabelo na minha Terra!”, uma história de minhocas narrada como um conto ilustrado, publicada originalmente em 1998 e que é o seu último trabalho, até à data.

Nascido em 1950, em Tacoma, Washington, Gary Larson frequentou a Washington Sate University na área de ciências, antes de decidir licenciar-se em comunicação e acabar por ganhar a vida como cartoonista, primeiro em jornais de Seattle e mais tarde no “San Francisco Chronicle”, que distribuiu a série “Far Side” a nível global. Essa formação científica inicial reflecte-se nos seus cartoons, protagonizados por animais de comportamento humano, cuja enorme popularidade junto da comunidade científica lhe valeu a honra pouco habitual de ver o seu nome dado a duas novas espécies animais, um piolho das corujas (o “Strigiphilus Garylarsoni”) e uma borboleta da floresta equatorial (a “Serratoterga Larsoni”).

Em 1 Janeiro de 1995, após 15 anos de publicação regular, de que resultaram 22 livros de tiras, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos e traduções em 17 línguas e inúmeros prémios, Larson decidiu pôr fim à série “Far Side” no auge da sua popularidade e reformar-se, dedicando-se a outros interesses, como o jazz e as viagens. Uma reforma só interrompida em 1998, para fazer este “Há um Cabelo na minha terra!” que conhece agora edição portuguesa, graças à persistência de Guilherme Valente, editor da Gradiva, que satisfez todos os caprichos do autor, que raramente dá entrevistas e nunca se deixa fotografar, aceitando as condições draconianas impostas pelo contrato de edição, única forma de concretizar o seu sonho antigo de editar Larson em Portugal.

Com outro nível de produção (os cartoons de “Far Side” são a preto e branco e este livro explora as potencialidades estéticas e narrativas da cor), “Há um cabelo na minha terra!” prossegue com a mesma visão da natureza que já encontrávamos em “Far Side”, referidas pelo biólogo Edward O. Wilson no prefácio, onde diz: “Larson descreve o que nós, biólogos, sabemos há muito: a Natureza, é, efectivamente violenta e cruel.”

Há um Cabelo na minha Terra!
Assim, através da história que o pai minhoca conta ao seu filho, revoltado por ter encontrado um cabelo no seu prato de terra, percebemos que avisão idílica do campo e dos animaizinhos, esconde uma luta feroz e interminável pela sobrevivência, em que assenta o equilíbrio dos ecossistemas. Usando muito bem as duplas páginas, cheias de pequenos pormenores divertidos, Larson apresenta na da esquerda a visão ingénua e “new age” que a bela Henriqueta (tão bela quanto pode ser um humano desenhado por Larson…) tem da natureza, enquanto que na página da direita nos é explicado como essa mesma natureza, efectivamente, funciona.  Uma lição que Henriqueta só vai aprender demasiado tarde e  à sua custa, ao morrer infectada por um vírus transmitido por um rato, que ela tinha salvo de ser morto por uma cobra…

Esclarecida a origem do cabelo que aterrou no prato do filho minhoca, Larson termina lembrando-nos que mais tarde ou mais cedo, todos nós vamos servir de alimento às minhocas, como aconteceu à bela Henriqueta, dando assim a indispensável moral da história, com que terminavam sempre os bons contos infantis.

Bela introdução ao universo de Larson, esperemos que este livro tenha um sucesso que incentive o editor a continuar com a sua dura luta para convencer Larson, um dos raros autores que prefere não ser publicado, a deixar publicar em Portugal a série “Farside”.

(“Há um cabelo na minha terra! Uma história de minhocas”, de Gary Larson, Gradiva, 64 pags, 17 €)

Artigo escrito por: João Miguel Lameiras

O Regresso dos Portugueses IV: As propostas das editoras independentes

Dezembro 5th, 2007

Terminando a análise das novidades editoriais “made in Portugal”, lançadas durante o Festival da Amadora, que vieram animar a “reentrée bedéfila” de 2007, o espaço desta semana é destinado aos mais recentes lançamentos das Editoras Kingpin Comics e Pedranocharco, duas pequenas editoras que têm sabido apostar na divulgação dos autores nacionais, dando-lhes oportunidades de publicação.

Super Pig 3
Comecemos pela análise das séries da Kingpin, “Super Pig” e “C.A.O.S.”, que chegam ao terceiro número, precisamente um ano depois de ter saído o primeiro, no Festival da Amadora de 2006, confirmando um ritmo sustentado de publicação pouco habitual em projectos desta natureza.

E, no caso da série “C.A.O.S.”, este terceiro volume é também o último. Série de espionagem cuja acção se inicia em Portugal nos inícios dos anos 80, para terminar 13 anos depois, em Lisboa, com uma passagem pela Rússia de Boris Yeltsin, C.A.O.S., sem nunca chegar a deslumbrar, tem melhorado gradualmente de número para número, tanto em termos do desenho bastante agradável de Filipe Teixeira, como das cores, ainda assim demasiado planas de Carlos Geraldes. E mesmo o argumento, sem primar pela originalidade, vai ganhando em eficácia e fluência narrativa, resultando numa movimentada história de acção que se lê bem, com um ritmo e um aparato nas cenas de tiroteio (dignas de um filme de Hollywood) pouco habituais na BD portuguesa.

Seguindo um princípio vulgar nos comics americanos, um dos personagens da série C.A.O.S., o bem conseguido inspector Franco (uma espécie de cruzamento entre o Comissário Gordon e o Dirty Harry) vai também aparecer no nº 3 das aventuras de Super Pig, onde vai ter um papel importante, numa história que tem por base os jogos de poder na Fundação Calouste Pig, cuja administração o Super Pig acabou de herdar. A grande novidade deste 3º número, para além da cor, é a chegada de um novo desenhador, GEvan, cujo estilo “redondo” se adequa melhor ao universo de Super Pig, do que o desenho de Carlos Pedro (responsável pela arte dos dois primeiros números), que não se adaptava tão bem às personagens humanas como se adapta ao porco playboy. Além da arte digital de GEvan, cujos bonequinhos “cute”, se adoram ou detestam, não deixando ninguém indiferente, este Super Pig nº 3, traz também uma segunda história, que cria uma outra imagem de Super Pig, graças ao desenho de Eduardo Rebelo, um novo autor de grande potencial, com um traço bastante agradável e personalizado (mesmo que se notem influências de Sam Kieth) e um óptimo trabalho de cor.

Sexo, Mentiras e Fotocopias
Já a Pedranocharco, editora responsável pelo BD Jornal, lançou dois títulos de qualidade desigual (e um terceiro, “Formas de Pensar a BD”, de que falaremos brevemente) em que o “Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, ganha claramente face ao “Bang Bang” de Hugo Teixeira. Pré-publicado nas páginas do BD Jornal, “Sexo, Mentiras e Fotocópias” é um divertidíssimo exercício de humor, a partir de uma situação do quotidiano tão banal como kafkiana: um homem entra numa casa de fotocópias para pedir uma folha A3, mas a funcionária não lhe pode dar nem vender a folha, a menos que ele tire uma fotocópia. Tal como os Monty Phyton faziam nos seus scketches, Álvaro também prolonga o gag até ao limite do suportável, mantendo o leitor fixo à espera de uma punch line que tarda a chegar, conseguindo prende-lo às páginas do livro durante mais de 60 páginas. Aproveitando muito bem as potencialidades do seu traço limitado, este é o melhor trabalho de Álvaro, até agora, e a mais divertida BD portuguesa dos últimos anos.

Já o mesmo não se pode dizer de “Bang Bang”, de Hugo Teixeira, autor também habitual no “BD Jornal”, que aqui lança o primeiro capítulo do seu Western Spaguetti espacial, em versão mangá. Para além de não acontecer nada de relevante ao longo das quase quarenta páginas de história do primeiro número (não é por acaso que os mangas japoneses têm geralmente centenas, ou milhares de páginas), o pouco que acontece não ultrapassa os mais batidos clichés do género. Do mesmo modo, o traço ainda incipiente de Hugo Teixeira, que foi buscar à série “Trigun” inspiração para o visual da sua heroína, não se consegue libertar da influência de Totsumo Nihei, o desenhador de “Blame”.

Bang Bang 1
Ninguém põe em causa o mérito do trabalho de divulgação de novos autores levado a cabo por estas duas editoras. Mas se esse esforço é sempre louvável, convém que o trabalho desses autores já tenha um mínimo de maturidade e qualidade que justifique essa divulgação, o que, manifestamente, (ainda) não é o caso de Hugo Teixeira…

(”C.A.O.S. – Livro três” de Fernando Dordio Campos e Filipe Teixeira, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Super Pig” nº 3, de Mário Freitas, GEvan e Eduardo Rebelo, Kingpin Comics, 32 pags, 5,50 €

“Sexo, Mentiras e Fotocópias”, de Álvaro, Pedranocharco, 78 pags, 7 €

“Bang Bang”, de Hugo Teixeira, Pedranocharco, 68 pags, 7 €)

Artigo escrito por : João Miguel Lameiras